Talita Barbosa

Mulher, baiana e quase jornalista.

Chico Buarque e suas mulheres ou as mulheres e o Chico Buarque?

Alguns dizem que o Chico Buarque entende completamente o universo feminino, outros discordam ferozmente de tal afirmação. No entanto, algumas de suas obras serviram para quebrar estereótipos pré-concebidos em relação à mulher, seja na década de 70 ou hoje, em pleno século XXI.


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Chico Buarque, é um músico muito conhecido por suas músicas que protestavam contra a ditadura militar que o Brasil viveu, mas também é um homem que escreveu sobre as mulheres e para elas. Ao dar à voz as mulheres em várias de suas canções, explorando o desejo sexual feminino entre outros temas. Em “O Meu Amor”, duas mulheres competem pelo amor de um homem, expondo o prazer que ele dá a cada uma delas.

E em cada verso, uma delas ganha voz para expor o prazer que sente ao estar com o homem amado, como podemos ver em: “O meu amor tem um jeito manso que é só seu/De me fazer rodeios, de me beijar os seios/Me beijar o ventre e me deixar em brasa/Desfruta do meu corpo como se o meu corpo/Fosse a sua casa”, o desejo sexual, a libido feminina ganha voz. Pois, vale lembrar, que na época em que a música foi escrita as mulheres não possuíam os direitos que hoje possuem. Eram vistas como propriedades dos seus maridos – não que esse pensamento machista não exista hoje, mas era pior na década de 70 -, não tinham direito ao voto e casar e ter filhos eram as únicas vontades que as mulheres deveriam ter. Mas, venhamos e convenhamos: essa ideia de competição entre mulheres tem um quê de machismo e uma boa pauta para discutir a sororidade, mas deixamos esse tópico para outro texto.

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Ainda na década de 70, Chico surpreende com “Mulheres de Atenas”, canção repleta de metáforas e antíteses, vista até como machista por algumas feministas da época. Mas, ao analisar a letra, é possível perceber a brincadeira do Chico em relação à condição da mulher na época, onde eram forçadas a serem submissas aos seus pais, maridos e irmãos. No verso: “Mirem-se no exemplo/Daquelas mulheres de Atenas/Secam por seus maridos/Orgulho e raça de Atenas”, o “Mirem-se” é uma antítese, pois o Chico sugere justamente o contrário, que as mulheres não se submetam, não morram por causa dos maridos, mas que façam exatamente o contrário.

"Geni e o Zepelim", canção feita para o musical Ópera do Malandro, conta a história de uma travesti (segundo o musical), que sofria preconceito em sua cidade, fato que não é diferente do que ocorre hoje, em pleno 2014 quase 2015. Mas, o Zepelim ao chegar à cidade, que queria destruir, avistou a Geni como expõe no verso: “Quando vi nesta cidade/Tanto horror e iniquidade/Resolvi tudo explodir/Mas posso evitar o drama/Se aquela formosa dama/Esta noite me servir”. Ah, ele quis a travesti que até então era hostilizada pelos moradores da cidade. E ela se tornou a chave para a salvação de todos. Entretanto, para a surpresa de todos, Geni não quis se deitar com o Zepelim; e logo a cidade foi beijar-lhe os pés, implorar, suplicar para que a Geni os salvasse da destruição. Ao se comover com tantos pedidos, ela cede e transa com o Zepelim e logo depois começa a ouvir “Joga pedra na Geni!/Joga bosta na Geni!/Ela é feita pra apanhar!/Ela é boa de cuspir!/Ela dá pra qualquer um!/Maldita Geni!” Por fim, a letra da canção é capaz de abordar diversos temas, que ainda são discutidos por nós. A reflexão é válida ainda hoje, o que é capaz de tornar a música atemporal.

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Em “Folhetim” a canção já começa assim: “Se acaso me quiseres/Sou dessas mulheres/Que só dizem sim/Por uma coisa à toa/Uma noitada boa/Um cinema, um botequim”. Pausa para um SALVE A LIBERDADE SEXUAL FEMININA. Após dizer sim, ter relações sexuais, fazer as vontades do homem e até dizer que ele é o melhor que ela já teve... Ela pede: “Mas na manhã seguinte/Não conta até vinte/Te afasta de mim/Pois já não vales nada/És página virada/Descartada do meu folhetim”. Hoje seria: “Ok! Foi bom, mas acabou, foi apenas um sexo casual. Adeus”. Trata-se de uma mulher dona da sua vida, independente e que se preocupa primeiramente com suas vontades, sem se preocupar com julgamentos.

Última canção analisada, mas não menos importante é “Olhos nos Olhos". Uma canção triste, melancólica e que retrata a perda do homem amado. Discorre sobre o abandono de uma mulher, que nunca teve a gente a chance de olhar nos olhos de quem te abandonou. Mas, apesar de sofrer com a perda, ela se recompõe e dá a volta por cima. No verso “E tantas águas rolaram/Quantos homens me amaram/Bem mais e melhor que você”, a sexualidade feminina é explorada novamente. Porque, apesar de estar solteira, ela não se prendeu há um único homem, mas experimentou outros... E ao fim da melodia, a mulher que fora abandonada sem ter a chance de receber qualquer tipo de explicação, não guarda rancor algum, se mostra madura o suficiente para ajudar, caso ele precise dela algum dia. Mesmo assim, ela merece uma explicação e diz: “Olhos nos olhos, quero ver o que você diz/Quero ver como suporta me ver tão feliz”.


Talita Barbosa

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