Dani Ferri

Odeio Minibio

E se o Cortázar Narrasse a Vida das Pessoas Hoje em Dia?

Banalidades abondonadas por facilidades fúteis. Num mundo acomodado por tecnologias, onde as narrativas da vida se restringem a fotografias em redes sociais, Cortázar teria espaço para narrar instruções de como subir em uma escada? (como faz no livro "Histórias de Cronópios de de Famas")ou será que ele ia preferir fotografar uma e postar no Facebook?


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Nessa época do assunto que virou moda e por ser moda tem gente que inventa a moda de não seguir a moda, vamos andando num looping infinito de repetições e fugas. Escapismo exagerado. Mania de pensar que nosso mundinho pessoal é especial. Crise do selfie. Gana por ser diferente dos demais. E sempre tem aqueles que vem escrever sobre isso. Nossa, esses são os da pior laia, veja bem, o sujo falando do mal lavado. E é pela falta de moral que estamos aqui. Eu, escrevendo, e você aí, lendo. Viu, somos todos farinha do mesmo saco. Algo te trouxe aqui: sua curiosidade genuína por informação, sua vontade mórbida por status ou simplesmente o tédio.

Em meio a toda essa balbúrdia de egos crescentes e mentes afetadas, imagino o quê o Cortázar não escreveria sobre. Explorando o psicológico de cada um em situações banais, cotidianas, como por exemplo, ir até o mercado. Por que é isso que o Cortázar faz: explora. Um explorador de sentimentos. Sejam eles mundanos, idiotas, carentes ou secretos. Você que está aí roendo a unha do dedão do pé e repetindo a palavra “banana” até que ela perca o sentido não precisa se sentir um babaca. Somos humanos e não precisamos nos envergonhar, ora bolas.

Cortázar, com sua narrativa suave e abrupta ao mesmo tempo, mexe no âmago de cada um que o lê. E se há cinquenta anos as coisas eram como eram, hoje não está tão diferente no que se refere a pensar/sentir. Há cinquenta anos, numa ficção literária, tínhamos o Cortázar para expor as vidas de suas personagens até o fio de cabelo, para que pudéssemos no encontrar neles, nos ver expostos também. Mas e hoje em dia? Teria o Cortázar espaço para expor o psicológico do ser humano num mundo digital abarrotado de redes sociais voltadas para a exposição de si mesmo?

Cortázar correria o risco de perder seu papel de explorador para as narrativas pobres que encontramos em nossas timelines hoje em dia. A única diferença é que as pessoas mostram aquilo que elas querem que os outros vejam. Simples e batido. Se nossa vida fosse um conto do Cortázar, seria mostrado aquilo que nos orgulhamos e que nos envergonhamos. Seria mostrado a verdade, assim, nua e crua. Deixemos o impressionismo para as redes sociais e as verdades para os nossos próprios contos, que, nem sempre, são ou serão lidos. Moral da história: Cortázar é um ótimo escritor. Digno mesmo seria você procurar um conto e entender o que eu estou falando. Só não vale comprar um livro dele e postar foto no Instagram antes.


Dani Ferri

Odeio Minibio.
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