aura mediocritas

Pega um café, sente-se e vamos conversar sobre as efemeridades (ou não) da vida...

Nayara Anhanha

Dizer quem sou é tão efêmero quanto falar sobre o tempo; sabemos que uma hora ou outra o sol vai voltar, mas nunca vamos saber quando a chuva vai cessar. Sou as minhas ideologias, meus anseios, no entanto eles mudam, são lapidados. A ignorância é achar que a razão é sempre a sua, imutável. Eu sou assim, uma metamorfose ambulante.

Vamos falar sobre literatura e mulheres?

Estrutural? Histórico ou só falta feeling da parte das mulheres mesmo? Dos 110 escritores premiados pelo Nobel de Literatura apenas 13 são escritoras. A Academia Brasileira de Letras tem apenas 5 mulheres dentre 40 membros. Será que não estamos escrevendo na mesma quantidade que os homens ou é preconceito editorial? Falta público? Estamos aí em meios alternativos nos fazendo ser ouvidas, no entanto há uma grande barreira imposta para inserção da literatura feminina no mercado e ela se mantém sólida.


womenwritersandambition.jpgIlustração "Women writers and ambition" por Meg Hunt

Desde já, esqueça, por um momento, o termo literatura para mulheres. Vamos desconstruí-lo, afinal o que o público feminino busca? E o masculino? Não soa um tanto quanto generalizado? O que faz crer que somente dieta, auto-ajuda, romance nos interessa? É o dizem as sugestões das livrarias, vá e visite alguma. Talvez você encontre perdida ao meio de tantos finais felizes alguma poesia. Segundo o mercado editorial, mulheres “ainda” gostam de capas femininas, apenas; ler gêneros como fantasia? Ficção? Ainda por cima cientifica?! Não se encaixam no padrão de gostos femininos.

 O pontoeletronico.me, criado pela agência de pesquisa Box1824, desenvolveu um infográfico[1] a partir de uma pesquisadora sobre literatura brasileira contemporânea, Regina Dalcastagnè. Nele é mostrado que não somente há uma minoria de escritoras, como também protagonistas mulheres. Quando lemos, muitas das vezes, buscamos uma fuga para uma vida paralela. Não queremos alguém parecidos com nós, apenas vidas, personalidades que, por aquele momento, estaremos vivenciando com a devida imersão; momentos que nos traga coragem, nos entristeça, nos compreenda. Será que a leitora conseguiria obter esta experiência literária com personagens homens? Tendo que nos mantermos como a namorada, amante e derivada do protagonista? A auxiliar do herói da história? Esta é uma realidade que se mantém na nossa estante pessoal e nas milhares de uma livraria. 

 Chegamos às autoras, pensem em nomes e não vale Clarice Lispector, hein? O site americano VIDA mantém porcentagens de gênero sobre resenhas em grandes publicações literárias. Ao longo de 2012, apenas 22% dos livros resenhados no “New York Review of Books”, 25% no “The Times Literary Supplement” e 23% no “The Nation” eram livros escritos por autoras. Muitas escritoras por aí, estão em blogs, meios alternativos se fazendo ouvir. No entanto a verdade é que sairão em editoras pequenas e ficarão com seus livros escondidos; tanto nas prateleiras, quanto na divulgação. Não obstante, a classe acadêmica de letras investe pouco em material sobre a literatura feminina. “Entre 1977 e 1989 foram produzidas no curso de Mestrado em Letras da PUC, Rio de Janeiro, 269 teses, das quais 19 abordaram o tema Mulher na Literatura, ou seja, 7,06% sobre o numero total de teses. Já no curso de Pós Graduação em Letras da UFRJ, das 437 teses de mestrados apresentadas entre os anos de 1973 a 1989, 41 referem-se à mulher, ou seja, 9,38% sobre o total dos trabalhos.” Diz Heloísa Buarque de Holanda em seu artigo[2]. 

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 A produção feminina sofre uma critica massiva. É preciso que haja cuidado para que a partir do achismo de quem lê, a personagem não se torne, erroneamente, um alter-ego da escritora. Além de que a visão do romance escrito por homens e mulheres são distintas aos olhares do público. Exatamente como Clara Averbuck mencionou em um entrevista “Quando um homem produz algo com temática romântica, ninguém questiona qualidade, ninguém diminui, todos ficam maravilhados com a sensibilidade do artista. Quando é escrito por mulher é, bom, coisa de “mulherzinha”. Meio ridículo, não?”. Há a consternação de ouvir elogios como “vocês escreve como um homem!”. São preceitos instituídos às mulheres que dificultam a livre criação. Há desigualdade sim, as causas são históricas e estruturais, porém de nada adianta reclamações. O que é passado já foi escrito e não pode ser editado então o que nos resta é sermos leitores conscientes. Como? Dê espaço, leia livros e não para mulheres, mas de mulheres. Isso sim é algo que ajuda, só há demanda quando aumenta à procura, é inevitável.

 Com o feminismo em voga, a busca pela visibilidade da mulher na literatura eclodiu. A editora cosacnaify possui uma coleção somente de escritoras. Sites como #KDmulheres[3] e o projeto leiamulheres2014[4] foram criados para incentivação. Além do ensaio feito pela fotografa Carrie Schneider, Reading Women[5], no qual retrata 70 mulheres lendo livros de autoras femininas. No ano de 2014 foi o primeiro ano em que o Prêmio São Paulo de Literatura chancelou uma mulher na categoria Livro do Ano, além da Marina Colasanti ganhar o Jabuti de Melhor Livro de Ficção do Ano. Para quem procura informação, materiais estão sendo produzidos O blog Ativismo de sofá[6] fez uma lista com 40 escritoras para ler antes de morrer. Leia-os, dê oportunidade tendo a consciência de que o consumo desequilibrado não é por falta de conteúdo ou talento das escritoras; é porque você ainda não deu oportunidade às mulheres para mostrarem o que têm a dizer (escrever). 

tumblr_msh0r2TMSV1qbge6eo6_1280.jpg laura_kira_roughdraft_web.jpg tumblr_msh0r2TMSV1qbge6eo3_1280.jpgEnsaio fotográfico "Reading Women" por Carrie Schneider

Referências e links:

[1]http://arquivo.pontoeletronico.me/2013/02/18/eu-quero-escrever-um-livro-sobre-literatura-brasileira/

[2]http://www.heloisabuarquedehollanda.com.br/os-estudos-sobre-mulher-e-literatura-no-brasil-uma-primeira-abordagem-9/

[3]http://kdmulheres.tumblr.com/

[4]http://leiamulheres2014.tumblr.com/

[5]http://www.huffingtonpost.com/mutualart/subtleties-in-reading-car_b_4632824.html

[6]http://ativismodesofa.blogspot.com.br/2014/10/40-escritoras-para-ler-antes-de-morrer.html


Nayara Anhanha

Dizer quem sou é tão efêmero quanto falar sobre o tempo; sabemos que uma hora ou outra o sol vai voltar, mas nunca vamos saber quando a chuva vai cessar. Sou as minhas ideologias, meus anseios, no entanto eles mudam, são lapidados. A ignorância é achar que a razão é sempre a sua, imutável. Eu sou assim, uma metamorfose ambulante..
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