Maria Gabriela de Queiroz

Quase entendedora de gente, de planta, de arte, de mapas e de lugares

O cinema latino-americano - Parte 1: política e resistência

"Mas aqui embaixo, cada um em seu esconderijo, existem homens e mulheres que sabem a que se agarrar, aproveitando o sol e também o eclipse, afastando o inútil e usando o que serve com sua fé veterana, o sul também existe." (O sul também existe - Mario Benedetti)


Discutir a história do cinema e o contexto em que ele se desenvolveu, pressupõe quase que na maioria das vezes, abarcarmos o Cinema Mudo, os irmãos Lumière e George Méliès. Estamos falando do berço do cinema, onde técnicas e produções cinematográficas pioneiras emergiram. No entanto, quero me atentar aqui, para o contexto cinematográfico latino-americano. Tenho me familiarizado com o estilo do nosso cinema e percebido o quão rico e genial ele é. Começo então, discorrendo sobre sua história e, consequentemente sobre suas influências políticas e sociais.

Com o auxílio e influência de italianos e franceses, o cinema na América Latina se desenvolveu em 1896. As primeiras películas produzidas foram trazidas da Europa para cá nesse período e, em 1920 o primeiro filme mudo foi lançado e exibido em países como Argentina e Bolívia. Já em 1930, devido à industrialização, os países latino-americanos se desenvolveram e modernizaram o cinema. Em 1970, o cinema deu início à difusão de arte e cultura, expressando seu comprometimento e responsabilidade com o processo histórico latino.

Precursores chilenos e argentinos:

Em 1916, o país chileno deu início às suas atividades cinematográficas, entretanto, com a crise econômica sofrida em 1930, vários setores políticos e culturais foram afundados. Em uma tentativa de recuperação durante os anos 40, inaugurou-se a Chile Films S.A. Com o passar do tempo, o país não conseguiu sustentar esse grande projeto e em cinco anos, de 1940 até 1945, a Chile Films S.A. produziu somente nove filmes, nenhum deles saindo do território de origem. Alguns anos antes da ditadura militar, instaurada em 1973, o campo acadêmico inseriu em seu currículo disciplinas que contemplavam o cinema e, a partir desse ponto, engendrou cursos de cinema nas faculdades públicas.

Em 1970, com a vitória presidencial de Salvador Allende, o Chile vivenciou grande transformação cultural, uma vez que manifestações artísticas passaram a ser valorizadas e disseminadas pelo território nacional. Nesse momento, a produção cinematográfica e o objetivo de construção do modo de governar esquerdista, serviram como ferramenta socializadora. O conceito de cine imperfecto foi desenvolvido a partir do reconhecimento que rumava para uma sociedade socialista. A partir desses fatos históricos, em 1950, o cinema chileno se deparou com grande urgência em refletir sobre novos princípios de criação artística que estavam apartados da produção embasada pelo capital.

Com objetivo de exaltar o tango, os primeiros filmes mudos argentinos foram produzidos a partir de 1896. Chegando no país em 1930, o cinema sonoro contemplou principalmente os gêneros melodramáticos. Além dos melodramáticos, filmes com cunho social começaram a ser cultivados durante esse período e, a partir dos anos 60 e 70, o cinema com viés político emergiu na Argentina.

O cinema político latino-americano:

Com o término das ditaduras militares em vários países da América Latina, o cinema voltou a ser produzido sem a influência da censura. Entre 1990 e 2000 as produções cinematográficas ganharam proeminente destaque nos países em que foram criadas e também no exterior. Não obstante, muitos países tiveram de interromper sua produção por algum tempo, devido ao massacre de culturas regionais, falta de apoio governamental e principalmente, devido à invasão cultural norte-americana. Nos últimos 15 anos a produção latina foi observada pela imprensa internacional como uma "nova" cinematografia, do mesmo modo que o cinema asiático e iraniano.

Nesse contexto, espaços para o cinema político se desenvolver foram abertos. O conceito de cinema político é interpretado de diversas formas: pode ser um gênero como drama, comédia, noir, etc e pode também ser considerado como intrínseco a um determinado período histórico. Retratar assuntos políticos por meio do cinema foi preponderante nas escolas de cinema por muitos anos e muitos lugares, desde seu fomento. Cineastas, estudantes e artistas questionaram o modo de fazer política e suscitaram uma estética que eclodiu com as convenções e ferramentas do cinema feito pelas grandes indústrias. Dessa forma, o cinema se encaminhou com o objetivo de transcender a proposta de ser somente um entretenimento.

O cinema político, engajado e resistente, foi suscitado por diversas correntes de todo o mundo: o cinema soviético de 1920, o cinema de empenho civil na Itália, o Cinema Militante (desenhado pela Frente Popular Francesa) e o Cinema Manifesto (desenvolvido na América Latina). Caracterizado principalmente pela preocupação em construir filmes que intervinham no contexto social, o cinema político foi contemplado por diversos pensadores latino-americanos que o utilizaram para narrar o que acontecia em seu território, influenciados mais pela questão histórica se comparada com a estética. Podemos demarcar que, apesar de seus diversos desdobramentos, o cinema político preza quase sempre por retratar o contexto histórico de alguma região com o olhar e perspectiva esquerdista.

O modo político de fazer cinema obteve repercussão em toda a América Latina. Em alguns países isso ocorreu de modo gritante, ao passo que em outros, se mostrou mais timidamente. Na Bolívia, por exemplo, o cinema com, para e pelo o povo foi produzido evidenciando principalmente questões indígenas e suas resistências, devido ao grande massacre sofrido pela população por parte dos colonizadores.

Já na época de pós-ditadura chilena, o país aproveitou o governo de influência socialista para recomeçar sua produção. Com o contato cinematográfico de outros países, o Chile impulsionou seu trabalho. Reconheceu que o cinema brasileiro e cubano de 1960 foram os mais influentes em seus filmes.

18871395.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg Machuca, (2004)

Na Argentina, o cinema sempre foi considerado instável, devido às várias crises econômicas sofridas pelo país. No entanto, com a ajuda do governo peronista, a indústria do cinema foi estimulada. No ano de 1947, foi decretada a lei que tinha como objetivo a proteção do cinema argentino, além da criação do Instituto Nacional de Cinematografia (INCAA). Em 1967, cineastas argentinos espalharam o pensamento e prática cinematográfica dando a esses princípios o sentido de política cultural. Assim, o cinema assumiu o compromisso com a conscientização política das massas, por meio de obras didáticas e de fácil compreensão pelo grande público. Hoje, a Argentina está entre os maiores produtores cinematográficos da América Latina e seus novos cineastas não dispensam o resgate da história vivida pelo país.

infancia_clandestina_52010012_st_9_s-high__crop.jpg Infância Clandestina, (2011/2012)

Expostos alguns pontos históricos sobre o desenvolvimento da sétima arte na América Latina, podemos entender que o cinema envolve somente uma das múltiplas formas de olhar a sociedade e as relações: por meio da câmera. Ele pode ser compreendido como um dispositivo que tende a representar a vida e o mundo, de acordo com sua organização de papéis e espaços. O cinema também mantém sua maior função que é a de comunicação e, dessa forma, tem possibilidades de criar vínculos e manter suas relações com a história. Narrar a história política de um povo de modo humanizado é uma característica típica do cinema latino-americano contemporâneo, que recupera o viés político e se foca principalmente nas ditaduras militares, sem as possíveis tendências apelativas.

Alguns filmes contemporâneos que, de alguma forma, contemplam e elucidam questões políticas foram escolhidos como dicas de possível entretenimento, conhecimento e reflexão sobre:

Machuca, (2004)

Considerado o melhor filme produzido pelo Chile, segundo o IMDB, a obra é dirigida por Andrés Wood, se passa em 1973 e expõe o cotidiano de Pedro Machuca. Embora Machuca estude em um dos colégios mais conceituados de Santiago, Chile, vive com sua família em um dos bairros mais humildes da cidade. O filme se desdobra a partir do momento em que o menino constrói uma amizade com Gonzalo, vindo de uma família rica, mas que compartilha ideais semelhantes ao de Machuca e sua família. A amizade dos dois é desencadeada em um ambiente de grande conflito no país, em que socialistas e partidários estão em confronto.

La jaula de oro, (2013)

Dirigido por Diego Quemada-Diez, a obra mexicana expõe a vida de uma menina e dois meninos que fogem de seus respectivos países (Guatemala e México) para tentar chegar aos Estados Unidos. Com a esperança de um mundo melhor, passam dias de muitos riscos e perigos. A obra foi ganhadora de vários prêmios, entre eles o prêmio de melhor elenco no Festival de Cannes.

Infância Clandestina, (2011/2012)

A película espanhola, argentina e brasileira é dirigida por Benjamín Avila e retrata a vida de um menino e sua família que vive em uma vida clandestina. O filme se passa na Argentina, no ano de 1979 e expõe a luta e resistência desses indivíduos contra a ditadura militar. Apesar dos aspectos políticos, o filme também aborda os sonhos e a paixão do menino Juan.

No, (2012)

O filme chileno dirigido por Pablo Larraín ilustra o fim da ditadura chilena e a construção de uma campanha de oposição ao governo ditatorial de Pinochet, chamada "No". O filme se desenrola a partir de reuniões e campanhas televisivas do grupo de oposição e do grupo de apoio ao governo (Si).

Cautiva, (2004)

Dirigida por Gaston Biraben, a película argentina retrata e conta a história real de uma filha de desaparecidos durante a ditadura militar, que é registrada de forma fraudulenta como filha de um policial e sua mulher. A obra expõe a polêmica de roubos de bebês que era comum na época. Agora, já adolescente, a moça vive o drama da perda de sua identidade original e tenta reconstruí-la novamente, pautada em suas origens e seus vínculos biológicos.

Kamchatka, (2003)

Dirigido por Marcelo Pineyro, a obra argentina retrata o cotidiano de uma criança e sua família. No entanto, a partir do momento em que seus pais começam a ser perseguidos pela ditadura militar, sua vida muda. A família se vê obrigada a abandonar seus bens e se refugiam em uma fazenda no interior do país.

Pretendo retratar, na segunda parte desse artigo, o cinema latino-americano contemporâneo e algumas questões sobre gênero e sexualidade, expondo ao fim, alguns filmes exemplares sobre o tema.


Maria Gabriela de Queiroz

Quase entendedora de gente, de planta, de arte, de mapas e de lugares.
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