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cultura sem moderação

Renato Bakanovas

realista trágico

Je suis le peuple - A revolução através do povo

Documentário franco egípcio mostra uma família camponesa nos momentos decisivos da Primavera Árabe, da diretora Anna Roussillon.


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A primavera árabe foi um sopro popular no Oriente Médio que se revoltou contra os governos da região, exigindo a renúncia imediata de regimes autoritários de décadas. Dentro desse contexto um país paradigmático para análise do fenômeno foi o Egito. Manifestantes reunidos aos milhões na praça Tahrir em Cairo, exigiam a saída do ditador Mubarak, e depois de muita luta, o regime, que durou 30 anos, caiu.

A partir desse momento a população viu-se obrigado a responder uma série de perguntas: qual medida deve ser tomada em relação a Mubarak e apoiadores do regime? Qual o melhor caminho político para o Egito? Afinal, a democracia é o ideal de organização política?

Em comparação com o documentário The Square, que claramente possui uma visão otimista em relação a primavera árabe, exaltando a conquista da liberdade de expressão, I Am the People, apresenta uma abordagem diferente. Trocando as ruas movimentadas de Cairo por um vilarejo no interior do Egito, acompanhamos a vida de uma família camponesa e sua percepção sobre os eventos.

Modo de produção de subsistência, trocas comerciais locais, agricultura e pecuária, a vida no vilarejo é simples e tranquila. Ao sinal das primeiras manifestações na capital um burburinho toma conta do local; as famílias se esforçam para arrumar sinal de televisão e acompanhar os movimentos que tomam conta de Cairo.

Nesse ponto o documentário é brilhante. Acompanhar o dia a dia da família, no meio da agitação política, é uma experiência bastante rica. Os membros da família são continuamente levados a pensar e discutir as perguntas acima citadas, enquanto tentam levar suas vidas normalmente.

Quando perguntada sobre qual seria o destino justo a Mubarak a filha de aproximadamente 10 anos responde sem pestanejar, e de um modo bastante inocente: “A morte”. Discussões acerca da obsessão ocidental de implementar democracias nos moldes ocidentais são igualmente impactantes, e servem para apontar o quanto de etnocentrismo está intrínseco nas intervenções ocidentais na região.

O teórico franco tunisiano Mathieu Guidère, aponta chaves interpretativas para entendermos a Primavera Árabe passando por três pontos: o exército, a mesquita, e a tribo. Para ele, sem essas três concepções em mente o mundo ocidental não conseguiria minimamente compreender o Oriente Médio.

Torna-se evidente ao assistir o documentário, que os três elementos são tão influentes na região que é impossível não aproximar as discussões políticas a esses. A Irmandade Muçulmana, um partido com viés obviamente religioso, foi eleito na primeira eleição democrática da história do Egito, justamente, porque conseguiu angariar apoio nas pequenas tribos e comunidades, que veem na religião uma forma de explicação de mundo. O que aconteceu depois disso? O exército egípcio derruba Muhamed Morsi, acusando-o de traição aos preceitos constitucionais.

Em seu primeiro documentário, Anna Roussillon, apresenta uma ótima retratação da Primavera Arabe a partir de pessoas “comuns”. É bem sucedida em conseguir discutir questões políticas e sociológicas da região.


Renato Bakanovas

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