Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade

A esquizofrenia da política brasileira

As águas que atravessamos são turvas caro leitor. Momento de numerosas avaliações, poucas certeiras. Será que é bom acertar em tempos como esse, você me perguntaria.


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O partido da presidência da república (PT) vota contra o governo que ontem se aliou ao partido (PSDB) que pede sua cassação (Projeto que tira a obrigação da Petrobrás de explorar o pré-sal). As reformas propostas por esse governo atendem plenamente os interesses daqueles que defendem sua queda, em especial a reforma da previdência e a manutenção de juros elevados. Vai entender.

O leitor vai se intrigar ainda mais se eu disser que o atual governo federal tem prática, método e conduta de direita. Como assim? Os petralhas corruptos não são de esquerda? Não. Ao mesmo tempo que temos um governo desastroso (para ser educado) e absolutamente indefensável, advirto o leitor que é ingenuidade se deleitar na esteira oportunista de uma oposição que, com apoio de parte da mídia e do judiciário, encampa uma campanha de entreguismo e dilaceração do país só vista em períodos de golpes de estado.

Talvez tal campanha explique o volume histórico de filiações ao PT por parte, principalmente, de jovens, você sabia disso? Porquê esses jovens não se identificam com outros partidos?

É desanimador não vislumbrar uma ou mais alternativas ao binômio governo/oposição. Muitas forças de direita parecem crescer mais do que as organizações progressistas e de esquerda (Bolsonaro aparece com quase 7% em pesquisa para presidência, um caso de segurança nacional). Admito leitor, que desejo estar profundamente errado nessa análise, minha base de dados é meu mundo e ele é extremamente restrito.

Houve um tempo em que eu pensava que o Congresso Nacional não representava em nada o pensamento da população brasileira, outro erro meu. Ao ler muitos comentários na internet (espero que não os do querido leitor) sobre política e temas que tocam a democracia, identifico grande proximidade entre o obscurantismo, a ignorância e o conservadorismo que desfilam no parlamento e o imaginário coletivo de parte dos brasileiros.

O PT está no centro das atenções quando vota com o governo e quando vota contra ele, estampa todas as manchetes, é responsável pela crise e, uns acreditam, a saída para ela. É o partido mais corrupto e o que mais fez pelo Brasil. Todas essas afirmações são problemáticas.

O PMDB que tem a vice-presidência da República, a presidência da Câmara, do Senado, o maior número de deputados, de senadores, de governadores, de prefeitos e vereadores, no fundo o partido que sintetiza o fétido sistema político brasileiro, pouco é questionado e não merece as emoções nem do caro leitor provavelmente. Porque?

Triste de ver uma coalizão liderada pelo PT/PMDB governar como se fosse o PSDB/DEM é saber que se os últimos forem a única alternativa para o país o cenário pode ser agudamente pior.

Coragem talvez seja a virtude da vez caro leitor, coragem para se engajar e optar por grupos políticos de fora do espectro da ordem. Há eleições esse ano, eleger um legislativo com sintonia com o executivo seria um bom começo, ambos com coragem de fugir do discurso nonsense da crise e atacar as raízes das desigualdades enfrentando de verdade quem as produz.

Temos que nos ajudar caro leitor, só erraremos menos juntos.


Gregório Grisa

Doutor em Educação pela UFRGS e simpatiza com a ideia de que aquilo que muitos chamam inteligência pode ser, em grande medida, curiosidade.
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