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Renato Bakanovas

realista trágico

O Estado do século XXI – breve resenha sobre “Leviatã”

O drama "Leviatã", indicado ao Oscar de melhor melhor filme estrangeiro, discute a deturpação do Estado russo e sua consequência aos cidadãos comuns


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Leviatã ("Leviafan") é do diretor Andrey Zvyagintsev, e foi vencedor do prêmio de melhor roteiro no festival de Cannes de 2014 e do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Além disso, foi indicado ao Academy Awards, e se apresenta com um dos favoritos em sua categoria.

Segundo Andrey, a produção foi baseada em um caso ocorrido nos Estados Unidos, onde um indivíduo após perder uma disputa de propriedades para o governo, entrou em um trator e as destruiu, e em seguida se matou. Apesar disso, é difícil afastar o filme de uma crítica a estrutura de Estado russa e a seus integrantes corruptos. São inúmeros aspectos inseridos na película que transmitem essa mensagem, desde a trama central até elementos pontuais em algumas cenas. Além, pode-se interpretar o filme como uma história trágica em sua essência, nesse caso, passível de ser rodado em qualquer região do mundo, com o iniciar da tragédia associada a corrupção estatal.

Nos arredores de uma pequena cidade costeira no Mar de Barents em um cenário bastante desolador, onde se misturam prédios abandonados com carcaças de baleias, nos é apresentado Kolia (“Aleksey Serebryakov”), sua esposa Lilya (“Elena Lyadova”) e seu filho adolescente Roma (“Sergey Pokhodaev”). A família é pressionada por um prefeito local Vadim (“Madyanov Roman”), que está tentando tirar a terra, uma casa e uma pequena loja de reparação de automóveis. Para salvar suas propriedades Nikolai chama seu amigo de Moscou Dmitriy (“Vladimir Vdovichenkov”), um advogado obstinado.

À medida que a trama vai se desenvolvendo far-se-á evidente como o Estado russo, personificado na figura do prefeito, se tornou um inimigo do cidadão comum. Nenhuma instituição estatal escapa: o judiciário parece manipulável através do poder e do dinheiro, assim como a polícia; com a estruturação dessas forças, Kolia parece não ter chance vitória.

Atendo-se ao título do filme, na teoria de Thomas Hobbes, “o leviatã” seria uma “força” que agenciaria os indivíduos para tornar a vida social humana plausível. A criação dos estados modernos e posteriormente os estados liberais, com todas suas prerrogativas de liberdades individuais que surgiram no séc. XX, compactou essa força para ser o poder unicamente aplicável pelo Estado. Esse de forma alguma poderia coagir seus cidadãos no sentido de prejudica-los. Porém, assim o faz, não tão somente na Rússia, como no globo com um todo.

Alguns aspectos da situação russa entram em discussão: a lei parece existir de forma legítima a ajudar seus cidadãos, ou seja, a aparelhagem de proteção aos indivíduos existe, os códigos positivados de proteção estão presentes, entretanto o que se vê na prática é uma corrupção intrínseca, que distorce e impede a aplicabilidade desses.

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A corrupção é a principal crítica: há um patrimonialismo extremo. Decisões sobre a propriedade e consequentemente à vida de indivíduos são tomadas baseadas na razão daquele que representa o Estado, no filme, o prefeito. Ele tem carta branca para agir ou deixar de agir do modo que bem deseja, sem sofrer nenhum tipo de repreensão, porque detém o poder formal ao seu lado, enquanto, do outro lado, o cidadão comum é vítima, pois não tem qualquer escolha.

Nessa perspectiva, o direito brasileiro não é tão diferente, nossa constituição e dispositivos, além da aparelhagem estatal é reconhecidamente como muito diretiva e protetiva, no papel; entretanto, é evidente que falha demasiadamente na articulação prática – práxis, desses dispositivos.

O diretor também fez questão de colocar uma possível associação entre o poder estatal e a igreja católica ortodoxa. Os altos escalões de poder tanto político como religioso parecem associados nesse sentido.

Conversando com alguns colegas russos eles foram quase unânimes em reconhecer o problema da corrupção no país. Muitos disseram que as mãos corruptoras do Estado estão por toda a parte, e envolvem altos figurões políticos, policiais e o crime organizado. Prisões arbitrárias e sem direito ao contraditório (direito de defesa) são recorrentes, e o pior de tudo é que o Estado controla os principais meios de comunicação, o que impossibilita qualquer tipo de articulação para reverter esse cenário.

Entretanto, muitos apontaram que a pobreza e desolação mostradas no filme não representam necessariamente o país como um todo. Acredito que funcione do mesmo nas produções brasileiras: muitas delas possuem uma mensagem universal, mas acabam não entrando no circuito mundial, pois não demonstram aqueles esteriótipos clássicos que nosso país, infelizmente, possui, como as favelas, a selva, o carnaval, etc.

Outro problema apresentado no filme é o alcoolismo. Em um país onde a vodca mata 25% dos homens antes dos 55 anos, isso se torna de fato um caso de saúde pública. Todos, sem exceção, ingerem álcool em maior ou menor grau. Uma das cenas mais impactantes do filme é o confronto do prefeito alcoolizado com seu “algoz”, Kolia, igualmente sob efeito do álcool.

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Tentando deixar as questões políticas a parte (o que considero bem complicado), há alguns aspectos no roteiro, que não revelarei, para não prejudicar a experiência daqueles que possam vir a assistir, mas que são vitais para o desenvolvimento dos personagens. Aquilo que expus anteriormente sobre a história ser trágica universalmente em sua essência se torna verdade, mas, se atentarmos ao fato que o desenrolar dos acontecimentos ocorrem centralmente na disputa entre o Estado e o cidadão, é difícil desvencilhar a crítica do resto da trama.

Finalizando, posso dizer que Leviatã é um filme excepcional, os aspectos técnicos possuem boas qualidades, assim como as atuações e o enredo. Merece ser visto por todo seu viés político, mas além disso, por ser uma ótima obra cinematográfica.


Renato Bakanovas

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