bakaobvious

cultura sem moderação

Renato Bakanovas

realista trágico

O preconceito linguístico

Através de sua obra O Preconceito Linguístico, o professor Marcos Bagno discorre sobre uma forma de discriminação muito presente na sociedade brasileira: a linguística. Em grande medida, isso ocorre pela confusão criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa.


Preconceito Linguístico.jpg

Em sua dissertação sobre o preconceito linguístico, Marcos Bagno elenca inúmeros mitos, sobre a relação do brasileiro com sua língua materna e a maneira como eles contribuem para propagar um “círculo vicioso do preconceito linguístico”. O texto aqui apresentado possui a pretensão de mostrar esses pontos de maneira geral, caso o leitor se interesse recomendo a leitura integral da obra, infinitamente mais completa e competente; ela está disponível online.

O professor apresenta uma analogia que serve para exemplificar muito bem aquilo que chama de “confusão criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa”. Para ele “a língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a gramática normativa é a tentativa de descrever uma parcela mais visível dele, a chamada norma culta”.

Deste modo, o autor já apresenta aquilo que é o cerne da questão do preconceito linguístico: as pessoas têm a tendência de analisar o uso da língua e classificá-lo entre “correto” ou “errado” baseados tão somente na norma gramatical. Com essa concepção em mente, ignoram a realidade do funcionamento da língua como um todo, fato que torna-se crucial para o desenvolvimento da discriminação. A estrutura preconceituosa é propagada diariamente - consciente ou não - por rádios, televisão, livros, revistas, textos na internet, etc. Vale-se atentar ao fato que algumas afirmações podem ser bem intencionadas, entretanto elas compõem uma espécie de “preconceito positivo”, igualmente danoso.

Em todas as telenovelas da Rede Globo, por exemplo, se fala uma espécie de português que não existe em lugar algum, mas que se aproxima do sotaque das regiões sul – sudeste. Ao retratar um nativo nordestino ele é “ um tipo grotesco, rústico, atrasado, criado para provocar o riso, o escárnio, e o deboche dos demais personagens e do espectador”. O central não é a língua. O preconceito se propaga, pois há a concepção de que a região nordeste é “atrasada”, “pobre” e “subdesenvolvida”. A fala nordestina, por essa linha de pensamento, é evidentemente grotesco e passível de chicana, pois a região é assim. “Ora, faça-me o favor, Rede Globo”.

Ademais, há um problema crítico no modo de pensar o ensino da língua portuguesa: nos locais de ensino, se pressupõe uma unidade linguística comum a todos os 200 milhões de brasileiros, o que, evidentemente, é um equívoco. A língua se transforma em razão do local que se encontra, seja pela idade, origem geográfica, situação socioeconômica ou grau de escolarização. Esses aspectos, em nenhum momento, são levados em conta no processo educacional; ao ignorar essa grande diversidade o preconceito é propagado e alimentado.

No fundo a disparidade social é o grande problema, citando-o: “São essas grandes diferenças de status social que explicam a existência, em nosso país, de um verdadeiro abismo linguístico entre os falantes das variedades não padrão do português brasileiro – que são a maioria de nossa população – e os falantes da, suposta, variedade culta, em geral mal definida, que é a língua ensinada na escola. Como a educação ainda é privilégio de muita pouca gente em nosso país, uma quantidade gigantesca de brasileiros permanecem à margem do domínio da norma culta”.

Acreditando que a língua portuguesa possui uma unidade por toda a extensão do Brasil - ou seja, depreciando as diferenças- se despreza completamente aqueles que não dominam a variedade padrão – os “sem língua”. Os dados deficitários de educação em nosso país deixam evidente que essa parcela, os sem língua, são a maior parte da população, assim, o caminho para desprezo e preconceito em relação a esses grupos se torna mais aberto: tanto aqueles que possuem acesso à educação, como o poder público sentem pautados de uma áurea superior.

Qualquer manifestação que escape do triângulo “escola- gramática- dicionário” é considerado, sob a ótica do preconceito linguístico “errada, feia, estropiada, rudimentar, deficiente”. A ridicularização por parte da sociedade daqueles que, por exemplo, trocam a letra “r” por “l”, vice-versa, está sempre presente. O que nunca se leva em consideração é que isso foi um “fenômeno fonético que contribuiu para a formação da própria língua portuguesa padrão”, há devida explicação histórica lógica para tal. Luis Camões, em Os Lusíadas, escreve ingrês, pubricas, pranta, frauta, porém não se encontra o apontamento de tal grafia como errada. Esse desvio fonético atualmente é resolvido por sessões de fonoaudiologia com relativa facilidade, entretanto, não são todos os brasileiros que estão em condições de ter acesso.

Depreende-se disso que o preconceito, mais do que linguístico, é cultural e social. Quem eventualmente troca uma vogal por outra pertence a uma classe social desprestigiada ou marginalizada e, sendo assim, sofre uma coerção opressora que tem como objetivo ser uma tentativa de segregação e controle.

preconceito-linguistico.jpg

A língua quando compreendida como órgão complexo e extenso derruba alguns paradigmas preconceituosos, como: “o certo é falar assim, porque se escreve assim". A escrita é uma representação da língua, ela é incapaz de reproduzir a mesma com exatidão. Isso no português ou qualquer outra língua do mundo. A escrita é um mecanismo artificial e que exige somente treinamento, memorização, exercício, e obedece a regras fixas. Por outro lado, a língua falada é vital, pois ela está em constante mudança; alguém que deseja estudar a língua portuguesa encontra um material muito mais rico ao investigar empiricamente a língua falada.

O desenvolvimento da fala é inerente ao homem, diferente da escrita. Um indivíduo analfabeto consegue se comunicar linguisticamente por sua fala materna, pois todos os seres humanos entram em contanto na infância com a linguagem dos pais e a partir daí passam a desenvolver sua capacidade comunicacional. De fato, a escrita surgiu mais ou menos há nove mil anos. Na antiguidade clássica, o surgimento da gramática tinha como objetivo “preservar as formas consideradas mais ‘corretas’ e ‘elegantes’ da língua literária”. Porém, essas mesmas regras da língua literária começaram a ser cobradas na língua falada, o que é um absurdo cientifico.

A gramática tradicional quer impor a linguagem literária como a única forma legitima de falar e escrever, e despreza totalmente os fenômenos da língua oral. Isso reduz a língua, pois a rebaixa a mera regulamentação ortográfica; torna os falantes de língua portuguesa meros tecnicistas, reproduzindo as formas de escrita dogmaticamente. Nessa perspectiva vale ressaltar a quantidade de manuais encontrados no mercado que, supostamente, ensinam o “português correto”, pautadas em dogmatismos obsoletos; a pergunta que fica é: qual a real importância de se falar assim?

Um argumento utilizado para defender o uso da gramatica estritamente normativa é a suposição que ter esse conhecimento pleno seria de alguma forma um mecanismo de ascensão social. Isso se torna no mínimo suspeito quando se analisa as condições dos professores de gramática no Brasil; ora, caso o conhecimento das normas gramaticais fossem vitais para tal, os professores seriam a classe política e econômica mais importantes de nosso país, e dada as condições lastimáveis que esses são tratados se torna evidente que não.

Por fim, podemos apontar os três elementos contribuintes para a propagação do preconceito linguístico na prática, são eles: gramática tradicional, os métodos tradicionais de ensino e os livros didáticos. Funcionam da seguinte maneira, cito: “a gramática tradicional inspira a prática de ensino, que por sua vez provoca o surgimento da indústria do livro didático, cujo autores – fechando o círculo – recorrem à gramática tradicional como fonte de concepções e teorias sobre a língua”. Essa verdadeira engrenagem alimenta o preconceito cotidianamente, aliado com outras formas de suporte, como “o arsenal de livros, manuais de redação de empresas, jornalísticas, programas de rádio e televisão, colunas de jornal e de revistas”, etc.

Importante, portanto, refletirmos e ponderarmos sobre o tema. O erro na gramática normativa de um indivíduo de forma alguma reflete algo sobre sua capacidade cognitiva; demonstra apenas que houve um desvio puramente prescritivo, de um sistema gramatical imposto de cima para baixo como um mecanismo político de controle. Se faz igualmente vital trabalhar as políticas educacionais, para que essas venham a ser mais razoáveis e sensatas; nessa tarefa o cidadão comum deve ser perspicaz em perceber os preconceitos e injustiças para assim desenvolver um trabalho coletivo que venha melhorar efetivamente a condição social em nosso país.

Mais importante que o ensino dogmático prescritivo – esse pautado em uma realidade distante a muitos brasileiros - o acesso de todos, sem distinção, a seguridade social, incluindo moradia, saúde, educação, condições sanitárias dignas, etc, seria um método de transformação social muito eficaz, capaz de criar uma sociedade plural e justa. Evidente que o plano de agir está predominantemente nas mãos do poder público, que deve alocar e direcionar os recursos para as áreas que realmente importam, porém uma reflexão acerca do que propagamos e o que cultivamos em relação aos preconceitos é válida para uma transformação radical para melhor.


Renato Bakanovas

realista trágico.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/literatura// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Renato Bakanovas