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Estante de livros e filmes

Lorena Sant`Ana

Viciada em livros, cinéfila, entusiasta na fotografia, apaixonada por gatos, pensadora constante, e por fim uma escritora aspirante de palavras.
Bibliotela é um espaço para falar sobre filmes, livros e pensamentos. "A arte é eterna, a vida é breve".

My Fair Lady: uma representação do papel das linguagens na vida do indivíduo

Um dos musicais mais premiados da história do cinema, é também um ótimo exemplo de como a comunicação interfere diretamente em nossas vidas. A linguagem e o modo de estar no mundo, expressos através de Eliza Doolittle, protagonista encarnada por Audrey Hepburn. Confira.


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O longa-metragem musical My Fair Lady (Minha Bela Dama, 1964), dirigido pelo renomado George Cukor, foi baseado na peça teatral Pigmalião, escrita por George Bernard Shaw. O filme bastante premiado está na lista dos melhores musicais de todos os tempos, além de ser considerado por muitos um verdadeiro clássico do cinema mundial.

Protagonizado pela jovem florista Eliza Doolittle (Audrey Hepburn), o filme consegue do começo ao fim retratar humoristicamente o status que se adquire através da maneira de falar e se expressar, levando-nos ao tabu sempre atual do preconceito linguístico.

Importante ressaltar que a jovem não utiliza a Língua Inglesa padrão para se comunicar, mas sim um dialeto chamado cockney, o que leva a uma dificuldade de entendimento do espectador/ ouvinte mais atento e conhecedor dessa Língua.

O desejo de Eliza em falar do “modo correto”, surge pouco depois de ser humilhada publicamente, ao escutar uma conversa entre o culto professor de fonética e perito em linguística, Henry Higgins (Rex Harrison) e seu amigo Coronel Pickering, um linguista especialista em dialetos indianos.

Em Minha Bela Dama, Eliza Doolittle vende flores na rua para conseguir uns trocados e sobreviver. Sozinha no mundo, ela mora em um quarto alugado de uma pensão barata, e seu pai alcoólatra é aproveitador, somente aparecendo para lhe pedir dinheiro e poder beber mais.

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A personagem opta pelo aprendizado da linguagem padrão, buscando melhorias de vida e uma nova colocação no meio social. Eliza queria deixar de vender flores na rua e passar a vendê-las em alguma loja, provando que merecia ser tratada de um jeito mais agradável pelas pessoas. Ela resolve buscar instrução com o rigoroso professor Higgins, e aceita o desafio de fingir ser uma mulher da nobreza em um baile.

Eliza muda não somente a forma de se comunicar interpessoalmente, mas também seus hábitos, o modo de se vestir, de andar, de enxergar o mundo e de relacionar com ele. Ela acaba ganhando uma nova versão de si mesma ao adquirir o comportamento burguês da alta sociedade da época, completamente contrário a sua realidade anterior.

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O filme demonstra positiva e negativamente como a normatização da língua influencia o ser humano, bem como atribui a ela o poder de ressignificação da essência do indivíduo e agregação de novos valores. Minha Bela Dama traz questionamentos sobre o papel da comunicação, sobre o modo como o receptor entende a mensagem enviada pelo emissor.

Qual o problema em não usar “adequadamente” a linguagem culta, e preferir a linguagem coloquial ou dialetos minoritários? Esses últimos considerados incorretos e vistos com maus olhos por boa parte da sociedade, sendo alvo de estudos e pesquisas científicas com adeptos e opositores ao sistema atual de classificação da linguagem.

Para a maioria de nós é difícil ter uma opinião formada sobre o tema que foi abordado, pois passamos anos estudando a Língua Vernácula, acabando por cair nesse lugar-comum de estarmos sempre corrigindo a fonética, os erros gramaticais e ortográficos próprios e alheios.

O indivíduo tem que se adequar a linguagem ou o contrário que deve acontecer? Sabemos apenas que o preconceito linguístico está longe de ser superado, uma vez que inúmeros dialetos estão espalhados pelo planeta (muitos desconhecidos) e sempre provocarão uma espécie de bloqueio intelectual por parte daqueles que se dizem instruídos. Se ainda não assistiu, confira o trailer de My Fair Lady:


Lorena Sant`Ana

Viciada em livros, cinéfila, entusiasta na fotografia, apaixonada por gatos, pensadora constante, e por fim uma escritora aspirante de palavras. Bibliotela é um espaço para falar sobre filmes, livros e pensamentos. "A arte é eterna, a vida é breve"..
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