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Renato Bakanovas

realista trágico

Trumpismo, o que está acontecendo com o mundo?

Desde a eleição de Donald Trump todos estão em choque tentando entender o que aconteceu. De início, acreditei ingenuamente que todos tinham enlouquecidos e que só pessoas não inteligentes poderiam votar nele - em certa medida, ainda acho. Mas Trump não representa uma doença que surgiu de repente na sociedade ocidental, mas sim uma resposta a ela e, justamente por isso, muito provavelmente, outros Trumps aparecerão nos próximos anos.


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Primeiramente, é importante pontuar que a ascensão dessa espécie de populismo a la Trump (trumpismo) é um fenômeno do mundo ocidental atual. As eleições municipais no Brasil, a Europa, com Brexit, Marine Le Pen, Viktor Orban e de outras figuras políticas com características similares, são evidências fortes disso.

A partir da década de 1990 (pode-se argumentar que a partir do fim da Segunda Guerra Mundial), predomina uma visão de mundo que defende que finalmente viveremos em paz e harmonia com direitos infinitos e ilimitados para todos, protegidos por constituições sociais e mecanismos de integração social, como o Espaço Schengen. É uma espécie de fim da história, no sentindo que não precisaríamos mais refletir sobre nosso projeto de mundo, porque já encontramos um perfeito e partir disso só é necessário fazer pequenos ajustes.

Isso é na prática uma grande ilusão. Por exemplo, a União Europeia acreditou na possibilidade de um sistema economicamente unificado sem nenhum mecanismo de regulação macroeconômica eficaz e o resultado disso é que a Grécia não consegue sair de sua crise econômica sem puxar os outros países do bloco, qualquer pessoa sã analisando o projeto poderia identificar problemas nisso. Mas enfim, voltemos ao Trump e ao populismo.

Esqueça essa bobagem de "pós verdade". É um típico conceito criado sem fundamento e teorização por gente que discorda do Trump e dos outros populistas. Com isso, não quero dizer que o atual presidente americano não é notável por falar bobagens, sem vinculação nenhuma com o mundo, porém, dizer que hoje o mundo é dominado pela "pós-verdade" é grosseiro e errado, já que o mundo nunca se importou muito com a verdade. As pessoas, em geral, falam mais mentiras do que verdades, mas não porque elas são sádicas, conspiratórias, mas porque o conceito de verdade é fluído e muito difícil de captar. Justificar a eleição do Trump com base no argumento da "pós verdade" é ignorar o fato que a maioria dos políticos, para não dizer todos, vencem eleições com base em mentiras e sempre foi assim.

Ademais, me parece equivocado associar a ascensão do trumpismo a um movimento de extrema direita. Evidente, que em alguns casos há confluência – principalmente na Europa-, só que não há de forma alguma uma conexão precisa. Trump defende medidas econômicas protecionistas e um estado de bem estar social direcionado a uma parte da população, o que pode ser associado a um estatismo socialista. Sim, socialismo pode ser vinculado a qualquer forma que coloque um papel central no Estado como propulsor do desenvolvimento social (mesmo que para o Trump, esse Estado deva funcionar para uma parcela da população), se preferir diga que o Trump é coletivista. Nesse sentido se aproxima, grosso modo, de um centro - esquerda intervencionista. Ao mesmo tempo, defende bandeiras do nacionalismo, do nativismo e da anti globalização. Portanto, se tentarmos analisar a vinculação ideológica de Trump a partir de conceitos ultrapassados de esquerda ou direta, teremos uma tarefa difícil.

Dito isso, façamos um esforço para entender porque o Trump venceu.

Grande parte da população ocidental não precisa de muito para viver. Em geral, as pessoas desejam felicidade e querem viver sem se preocupar muito com coisas do tipo: vou conseguir pagar o aluguel no próximo mês? Vou conseguir pagar uma boa educação para minha filha? Há chance de eu ser demitido e ficar sem emprego? etc., ou seja, questões de ordem econômica.

A felicidade é mais frequente em locais onde a identidade é fixa e onde as pessoas não precisam pensar muito para responder as grandes questões da vida (por que estamos aqui? Para onde vamos? O que eu tenho que fazer com a minha vida?). Na economia, basta uma renda razoável e crescente, empregos estáveis, condições de mercado decentes e as pessoas têm a tendência de se preocupar menos com isso.

O fato é que hoje o homem médio tem a sensação que nem sua felicidade, nem seu emprego são garantidos. O homem médio é aquele que você acha grotesco, aquele que muito provavelmente não leu um livro sequer na vida, que é racista, machista, xenofóbico, segregacionista e todos os adjetivos que o progressismo, grosseiramente, identifica em pessoas “malvadas”. Você pode achar ruim (e eu também acho), mas pode ter certeza que o homem médio existe e em grande quantidade.

Esse homem vê no multiculturalismo uma ameaça total a sua forma de enxergar o mundo. “Ora, quem é esse árabe que interrompe sua rotina para rezar cinco vezes ao dia? Quem é esse mexicano que não fala inglês e não me entende? O que esses caras podem fazer como a nossa comunidade tão perfeita e humana? ”. Não importa muito para ele as estatísticas mostrarem que é seis vezes mais provável um americano falecer por um ataque de tubarão do que uma ataque terrorista (http://www.businessinsider.com/death-risk-statistics-terrorism-disease accidents-2017-1). O que realmente incomoda esse homem é a sensação que essas pessoas diferentes ameaçam seu estilo de vida, veja, o problema não é elas efetivamente ameaçarem, mas sim a percepção da ameaça; convence-lo que está errado é possível, só que extremamente difícil.

Também, esse homem vê em outras formas de progressismo social, como o feminismo, a luta dos direitos LGBT, o direito de minorias etc., ameaças diretas a sua ideia de como o mundo deveria ser. O pior de tudo é que acredita que todo o estabelechiment intelectual e político durante os últimos anos esteve sempre a favor dos direitos das outras pessoas e não os dele, sente-se abandonado pelos políticos convencionais. Isso gera um contexto onde esse homem é capaz de acreditar no primeiro candidato que aponte para a mídia e diga que ela mente ("fake news"), que xingue os intelectuais, dizendo que eles enganam as pessoas e que prometa barrar os imigrantes de seu país. Não importa se essas coisas são comprovadas no mundo ou não, o que vale efetivamente na hora dos seres humanos tomarem decisões são os sentimentos. Por isso, esse homem não hesita muito na hora de votar.

Economicamente as coisas vão de mal a pior. O mundo está começando a perceber, na prática, que à economia, afinal, lida com o problema da escassez (algo que se aprende no primeiro capítulo de qualquer livro de economia, diga-se) e que dificilmente vamos conseguir garantir um sistema econômico que permita que todos sejam integrados. Pessoas com baixa instrução não terão emprego garantindo, como tinham há três décadas.

Afinal, é muito mais fácil substituir essas pessoas sem instrução por máquinas. Desse modo, se cria um ciclo vicioso, onde cada vez mais os vulneráveis são excluídos da produção, em troca de aumento da capacidade produtiva. Uma máquina pode, em tese produzir 24 horas por dia, enquanto o homem não consegue trabalhar mais do que 8 horas, se muito. O mundo ignorou o fato que investir em universitários no Vale do Silício dizimou quase que completamente o Rust Belt e que hoje não há muito a ser feito para reverter isso, a não ser que as pessoas estejam dispostas a abrir mão da tecnologia.

Consequentemente, um outro problema econômico significativo nesse cenário é o fato dos salários estarem cada vez mais baixos. Isso não está acontecendo porque o “mercado” malvado quer, como desejam alguns marxistas grosseiros, mas porque a cadeia econômica não suporta um aumento real dos salários ad infinitum, sem acompanhamento da produção e sem gerar inflação. Pior ainda é que o único modo de aumentar a produção é demitindo gente e substituindo por máquinas ou mudar para uma região do mundo onde essa produção seja mais barata (fábricas saindo dos EUA e se instalando na Ásia). As duas alternativas são péssimas para o trabalhador.

As pessoas dificilmente abaixam o padrão de vida que estão acostumadas, preferem contrair dívidas com os bancos, por meio do crédito, a terem que mudar de casa ou carro. Em um cenário onde os salários estão cada vez mais baixos, os bancos têm a oportunidade perfeita para oferecer crédito, assim as pessoas se endividam cada vez mais, por uma escolha pessoal e compreensível. Acontece que isso é insustentável a longo prazo e em algum momento os bancos precisaram garantir que as dívidas sejam pagas, para não quebrar o sistema como um todo.

Se você quer ter uma dimensão desse problema, assista o filme Hell or High Water, que mostra uma dupla de irmãos no meio oeste americano enfrentando os grandes bancos americanos e suas dívidas impagáveis.

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Nesse cenário, as pessoas estão dispostas a acreditar no primeiro candidato que surge prometendo taxar os grandes bancos que arruinaram suas vidas, penalizar empresas que não contratam trabalhadores nativos e criar um estado social a seu favor. Mesmo que nada disso seja possível e ou viável no mundo de hoje e muito provavelmente o candidato faça justamente o oposto, dando grandes concessões para as empresas de maior capital.(https://www.theguardian.com/us-news/2016/nov/09/us-election-political-movement-trumpism)

O grande problema disso tudo é que enxergamos nesse homem médio uma pessoa a priore racista, misógino e xenófobo. Com isso, não digo que não há grande chance dele ser essas coisas todas, mas ao invés de tentar entende-lo da melhor maneira possível, esvaziamos sua vida de sentindo, excluímos sua participação na vida política e estamos fazendo isso há bastante tempo.

Também não digo que devemos aceitar o que pessoas racistas e xenófobas propõem, de forma alguma, até porque são soluções, quase sempre, falsas. Porém, se essas pessoas não se sentem representadas pelo político convencional, existe grande possibilidade de comprarem um discurso de qualquer fanfarrão que promete um retorno a velha ordem, onde essas pessoas eram felizes e se sentiam mais ricas.

Sou pessimista com a chance de alterar esse cenário a curto prazo, mas o quero dizer é: se a intelectualidade, os veículos que lidam com informação e conhecimento e as pessoas capacitadas do ocidente não entenderem que uma grande parcela da população lida diariamente com problemas concretos dificilíssimos, o populismo continuará vencendo e se expandirá. No Brasil, se surgir um candidato com as características do Trump não tenha a menor dúvida que ele leva a eleição para presidente de 2018 (e o Bolsonaro, não tem chance? Ele não é muito carismático, tem dificuldade de passar mensagens para uma grande parte da população e ainda é associado a uma linha política militarista inócua, mas nunca se sabe).

Não adianta vivermos à ilusão que às culturas aceitam uma grande massa de pessoas diferentes sem choques violentos e brutais. Mesmo que seja uma visão falsa, as pessoas vão achar sim que os imigrantes roubam seus empregos, porque é uma tarefa dolorosa reconhecer que na verdade quem é incapacitado sou eu e que o mundo do trabalho evoluiu e eu fiquei pra trás. As pessoas vão associar erroneamente o árabe ao terrorista. Também, vão associar o bandido, repito, erroneamente, a aquele que é vagabundo e escolheu roubar ao invés de se esforçar igual elas se esforçam e sofrer igual elas sofrem. Por isso, não vão hesitar em defender a pena de morte para ladrão de pão.

Seria saudável para a discussão política atual se as pessoas capacitadas parassem de achar que o mundo é uma reunião do grupo de militância, onde todos escutam todos abertamente –isso só acontece porque nesses grupos as pessoas são iguais- e depois vão escutar poesia para aliviar suas angustias. A condição humana é frágil e difícil, independe se você acredita em ideia x ou y, sempre foi e sempre será, mas se quisermos evitar que erros do passado se repitam, precisamos nos esforçar para entender o drama do outro, verdadeiramente.

Finalmente, com relação ao Trump penso que seu projeto político está fadado ao insucesso, porque não há base sólida sobre ele, talvez consiga algum sucesso momentâneo se for bem sucedido na construção de grandes obras no EUA, fazendo com que se aumente o mercado interno americano, de qualquer forma isso é insustentável a longo prazo. Trump e os populistas vendem soluções fáceis para problemas complexos e por isso, quase inevitavelmente, vão falhar; mas antes da inevitável queda têm grandes chances de causar estragos. Além disso, outros Trumps podem surgir a qualquer momento se a condição que deu origem a ele continuar.

Se você quer saber mais, assista:

https://www.youtube.com/watch?v=9lHKld91rtQ&t=64s

https://www.youtube.com/watch?v=Bkm2Vfj42FY&t=266s

https://www.youtube.com/watch?v=7kVT5GeoPiw

e leia:

https://www.theguardian.com/us-news/2016/nov/09/us-election-political-movement-trumpism

http://www.nationalreview.com/article/443667/trumpism-tradition-populism-american-greatness-strong-military

http://www.economist.com/news/united-states/21716649-what-donald-trump-has-common-marine-le-pen-and-geert-wilders-trumpism-very

https://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2017/01/and-scene-hell-or-high-water/511781/


Renato Bakanovas

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