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cultura sem moderação

Renato Bakanovas

realista trágico

Quando as máscaras caem

Em “O Anjo Exterminador”, Luis Buñuel coloca em xeque a hipocrisia das classes mais altas quando deparadas com situações que colocam seu status quo em risco.


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“Vou lhe contar sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você. Habituaram-se desde cedo a possuir e usufruir, e isso modifica alguma coisa dentro deles, faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros, cínicos quando somos esperançosos. É difícil de entender, a não ser que você tenha nascido rico. No fundo acham-se melhores do que nós, porque temos de descobrir por conta própria os refúgios e compensações da vida. E, mesmo quando mergulham profundamente em nosso mundo ou descem abaixo do nosso nível, ainda assim continuam achando que são melhores do que nós.” O Menino Rico – Francis Scott Fitzgerald

Luis Buñuel foi um diretor cinematográfico espanhol considerado o grande percursor do cinema surrealista. Influenciado pela chamada “geração de 27”, um grupo formado por artistas espanhóis da época que tornaram-se a vanguarda nas artes modernas, foi um grande expoente do surrealismo europeu, ao lado de outros grandes nomes como Salvador Dalí, Max Ernst, René Magritte, entre outros.

Quase a totalidade de suas obras demostram esse forte aspecto surrealista, servindo para trazer situações onde o diretor lança suas críticas ácidas a determinadas camadas da sociedade. Suas principais críticas incidiram sobre a Igreja e a burguesia, influenciado muito pelo ensino religioso imposto em sua infância e também na percepção do cinismo das classes mais abastadas.

No filme “El Anjo Exterminador”, a burguesia é destrinchada e analisada através de uma trama relativamente simples e surpreendente: um casal da alta sociedade promove um jantar em sua mansão para seus convidados também pertencentes a "elite"; o tempo passa, e na hora da despedida algo peculiar ocorre: nenhum dos presentes consegue sair do recinto, ou sequer alguém consegue adentrar a mansão.

Não é necessário a explicação do porquê desse situação incrível para Buñuel, o que realmente importa para ele é demostrar através disso a falsidade e o cinismo da burguesia. Com as horas passando, nenhum dos presentes tem ideia de como resolver a situação. As convenções sociais são então quebradas, enquanto todos ali demonstram a personalidade esdrúxula e falsa que carregam, e diferentemente de antes, quando riam despreocupados ao ver a queda de um emprego da mansão, passam a lutar irracionalmente para sobreviver. A exaltada personalidade burguesa é destruída.

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A crítica à Igreja foi também posta, como na cena dos cordeiros entrando na mansão para impedir que os ocupantes morressem (talvez uma referência à ligação entre Igreja e burguesia, uma sustentando a outra) e também na surpreendente cena final que é cheia de metáforas. Essas que podem ser interpretadas de diversas formas, como uma possível aliança fascismo/Igreja.

Finalizando posso afirmar: aqueles que se aventurarem pelo universo do diretor ficarão intrigados e terão a certeza de estarem desfrutando de uma experiência cinematográfica completa, o melhor que a sétima arte tem a oferecer. Buñuel cria uma obra prima, punindo a sociedade burguesa, e servindo de retrato ao povo de sua própria hipocrisia em uma das obras mais chocantes do cinema mundial.


Renato Bakanovas

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