Maria Gabriela de Queiroz

Quase entendedora de gente, de planta, de arte, de mapas e de lugares

A nova arte do Velho Mundo: relações entre Gustav Klimt e Otto Wagner

Em meio ao conturbado fim do século XIX e começo do século XX, surge em Viena, um dos pintores que mais bem retratou, com infinita genialidade, a figura feminina em toda a história da arte. Gustav Klimt, juntamente com o arquiteto Otto Wagner, foram dois dos principais responsáveis por uma das mais belas correntes artísticas de todo o mundo: a Art Nouveau.


klit.jpgGustav Klimt, "Serpentes Aquáticas" (1904 - 1907)

Com o fim do século XIX, o mundo presenciava uma crise que, para muitos historiadores, se referia ao grande germe da Primeira Guerra Mundial. Na época, a sociedade estava fragmentada em grupos e o indivíduo já não era mais um ser determinado por sua posição social, mas sim, pela sua relativa liberdade individual. As religiões, a ideia que se tinha de Deus, o colonialismo, a moral e integridade, as artes, a economia, a ciência... todas as verdades inalteradas passaram a ser questionadas por todos os estratos sociais, além dos filósofos e artistas. A falacia do positivismo foi duramente criticada, uma vez que a industrialização e a ciência tiveram como consequência a prática escravizadora de uma parte da sociedade e cíclicas crises econômicas, capazes de desestabilizar todo um país. O que mudou, não se refere só ao sistema político-econômico, mas também à concepção de mundo e de humanidade.

Neste contexto europeu, Viena presenciou um ressurgimento econômico desde a metade do século e, com um milhão de habitantes era na época, uma das capitais mais importantes de toda a Europa. A cidade que o imperador Francisco José I queria converter na mais bela do velho continente tinha uma sociedade cultural muito viva, ainda que frustrada por um sistema político estruturado pelo antigo regime.

Convencido de que a arte atua positivamente na vida diária dos cidadãos, Otto Wagner (arquiteto da época) deu aparatos para que seu trabalho colaborasse com a harmonia social, tanto por seu funcionalismo como por sua beleza. Essa posição, veementemente positivista, contrasta com a de Gustav Klimt, que questionava as verdades fundamentais da sociedade e mostrava as evidencias de sua crise. O tema chave de sua obra, uma figura feminina autosuficiente em todos os aspectos, ataca diretamente uma Europa onde as mulheres não possuíam nem o direito de voto. Apesar de ideias tão destoantes, ambos inciaram a modernidade em Viena, por suas obras e por serem os mestres da seguinte geração de artistas: os pintores Oskar Kokoschka e Egon Schile e os arquitetos Josef Hoffmann e Josef Maria Olbrich.

Wagner e Klimt trabalharam em um momento de máximo esplendor na cidade de Viena, na estranha conjuntura de manutenção de um império anacrônico e incapaz de se adaptar a Europa moderna. Neste grande período, que começou na última década do século XIX e acabou bruscamente com a emergência da guerra, iniciou-se a modernidade, a qual ainda somos hoje, devedores.

Sobre as cores douradas:

Assim como Wagner, Klimt se formou aparado pelo viés de recuperação da antiguidade, usando o dourado em suas primeiras obras para evidenciar os detalhes. As figuras de seus quadros são planas e praticamente não existe um contexto que centre os personagens ou uma ação. São emolduradas em superfícies douradas, sem nenhum atributo ou noção de espaço ou temporalidade. Com esse recurso, Klimt desafiou a visão renascentista (uma das regras sagradas da academia), transgrediu a ideia de criação de um contexto histórico bem definido e a suprema ideia de um decoro. No período dourado, nasce o interesse pelos ícones bizantinos medievais, em que o realismo e perfeccionismo do corpo humano contrastavam com o ambiente irreal coberto de ouro. A mescla de referências era muito atrativa para Klimt, que ao recuperar esse imaginário, não só outorgou uma aura de sacralidade e exotismo às suas obras, como também teve a possibilidade de desconstruir toda a perspectiva clássica, uma das grandes lutas de toda a pintura vanguardista da primeira metade do século XIX.

portrait-of-adele-bloch-bauer-i(1).jpgGustav Klimt, "Adele Bloch Bauer" (1907)

800px-Otto_Wagner_Steinhofkirche.JPGOtto Wagner, Igreja de S. Leopoldo em Steinhof (1907)

Sobre a vida burguesa:

Wagner, filho de um notário, recebeu a educação própria da nobreza: estudos nos melhores colégios de Viena e mais tarde em Berlim. Klimt provinha de uma família de artesãos boêmios e um certo acento provinciano sempre o acompanhou. Apesar das diferenças sociais e de idade, ambos fizeram parte de um grupo de profissionais que construíram Viena como uma das cidades mais vivas da Europa.

A vida profissional de Klimt esteve marcada por sucessivos escândalos, ainda que isso não engendrasse um repúdio por parte da sociedade da época, já que desde que pintou, em 1888, o quadro Auditorio del antiguo Burgtheater, nunca lhe faltaram clientes. Além disso, o casamento de seu irmão com Helene Flogue facilitou a família Klimt no contato com a burguesia mais rica e liberal da cidade, contribuiu para que novos clientes aparecessem e também para a entrada da família nos círculos sociais mais abertos do país. Esse contexto, possibilitou que Klimt conhecesse Emile, uma personagem que o marcaria profundamente. Sua estreita relação com a moça, levou muitos historiados a acreditar que eles se relacionavam amorosamente, ainda que não haja provas que concluam a realidade de sua relação.

Gustav_Klimt_049.jpg Gustav Klimt, "Retrato de Emile Flogue" (1902)

Emile Flogue era a encarnação da mulher moderna retratada nos quadros de Klimt, já que tinha um negócio próprio de alta costura e possuía independência econômica. A possível relação entre Emile e o pintor se converteu em um símbolo de liberdade e modernidade, suscitando um desafio para a sociedade da época, que considerava impensável uma relação sentimental fora do matrimônio.

emilie-flöge-aged-17-1891.jpg Gustav Klimt, "Emile Flogue, 17 anos" (1891)

Sobre a ambivalência da Modernidade e Classicismo:

Apesar das contradições aparentes entre as obras de Wagner e Klimt, o viés clássico e oriental, como um elemento decorativo moderno, pode ser visto nos trabalhos de ambos. Wagner e Klimt trabalharam na tensão constante estabelecida entre a modernidade e o classicismo, imperado em Viena. Tiveram que adaptar seus conhecimentos puramente acadêmicos e insuficientes a um mundo que estava mudando a grandes passos, muitas vezes a partir do constante ensaio e erro, como demonstra a lenta gestação dos quadros de Klimt.

Klimt se interessou por temas presentes na tradição pictória ocidental, como a figura de Judith, Dánae e a alegoria da Tragédia. A partir do mito de Dánae, trata a sexualidade feminina, enquanto Judith representa um figura luxuosa que não sente remorso algum por seus atos (seduzir Olofernes para assassiná-lo). Essa assimilação de temas mitológicos com cunho moderno, foi o que ocasionou um primeiro escândalo de sua carreira. O que deveria ser uma alegoria da bondade se converteu na representação da inacabável complexidade da natureza e da figura humana. Essa ideia era precisamente o centro da discussão filosófica do momento e esses quadros, hoje perdidos, simbolizam uma das mais novas representações da tomada de consciência e crise do positivismo: a ciência e a razão não contemplam suficientemente o progresso humano.

danae.jpgGustav Klimt, "Danae" (1907 - 1908)

Sobre os traços sinuosos:

O movimento Art Nouveau foi substituindo paulatinamente uma das formas néoclassicas cada vez menos significantes para a sociedade da época. A burguesia nascente necessitava de uma nova arte que a representasse, já que o néoclassicismo estava muito perto das grandes cortes dos séculos anteriores. No fim do século, surge então, uma nova estética baseada em formas orgânicas, sem hierarquias aparentes. As formas sinuosas invadiram o imaginário coletivo de toda uma geração, de toda uma época. O marco mais característico do Art Nouveau, se refere às linhas sinuosas. Assim, Wagner e Klimt puderam se inscrever dentro dessa corrente que invadiu toda a Europa no fim do século XIX. Apesar do movimento artístico em comum, a escola de Viena se diferenciou e destacou pela capacidade de produzir formas elegantes sem cair nos excessos.

o beijo.jpgGustav Klimt, "O beijo" (1907 - 1908)

Nesse contexto, Klimt criou uma linguagem pessoal baseada na deformação dos corpos e em linhas sempre tortuosas. O mundo de Klimt é imerso pelo irracional e pelo simbólico. À Klimt, não interessava o heroísmo de Judith, mas sim, sua falta de escrúpulos, sua amoralidade. Tais ideias era típicas de toda uma mudança de século e o pintor não se comportou como estrangeiro às convulsões de seu tempo, mesmo que a elegância que passou às suas figuras seja uma marca pessoal, única dentro desse período. Todas suas figuras expressam uma elegância soberba, um rasgo definitivo que a alta burguesia, necessitada de uma identidade própria, não tardou em tomar como sua, convertendo o pintor como seu retratista quase oficial.

Enfim, depois de abordadas questões teóricas e históricas do contexto da época, fico com a sensação de que, mais que um retratista quase oficial da burguesia, como afirmei acima, Klimt captou as figuras femininas de forma libertadora, possibilitando reflexões e transgressões sobre o papel social da mulher na época e ainda hoje.


Maria Gabriela de Queiroz

Quase entendedora de gente, de planta, de arte, de mapas e de lugares.
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