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Renato Bakanovas

realista trágico

Arrival - a escolha entre nós

Arrival, filme do canadense Denis Vileneuve, é de uma delicadeza e sensibilidade ímpares, e fala muito com poucas palavras.


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obs: esse texto contém spoilers.

Desde que foi anunciado a expectativa era grande por conhecer o trabalho do diretor Denis Villeneuve e ser um grande entusiasta de suas produções. Sempre fazendo ótimos filmes como Polytechnique, Incêndios, Suspeitos, Homem Duplicado e Sicario, o diretor tem uma capacidade de criar uma atmosfera de tensão e suspense constantes.

Com Arrival, uma ficção cientifica primorosa, Villeneuve é capaz de atingir o coração e a mente de uma maneira que poucas vezes algum filme conseguiu.

Em seus filmes há sempre uma problemática inicial, que se desenvolve e se torna algo mais complexo no decorrer da narrativa. Com esse método ele consegue trabalhar uma certa zona das experiências humanas fascinantes.

Em essência, Arrival é um filme sobre uma invasão alienígena, mas reduzi-lo a isso seria uma injustiça, já que o filme é muito mais. Acompanhamos a professora, especialista em linguística, Dra. Banks (Amy Adams), a partir do dia da chegada de 12 objetos não identificados na Terra.

No início do filme, em um prologo melancólico, Villeneuve apresenta uma cena da dra. Banks narrando a relação com sua filha, que foi vítima de câncer na adolescência e faleceu. Ao dispor desse modo a sequência de eventos, o espectador intui que se trata de um evento passado. Guarde essa informação.

Nós como apreciadores de cinema sempre imaginamos que se uma cena é mostrada antes de outra, significa cronologicamente que ela aconteceu, dentro do mundo narrativo, anteriormente. Jean-Claude Carriere conta em “Linguagem Secreta Do Cinema” como, nas primeiras exibições cinematográficas, às pessoas não tinham experiência para saber como lidar com o fluxo de imagens que assistiam.

Nessa época, por exemplo, uma cena mostrando uma rua e posteriormente uma janela com um ator acenando no mesmo cenário, os espectadores não entendiam que se tratava de uma janela de um prédio presente na rua; diferentemente do que ocorre hoje que as pessoas intuitivamente associam as imagens, para concluir que se trata de personagens que estão interagindo.

Villeneuve em Arrival consegue brincar com a percepção cinematográfica do espectador, já que os eventos mostrados não são narrativamente cronológicos. Isso se encaixa de um modo fascinante com o roteiro do filme.

Voltando ao enredo, a Dra. Banks é convocada pelo governo americano para tentar descobrir qual o propósito dos alienígenas na Terra. Junto nessa tarefa está Ian Donnelly (Jeremy Rener), físico teórico. Assim como se imaginaria se uma situação dessa acontecesse em nosso tempo, a histeria no mundo é total, há uma pressão enorme para que os governos tomem alguma medida drástica com relação aos objetos – o ser humano não lida muito bem com aquilo que não entende.

Desse modo, a narrativa aborda o constante embate entre a ponderação dos cientistas, Banks e Donnelly, e os agentes do governo e exército americano que exigem alguma explicação rápida para lidar com o problema. Além disso, outros governos como o chinês e russo lidam com a situação com uma postura mais agressiva e totalitário.

No decorrer da trama, dra. Banks consegue entrar em contato com os alienígenas e descobre que a linguagem deles funciona com uma estrutura diferente da nossa, não possuindo sons para representar palavras, configurando-se como uma linguagem não linear; como um sopro de raciocínio que não tem consequência lógica de causa e conclusão. Nesse período, a Dra. Banks, começa a ter visões sobre sua filha. Confusa a princípio, pela estrutura cinematográfica que estamos acostumados parece recordar de fatos passados envolvendo a relação com a filha, ou seja, flashbacks. E a medida que entra mais em contato com a linguagem alienígena as visões se tornam mais recorrentes.

Em uma dessas visões é mencionado a hipótese de Sapir-Whorf, que é bastante importante para o filme. Na teoria desenvolvida pelos linguistas Edward Sapir e Benjamin Lee Whorf, a estrutura de linguagem determina ou influência consideravelmente os modos de pensamento e comportamento característicos de uma cultura no qual ela é falada. Pela teoria, as pessoas teriam predisposições morais condicionadas pelo uso de uma estrutura de linguagem x ou y.

O filme acaba se utilizando da teoria para criar o verdadeiro momento chave do filme: quando a Dra. Banks descobre que ao aprender a linguagem alienígena adquiriu também a capacidade do ver o espaço tempo de modo não linear – como os aliens. Os seres alienígenas são capazes de sentir e agir no espaço tempo de modo completamente diferente do nosso modo linear, sendo capazes de experiências sensoriais e cognitivas longe das amarras do tempo; descobrimos, ao saber disso, que o proposito deles ao nós visitar era ensinar essa linguagem.

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Nesse momento o espectador toma consciência que aquela cena no prólogo, envolvendo a relação da dra. Banks com sua filha, não é o passado, mas sim, uma “visão” com relação ao seu futuro. O que o filme constrói é que essa capacidade de enxergar o espaço tempo de um modo não linear, permite que as pessoas vivam momentos de sua vida alternadamente. Não se trata de possuir uma habilidade sobrenatural de viajar através do tempo, mas antes uma capacidade sensorial de viver momentos distintos concomitante. Uma boa ficção cientifica é capaz de discutir questões do nosso presente com elementos de ficção, e isso Arrival faz de um modo excelente.

A partir do momento que adquire essa habilidade da comunicação alienígena, a Dra. Banks sabe que terá um filha e que essa filha tragicamente será vítima de um câncer antes de atingir a idade adulta. Além disso, sabe que o pai da criança será o Jeremy Renner e que ele irá abandona-las quando tomar conhecimento que Banks sabia do câncer da criança desde o início. O que então ela deve fazer: renunciar a tudo isso, ou prosseguir sabendo de tudo isso?

E o filme brilhantemente aponta que ela escolheu vivenciar tudo, mesmo sabendo das tragédias a longo do caminho. Nós como seres humanos sabemos que nossas vidas têm uma grande componente trágico. Diante disso, temos sempre uma escolha a fazer, que renunciar ou continuar. Se você soubesse de tudo que aconteceria em sua vida, como iria reagir?

Assim como o filme expõe, cada vez mais acredito que nosso maior legado será nossas ações, opiniões, ideias e transformações. Assim como Dra. Banks que escolheu ter sua filha, para que ela possa expressar sua existência através de seu legado, a mensagem que o filme deixa é que sempre devemos viver realizando nosso potencial ao máximo, mesmo tendo total consciência de nossa finitude e de nossos desafios.


Renato Bakanovas

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