bálsamo

Não falar além da boca, não comer além da fome

William Nunes

Sou jornalista por profissão e baterista por paixão. Escrevo quando tenho a necessidade de desabafar sobre alguma coisa, portanto, há todo tempo.

Por quem os sinos dobram?

Ao mesmo tempo em que as relação humanas são essenciais para continuarmos um ciclo de vida que se iniciou séculos atrás, a comunicação falha entre pessoas é um dos principais fatores de conflitos da sociedade desde os primórdios até hoje em dia.


"Nunca se vence uma guerra lutando sozinho, você sabe que a gente precisa entrar em contato [...] É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro, evita o aperto de mão de um possível aliado [...]" Esses trechos fazem parte da musica “Por quem os sinos dobram?”, de Raul Seixas. O título da canção é inspirado em um livro homônimo de Ernest Hemingway, que, por sua vez, retirou a frase de um poema de John Donne.

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Os versos cantados por Raul fazem todo o sentido para mim. Sempre acreditei nas relações humanas, assim como também penso que elas são um dos grandes problemas que a humanidade enfrenta desde os primórdios até hoje em dia. Pode parecer contraditório, mas não é. Não sabemos nos relacionar uns com os outros e, por isso, criamos conflitos, perdemos amizades, descremos do amor e do próximo.

As relações humanas são parte da engrenagem que move nossa vida e as que estão à nossa volta. Não estamos sozinhos, nem existimos sozinhos. Tenho a impressão de que temos que repetir isso com cada vez mais frequência. Vivemos em uma época individualista, onde as pessoas andam com pressa nas ruas com seus fones de ouvido, distante de tudo. Vivemos em uma época em que a internet tem poder maior em separar as pessoas do que em cumprir sua função primária de comunicação. Somos iguais a Narciso, entorpecido pelo próprio reflexo na água. A diferença é que, hoje, nos vemos em espelhos, câmeras fotográficas e retratos próprios na internet. As consequências, no entanto, podem ser as mesmas que o personagem mitológico teve.

É espantoso ver como a comunicação se transforma de acordo com o período no qual vivemos. É mais espantoso ver como pequenos gestos e princípios básicos se perdem em meio às transições, quando, justamente, deveriam estar implícitas em qualquer relação. A cumplicidade humana é coisa rara, objeto em extinção. Até se parece com carros que deixaram de ser fabricados.

Cometemos, constantemente, o erro de achar que somos todos iguais. Não somos. Cada um tem uma maneira de pensar e agir; cada um tem seu ritmo; cada um tem suas qualidades e dificuldades. Erramos ao criar expectativas de que o mundo vai enxergar como nós, mas o que é óbvio para mim, não é, necessariamente, óbvio para o outro. Falta senso.

Relações humanas são mesmo difíceis de criar e de manter. Foi como aprendi nas aulas básicas de comunicação: o meio é a mensagem. Se existe ruído no processo de levar a mensagem ao destinatário, a comunicação não é eficaz. Se não é eficaz, não existe relação. Dizem que as palavras ferem mais que atos; palavras fazem parte das relações humanas e, como qualquer outra ferramenta que faz parte da troca de experiência entre duas ou mais pessoas, podem ser ruins.

Machucamos pessoas que amamos por estarmos com a cabeça fechada e apontarmos o que é certo ou errado. Quando, na verdade, nos falta enxergar a nós mesmo dentro dos outros. Por diversas vezes julgamos e fechamos os olhos para as nossas atitudes. Ao completarmos o exercício de nos colocar no lugar do próximo por um instante, percebemos o quanto somos cegos em meio a tantas falsas verdades. Uma relação precisa de comprometimento, de entendimento, de sacrifico. Sacrifico este que temos que aceitar. Aceitação de que a conjugação na primeira pessoa é tão importante quanto na segunda ou na terceira.

No final, pode valer à pena. Não sei vocês, mas ainda prefiro acreditar em pessoas, mesmo com todas as adversidades. Continuo acreditando em amizade, em altruísmo, em fazer o bem para colher o bem. Talvez essa seja uma convicção perdida em meio ao caos do nosso tempo. Porém, os versos de Donne só nos relembram a ideia de que "nenhum homem é uma ilha isolada, cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra [...] E por isso, não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti".


William Nunes

Sou jornalista por profissão e baterista por paixão. Escrevo quando tenho a necessidade de desabafar sobre alguma coisa, portanto, há todo tempo..
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