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cultura sem moderação

Renato Bakanovas

realista trágico

São Paulo Sociedade Anônima

O filme São Paulo Sociedade Anonima é um retrato da angústia do homem moderno, em sua dimensão da perda de sentido característica da sociedade pós industrial


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Assistir São Paulo Sociedade Anônima é uma experiência catártica. Seja por seu ritmo frenético, influenciado por uma montagem à la Nouvelle Vague, seja por seus temas intelectualmente instigantes, assisti-lo é impactante.

Feito com um brilhantismo técnico irretocável, São Paulo SA é uma obra prima do cinema nacional - e da sétima arte, não deve nada as principais correntes fílmicas de sua época, quais sejam Nouvelle Vague e o neorrealismo italiano. De certo, o filme bebe bastante da fonte dos dois, possuindo um ritmo de montagem frenético aliado a uma discussão sobre a existência.

Luiz Sergio Person - um artista nacional pouco reconhecido em comparação a seu talento - explora as facetas do homem moderno, mirando na classe média ascendente da metade do séc. XX.

Carlos (Walmor Chagas) o protagonista acima e tudo é um homem comum, e tem contato com as instituições do mundo moderno - a escola, o trabalho, a família. Mas Carlos tem em si um profundo mal-estar. Parece enxergar hipocrisia nas formas sociais que lhe são apresentadas e isso é algo que não consegue superar. Em oposição, o dono da fábrica de autopeças em que trabalha, Arturo Carrari (Otelo Zelloni) é o protótipo do capitalista adequado a realidade. Ele simboliza o contentamento da vida capitalista burguesa em seu máximo, o pragmatismo. Sendo assim, não lhe importuna a consciência a prática de imoralidades em seu ambiente de trabalho.

Carlos, por outro lado, é parte de uma engrenagem de um sistema maior e nunca pediu para ser, tampouco pôde opinar. Foi jogado na existência e não parece conhecer saídas. Paradoxalmente, Carlos sabe que é livre, mas ao mesmo tempo, não tem liberdade suficiente para saber como escapar. Seu sentimento geral é de angústia, isso porque tem receio que suas escolhas tenham sido feito puramente por comodismo. Diferente de Roquetin não parece adquirir consciência de sua condição, sendo assim tem um comportamento rústico e agressivo para com as pessoas ao seu redor, manifestando certo descontentamento com suas escolhas.

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São Paulo surge assim como o epicentro da ideologia que modula Carlos. Desde os arranhas céus, passando pelo Viaduto Do Chá e os movimentos mecânicos da fábrica, a metrópole esmaga Carlos. Não há nada que possa ser feito, a não ser reconhecer a resignação; não existe formula, caminho e quanto mais se tenta menos se consegue entender. Desde sua cena inicial, a cidade representando as forças que atuam no sujeito - exercendo tamanha forca coercitiva.

Em razão disso, durante a discussão entre Carlos e Luciana, sua esposa, que abre o filme, vemos a onipresente metrópole - simbolizada por seus arranha-céus - através do reflexo dos vidros.

Com isso é estabelecido os dois principais pontos de conflito do longa: Carlos e o exterior, um elemento interno e externo, com interconexões. Do mesmo modo que não se sente confortável em si mesmo, Carlos tem a presença constante da força das instituições que estão ao seu redor.

A amante Hilda, intelectualmente desafiadora para Carlos, escolheu a alternativa do suicídio. Carlos, ao perceber o suicídio toma consciência que esse não é o caminho. O filme sugere que Carlos escolheu fugir após o suicídio de Hilda.

A fuga catártica de Carlos no desfecho é resultado de seu estado de angustia. Confuso, cambaleado, suas ações refletem um ato heroico contra as forças que lhe comprimem, entretanto, também sua revolta é contra si mesmo; é contra sua incapacidade de lidar com as frustrações, com o tédio, com a ansiedade, com a inércia em que sua vida se desenrolou. Não se sente plenamente satisfeito com seu trabalho, com seu chefe, com suas relações afetivas, mas ao mesmo tempo é incapaz - ou tem medo - de desenvolver algo além daquilo que tem como realidade.

Arrependido - ou exausto, interrompe sua fuga no meio da estrada. De carona em um caminhão volta a cidade de São Paulo. O motorista oferece um cigarro que Carlos recusa prontamente: "parei", então o motorista responde "eu também, várias vezes" colocando ao mesmo tempo o cigarro na boca. Aparentemente despretensiosa e cômica a mensagem do motorista é uma metáfora para vida de Carlos, que como o próprio diz: "Recomeçar, mil vezes recomeçar"


Renato Bakanovas

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