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Renato Bakanovas

Por que a pandemia é tão confusa?

Como lidar com um problema que ninguém consegue compreender completamente.


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Na pandemia que vivemos há poucas certezas. Algo que se tem certeza é a identidade do patogênico: o vírus chama-se SARS-CoV-2, por isso relacionado ao vírus original da SARS. Ambos da família da coronavírus.

Fora disso há poucas conclusões absolutas, e grandes questões da pandeia são incertas: por que algumas pessoas ficam muito doentes e outras têm sintomas leves ou inexistentes? Os modelos de contagio são pessimistas ou otimistas? Exatamente quanto há de transmissão e mortalidade? Quantas pessoas foram infectadas até o momento? Por quanto tempo devem existir medidas de restrição social?

A confusão surge em parte pela escala e ritmo da pandemia. Em todo o mundo, pelo menos 3,1 milhões de pessoas foram infectadas em menos de quatro meses. As economias mundiais despencaram. As sociedades fizeram uma pausa. Na memória recente da maioria das pessoas, nenhuma crise causou tanta mudança de maneira tão ampla e rápida. Nunca ocorreu uma pandemia como essa antes, então não sabe se o que provavelmente acontecerá ou o que teria acontecido se tivéssemos feito diferente.

Mas, além de sua vasta amplitude e natureza sui generis, há outras razões pelas quais a pandemia continua tão confusa - uma série de forças científicas e sociais, epidemiológicas e epistemológicas. O que se segue é uma análise dessas forças para entender um problema que agora é grande demais para qualquer pessoa compreender completamente.

De início: SARS-CoV-2 é o vírus. COVID-19 é a doença que causa. Os dois não são iguais. A doença surge de uma combinação do vírus e da pessoa que infecta e da sociedade à qual a pessoa pertence. Algumas pessoas que são infectadas nunca apresentam sintomas, outros ficam tão doentes que precisam de ventiladores. Os primeiros dados chineses indicaram que doenças graves e fatais ocorrem principalmente em idosos, mas nos EUA e no Brasil, muitos adultos de meia-idade foram hospitalizados, talvez por terem maior probabilidade de ter outras doenças crônicas. O vírus pode variar pouco em todo o mundo, mas a doença varia muito.

Além disso, não há até o momento tratamento cientificamente comprovado. Considere a hidroxicloroquina, a droga antimalárica que tem sido repetidamente elogiada por Bolsonaro supostamente comprovada contra a COVID-19. Os estudos franceses que sugeriram pela primeira vez que o medicamento poderia tratar o COVID-19 eram muito defeituosos, abandonando elementos padrão da ciência, como indicar aleatoriamente pacientes para receber tratamentos ou placebos ou incluir um grupo de controle para confirmar se o medicamento oferece benefícios acima dos cuidados médicos normais . O principal cientista, Didier Raoult, por trás desses estudos criticou a " ditadura dos metodologistas ", como se a randomização ou o controle fossem inconvenientes contra os quais se deveria rebelar, ao invés da espinha dorsal da medicina eficaz.

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Isso ocorre porque as pessoas, em geral, têm uma visão simplificada do que é ciência. A ciência não é um desfile de epifanias e descobertas decisivas que a imprensa costuma retratar, mas se aproxima mais um tropeço lento e errático em direção a cada vez menos incerteza. O entendimento oscila a princípio, mas converge em uma resposta depois de vários trabalhos. Trata-se do processo científico normal, mas parece errático para as pessoas que não estão acostumadas.

Para que possamos encontrar pessoas qualificadas não é necessário apenas conhecimento sobre o vírus, mas também a capacidade de detectar erros nas avaliações anteriores. O mais provável é que a maioria de nós não tenha capacidade de realizar essa avaliação. Apesar de ansiarmos por informações, não temos o conhecimento necessário para avaliá-las ou as fontes que as fornecem. Nesse sentido há também uma crise epistemológica: há muito conteúdo para absorver, mas menos ferramentas do que nunca para distinguir o certo do errado.

Contudo, não é necessário se desesperar, ainda há muitos especialistas hábeis. A questão principal é como ordenar os diferentes ramos do conhecimento para tomar decisões estratégicas. Mesmo na epidemiologia, alguém que estuda doenças infecciosas sabe mais sobre epidemias do que, digamos, alguém que estuda nutrição. Mas as pandemias exigem profundidade e amplitude de conhecimento. Para descobrir se testes generalizados são cruciais para controlar a pandemia, ouça especialistas em saúde pública, para descobrir se é possível realizar testes generalizados, ouça especialistas da cadeia de suprimentos. Para determinar se os testes de anticorpos podem dizer às pessoas se elas são imunes ao coronavírus, ouça os imunologistas, para determinar se esse teste é realmente uma boa ideia, ouça especialistas em ética, antropólogos e historiadores da ciência. Ninguém sabe tudo, e aqueles que afirmam que sabem não devem ser confiáveis.

Nesse sentido, um papel decisivo é da imprensa e dos meios de comunicação. Deve-se dar às pessoas informações para que elas possam fazer o que acham certo. Deve-se dizer às pessoas o que não sabemos e quando saberemos mais. A extensão da pandemia prende as pessoas em um espaço precário. Para orientar sua vida e seu futuro indefinido, as pessoas tentam reunir o máximo de informações possível - e não podem parar.

Ademais, é necessário indicar que as pandemias “se desdobram em câmera lenta”, e não há evento que o altere o todo em pouco tempo. Mas temos essa percepção, por causa de quão implacavelmente buscamos atualizações. Historicamente, as pessoas teriam lutado para encontrar informações suficientes. Agora as pessoas lutam porque estão descobrindo informação em excesso.

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Nesse ponto algo que atrapalha o consumo de informações é o ritmo padrão da mídia de atualizações fragmentadas constantes que não é adequado para cobrir um evento tão grande quanto a pandemia. É necessário muito conhecimento prévio para entender as atualizações, e o sistema de notícias é péssimo em fornecer esse conhecimento. Em vez disso, as informações midiáticas apenas ampliam a oscilação do processo científico, transforma pedaços de evidência incrementais em decisivas e intensifica o já palpável senso de incerteza que leva as pessoas à desinformação.

Outra questão importante é com relação a estatísticas e contagens. Ao analisar a contagem de casos, lembre-se do seguinte: esses números não mostram quantas pessoas foram infectadas em um determinado dia. Eles refletem o número de testes que foram feitos (que ainda são insuficientes), o atraso no relatório dos resultados desses testes (que podem ser longos) e a proporção de testes incorretamente negativos (o que parece alto). Da mesma forma, as contagens diárias de mortes não oferecem uma visão em tempo real do pedágio do vírus. Devido a atrasos nos relatórios, eles tendem a ser menores nos finais de semana, por exemplo.

Todavia, isso não significa que não há condições de fazer medições e que a pandemia não é mensurável. A contagem de casos pode estar errada, mas é quase certamente muito baixa e não muito alta. Os números ainda importam, eles são apenas confusos e difíceis de interpretar, especialmente no momento. No meu telefone, vejo padrões climáticos, a posição de todos os aviões no céu e o número de pessoas que curtiram publicações, tudo em tempo real. Mas não consigo obter as mesmas informações imediatas sobre a pandemia. Os números que vejo dizem tanto sobre as ferramentas que os pesquisadores estão usando quanto as quantidades que estão medindo.

Diante da incerteza dos danos é difícil quantificar se alguma medida é necessária ou alarmista. No mês passado, uma equipe do Imperial College de Londres divulgou um modelo que dizia que a pandemia de coronavírus poderia matar 1 milhão de brasileiros se deixada sem controle até agosto. Assim, governadores e prefeitos fecharam empresas e escolas, proibiram grandes reuniões e emitiram ordens de ficar em casa. Essas medidas de distanciamento social foram implementadas de maneira irregular e desigual, mas parecem estar funcionando. O número de mortos ainda está subindo, mas parece improvável que atinja o teto de 1 milhão. Essa foi por pouco. Ou, como alguns especialistas já afirmam, isso foi exagerado.

Necessário também ter a dimensão que em grande medida o problema é invisível. O coronavírus é um risco real, mas invisível. Quando um furacão ou terremoto ocorre, o perigo é evidente, o risco é auto explicativo e as consequências são visíveis. É óbvio quando se refugiar e quando é seguro sair. Mas os vírus estão abaixo do limiar dos sentidos. Nem perigo tampouco segurança são claros. Sempre que saio para uma curta caminhada (utilizando máscara), me afasto da dissonância cognitiva enquanto vago por um mundo que foi irrevogavelmente alterado, mas que parece o mesmo. Ainda posso ler relatos de pessoas com menos sorte. Mas não posso ler sobre as perdas que nunca ocorreram, porque foram evitadas. Prevenir pode ser melhor do que remediar, mas também é menos perceptível.

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Em conclusão, necessário pontuar que o desejo de nomear um antagonista, seja o Partido Comunista Chinês, A OMS ou Bolsonaro, desconsidera os muitos aspectos da vida do século XXI que tornaram possível a pandemia: a expansão implacável da humanidade em espaços, níveis crescentes de viagens aéreas, sub financiamento crônico da saúde pública, uma economia que funciona com cadeias de suprimentos frágeis, redes sociais que espalham rapidamente desinformação, a desvalorização do conhecimento técnico, a marginalização dos idosos e séculos de racismo estrutural que empobreceram a saúde de minorias e grupos indígenas. Pode ser mais fácil acreditar que o coronavírus foi deliberadamente desencadeado do que aceitar a verdade mais dura de que construímos um mundo propenso a ele, mas não preparado para ele.

Na jornada do herói clássico - a estrutura arquetípica da trama de mitos e filmes -, o protagonista sai relutantemente da vida normal, entra no desconhecido, passa por provações sucessivas e, eventualmente, volta para casa, tendo sido transformado. Se esse personagem existe na história do coronavírus, não é um indivíduo, mas o mundo moderno inteiro. O fim de sua jornada e a natureza de sua transformação final surgirão de nossa imaginação e ação coletivas. E eles, como tantas outras coisas sobre esse momento, ainda são incertos.

Tradução e adaptação do texto de Ed Yong, publicado no The Atlantic em 29 de abril de 2020. Link para o texto completo aqui.


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