barco a remo

E um astigmata em mar de letras pequenas.

Giliard Barbosa

Letras, sonhos e um processo infinitamente inacabado de autoconstrução

Banal Oubli: Gary Victor e a trama do esquecimento

O escrito haitiano mais lido do momento é um completo desconhecido no Brasil. Bastante ligado ao gênero policial, seu romance Banal oubli transcende as fronteiras do mero modelo detetivesco e instaura discussões muitíssimo interessantes tanto sobre a escrita da literatura como sobre a história e a identidade do Haiti, sobretudo do vaudou haitiano.


Banal Oubli.jpg

O volume surpreende desde a sua capa: um livro aberto e, sobre ele, um martelo e manchas (sangue ou ferrugem?) denunciam o óbvio, o teor policial que permeia o romance e que é marca registrada já de seu autor, o haitiano Gary Victor. Até aí, tudo bem, afinal não há nada mais típico que manchas de sangue em capas de livros policiais. O peculiar, entretanto, em Banal oubli (cuja tradução, em português, seria Banal esquecimento), está na forma como aí está gravado o seu título. Como se alguém tivesse danificado o livro, letras garrafais, escritas com marcador para quadro branco, anunciam que Gary Victor é o autor de Banal oubli. Isso porque, debaixo de tal inscrição, impressos sobre o livro em fonte padrão, estão os nomes Pierre Jean e Nuit muette sur la croix de l'arc-en-ciel, como se esses fossem autor e título originais do livro impresso, ambos riscados com marcador. Confirmando a teoria de que um problema de autoria se propõe, uma faixa vermelha na parte inferior do livro traz uma attestation d'honneur manuscrita, feita pelo próprio Gary Victor, dizendo-nos o seguinte: “Moi, Gary Victor, réaffirme être le seul auteur de l'ouvrage BANAL OUBLI, ce à toute fin utile ou légale” (Eu, Gary Victor, reafirmo ser o único autor da obra BANAL ESQUECIMENTO, seja para fins úteis ou legais).

Antes de passarmos ao enredo, falemos brevemente de seu autor: Gary Victor é um dos autores mais lidos do Haiti. Nascido em Port-au-Prince, ele já publicou uma dezena de livros, todos reconhecidos pelo gênero policial e por abordarem criticamente a situação política haitiana e resgatarem, de alguma forma, o vaudou, religião afro-haitiana que estaria próxima do Candomblé, uma vez que ambas nascem do sincretismo de cultos praticados por escravos advindos de diferentes regiões da África. Isso não é diferente em Banal oubli – que guarda, entretanto, um enredo bastante peculiar.

O enredo começa com uma narrativa em primeira pessoa, de um homem que vê seu relacionamento terminado e, com suas estigmatas sangrando (estigmatas, sim, como as de Cristo, cuja origem nem o leitor, nem o narrador, aparentemente, sabem) após sua ex-namorada bater-lhe com a porta na cara, dirige-se para o bar “Chez James”. Lá, onde o narrador parece ter o costume de passar suas noites de melancolia, ele conversa com o dono do bar, amigo de longa data, e mostra-lhe as palmas de suas mãos, cujo sangue não é percebido pelo barman, que relata ver apenas cicatrizes. E é a partir desse momento em que o leitor começa a desvelar o narrador: ele se chama Pierre (o autor original do livro?), um escritor de Port-au-Prince que está concorrendo ao Nobel de Literatura e é aclamado pelo povo haitiano por talvez ser o futuro e único Nobel conquistado pelo país.

O bar, lugar bastante importante para a narrativa, é o cenário de um esquecimento, e de um roubo. Pierre sai do bar com a sensação de haver esquecido alguma coisa, mas não tem certeza do quê. Aqui, transcrevo e traduzo um pequeno-grande excerto, que se impõe como cena-chave de todo o romance:

-----

Je suis mis en joue par une fulgurante sensation d'avoir oublié quelque chose. J'arrête la voiture sous le feuillage du grand acajou africain de notre quartier. Âgé de plus de deux siècles, il a le port des vieillards dont l'aura de sagesse en impose à tous. Dans chacune de ses fibres est certainement écrite l'histoire de la ville. […]

Je vérifie ce que j'ai sur moi. Mon téléphone portable est dans l'étui à ma ceinture. J'ai un appel em absence. C'est le numéro de James. Je n'ai pas entendu sonner l'appareil. J'avais gardé le mode silencieux après avoir quitté le bar. James m'a certainement appelé pour me signaler l'oubli. Mais quoi? Mon portefeuille est dans ma poche. Je vérifie tout ce qui s'y trouve. Qu'avais-je en main quand je suis rentré chez James? Seulement les clés de mon véhicule. Pourquoi donc cette persistante et inquiétante sensation d'omission et de perte? Je suis traumatisé par ma distraction. J'ai juré de me corriger. Depuis quelque temps, je fais attention. Je me suis certainement amélioré même si, pas plus tard qu'hier, j'ai passé une bonne quinzaine de minutes à chercher les clés de mon appartement que j'avais pourtant em main avec un roman que j'étais en train de lire.

La vérité explose dans ma tête. Je chute dans un gouffre. Mon coeur fait un sprint soudain. Ses battements rapides sont des coups de poing douloureux dans ma poitrine. Je démarre, faisant en catastrophe marche arrière, évitant de justesse une voiture circulant deux feux éteints. Je fonce à une vitesse folles dans les rues obscures. J'ai le corps trempé d'une sueur froide. Un oubli pareil, c'est la première fois que cela m'arrive. Je gare la voiture en double file sans me préoccuper d'une possible contravention. Je descends, je cours vers le bar, pousse la porte. […] Je scrute chaque recoin de la salle. Je ne sens plus le sol sous mês pieds. Je dois prendre appui d'une main sur la table la plus proche. Je respire profondément avant de m'avancer vers James qui range ses verres.

- Je me suis oublié ici [...].

-----

Eu fui tomado pela forte sensação de ter esquecido alguma coisa. Eu paro o carro debaixo da copa do grande acaju africano do nosso bairro. Com mais de dois séculos, ele tem o porte dos anciãos cuja aura de sabedoria se impõe a todos. Em cada uma de suas fibras está, certamente, escrita a história da cidade. [...]

Eu verifico o que tenho comigo. Meu celular está na capa de proteção, preso à minha cintura. Tenho uma chamada perdida. É de James. Eu não ouvi o telefone tocar. Eu tinha posto no modo silencioso depois que saí do bar. James certamente me chamou para me avisar que tinha esquecido algo. Mas o quê? Minha carteira está no bolso. Eu verifico tudo o que tenho aí. O que eu trazia na mão quando entrei no bar? Só as chaves do carro. Por que então essa persistente e inquietante sensação de omissão e de perda? Eu fico besta com a minha distração. Eu prometi que ia me corrigir. Há algum tempo, eu ando prestando mais atenção. Eu certamente melhorei, embora, ontem, eu tenha passado uns bons quinze minutos buscando as chaves do apartamento – que eu trazia na mão, junto com um romance que eu tava lendo.

A verdade explode na minha cabeça. Eu sou muito azarado. Meu coração acelera de repente. Suas batidas rápidas são como socos dolorosos no meu peito. Eu dou partida no carro, faço uma marcha-ré catastrófica, por um triz não bato em outro carro que já havia passado dois sinais vermelhos. Eu ando em uma velocidade maluca, pelas ruas escuras. Percorre o meu corpo um suor frio. Um esquecimento como esse... é a primeira vez que isso me acontece. Eu estaciono o carro em fila dupla sem me preocupar com a possibilidade de uma multa. Eu desço, corro até o bar, empurro a porta. […] Eu reviro com os olhos cada canto do bar. Eu não sinto mais o chão sob os meus pés. Eu preciso me apoiar sobre a mesma mais próxima. Respiro profundamente antes de me dirigir a James, que guarda os copos.

- Eu me esqueci aqui […].

-----

A revelação de que o objeto da perda desse narrador foi ele mesmo leva o leitor a um percurso instigante, em que uma série de crimes é investigada enquanto Pierre busca a si próprio, a partir das poucas referências que vai encontrando pelo caminho. Ter o si mesmo roubado por uma mulher desconhecida e ver no outro-si um desconhecido de si mesmo é apenas o começo de uma saga bastante instigante, que nos leva a viajar com o narrador por uma trama que joga, muitas vezes, com o fantástico. A causa das estigmatas de Pierre Jean, a violência religiosa entre cristãos e adeptos do vaudou, a literatura como trabalho de escrita, os processos de construção literária, as hipocrisias políticas, o tema do duplo, as relações entre arte e vida. Tudo é problematizado através de uma escrita que, se não obedece aos modelos canônicos da “boa literatura” - que eu acho uma grande bobagem, muitas das vezes – tem muito a oferecer dentro do gênero policial.

Banal oubli é, com certeza, uma leitura que vale a pena.

p.s.: única má notícia: infelizmente, as obras do Gary Victor ainda não foram traduzidas para o português. Mas quem sabe ler um pouco que seja em francês, ou tem um amigo disposto a fazê-lo, não deve deixar de tentar. Recomendo!


Giliard Barbosa

Letras, sonhos e um processo infinitamente inacabado de autoconstrução.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Giliard Barbosa