barco a remo

E um astigmata em mar de letras pequenas.

Giliard Barbosa

Letras, sonhos e um processo infinitamente inacabado de autoconstrução

Viajes de Penélope: uma das faces da tríplice mitofagia de Juana Rosa Pita

Todos já tivemos contato com a Odisseia, de Homero. Seja pela leitura da obra, pela visualização de uma releitura cinematográfica, pelo encontro com um quadro que retratasse uma das centenas de cenas épicas da obra homérica, todos nós carregamos conosco as imagens da mulher fiel que, esperando o amado, tece e destece, dia e noite, a mortalha do sogro, na tentativa de protelar um - imposto - novo casamento. Na Literatura, esse arquétipo de fidelidade tem sido revisto e frequentemente subvertido, em suas releituras contemporâneas. E é justamente por não seguir o modelo de subversão que Juana Rosa Pita, sem deixar, também ela, de desconstruir, inova em sua poesia mítico-diaspórica.


Penelope Unraveling her Work at Night - Dora Wheeler.jpg

A história já nos é velha conhecida: Ulisses, após haver vencido a Guerra de Troia, tenta retornar a casa, mas é surpreendido a cada instante por uma armadilha dos deuses. Do deus, na verdade: é que Poseidon (Netuno), indignado pelo fato de o herói ter cegado seu filho, o ciclope Polifemo, deseja impedir o retorno de Ulisses à ilha de Ítaca, onde o aguarda, de uma incólume fidelidade, a forte Penélope. Forte e visionária: crendo que o marido ainda vive mesmo quando todos já o têm por morto, ela passa a ser fortemente importunada por uma horda de pretendentes que desejam assumir o trono do reino de Ítaca, e lhes impõem, como condição prévia ao novo casamento, o término da confecção da mortalha de seu sogro, Laertes - mortalha que ela tece durante o dia e destece à noite, até o dia em que uma de suas escravas a denuncia. Com a denúncia, inicia-se a depredação quase interminável de seus bens pelos pretendentes, bem como a partida de Telêmaco, seu filho, em busca do pai.

A História da Literatura, que tem como berço, no Ocidente, a épica grega, presenciou e presencia, ainda hoje, a reconstrução do mito penelopiano, rica matéria de apropriação literária que tem sido alvo, sobretudo de processos de subversão. Das releituras penelopianas, ganhou destaque a desconstrução de James Joyce, Ulisses, cujo herói é um homem comum com uma mulher nem um pouco fiel.

Diferentemente da narrativa de Joyce e das releituras subversivas que temos visto por aí (e, para os que têm interesse em saber mais sobre isso, vale a pena ler os trabalhos de Denise Dumith, pesquisadora dedicada ao mito de Penélope), Juana Rosa Pita, poeta contemporânea da diáspora cubana, apresenta uma lírica inovadora, capaz de conciliar elementos de subversão e de manutenção do mito clássico. E é sobre esse livro que eu venho falar com vocês, hoje.

Viajes.jpg

Publicado em 1980, em Cuba, e reeditado em edição hispânico-italiana, em 2007, em Foggia, o livro Viajes de Penélope surpreende desde o título, apresentando uma Penélope em movimento, aparentemente o avesso da imóvel esposa clássica. Escrita por uma viajante, Viajes compõe o terceiro volume de uma trilogia mítico-feminina, trilogia mitofágica na medida em que, a cada livro-poema, a autora reconstrói um mito clássico diferente, sempre voltado para as figuras femininas silenciadas na Antiguidade. Começando por Eurídice en la fuente(1979) e Manual de magia(1979), protagonizados pelos mitos de Eurídice e Ísis, Juana Rosa Pita encerra um ciclo de apropriações míticas com Viajes de Penélope, cujo poema de abertura esclarece:

Yo Eurídice

si la tierra me tiembla melodías

soy Isis

resucitando a mi hombre cada muerte

porque aún hay tanto mar

vivo Penélope

Como demonstra já o poema de abertura, a escolha desses mitos femininos não se dá por acaso: Eurídice, evocando o ato de olhar para trás (momento-chave do mito órfico), apela à memória, remonta às lembranças da terra natal; Ísis, por sua vez, evoca a reconstrução dos fragmentos do amado (a decomposição de Osíris, na mitologia egípcia), o amor como forma de reconstituir o passado; e Penélope, tecelã por excelência, é o recomeçar, o reconstruir da mulher que viaja, tal como a autora, quem partiu de Cuba aos vinte e um anos de idade para ganhar o mundo*. Essa semelhança entre o mito como tal e as vivências da autora dá lugar a uma escrita poética que também divide o sujeito lírico entre um sujeito autoral e um sujeito mítico, como se pode ver no poema I:

Me ha dado por creerme Penélope

hermosa y bienamada:

tejedora sí soy para que alienten

los que habrán de morir

y es la mía la almohada

más llorada del siglo

Si yo fuera Penélope

suelo que yo pisara sería Ítaca:

al regresar Ulises

se quedara

A similaridade entre sujeito autoral e mito permitem, ao primeiro, crer-se um outro, o que lhe faz modificar e manter o mito original segundo sua própria experiência. Um paradoxo que resulta em uma obra lírica de uma sensibilidade ímpar. Navegando com Penélope, o leitor se depara, à medida em que avança em sua incursão pelo livro-poema, com uma encarnação mítica, um processo - se me permitem o trocadilho - épico de leitura, no qual o leitor, imerso no universo simbólico e imagético de Juana Rosa Pita, já não pode mais distinguir os diferentes sujeitos que compõem o livro, fundidos pela arte da palavra.

E a inovação, aqui, surge porque essa Penélope viajante, encarnando os aspectos delineados pelo poema de abertura - e aí destaquemos a mobilidade - segue fielmente à espera do retorno de Ulisses, instaurando-se, muitas vezes, como um demiurgo ciente dos atos e falhas do amado, objeto de um amor que transcende tudo. Temos um bom exemplo disso no poema XXVI:

Cuánto país tendrás que descubrir

cuánto ardid y prodigio reeditar

para no errar la ruta de mis senos:

cuántos años por tardas geografías

de circes y calipsos

y tristísimos goces sin historia

salando las arenas

sólo por redimir

cándido Ulises

un minuto en mi lecho

É importante dizer que discutir as relações do livro de Juana Rosa Pita com o clássico homérico é demonstrar apenas um ínfimo pedaço do universo poético dessa grande autora, quem também discute as vivências da diáspora e o cuidado com o fazer literário sem descuidar do refinamento estético e do verso. Muitas outras questões podem ser revisitadas e discutidas, tamanha a riqueza de imagens desse poemario (como o chamam os colegas hispanos).

Um livro-poema de amor, viagem, metapoesia. Um enigma a ser desvendado por um leitor voraz. Eis Viajes de Penélope: um "épico poema lírico" que só um leitor cuidadoso pode degustar. Vale a pena, a leitura.

* Juana Rosa Pita nasceu em La Habana, Cuba, em 8 de dezembro de 1939. Partiu de Cuba aos 21 anos de idade, e começou a escrever aos trinta e três. Viveu, desde então, na Itália, na Venezuela, e em várias cidades dos Estados Unidos, onde ainda vive. Publicou mais de vinte obras, dentre as quais adquire grande relevância o livro Viajes de Penélope (1980/2007).


Giliard Barbosa

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