Maria Gabriela de Queiroz

Quase entendedora de gente, de planta, de arte, de mapas e de lugares

O cinema latino-americano - Parte 2: feminismo, gênero e sexualidade

"Mas aqui em baixo, abaixo, perto das raízes, é onde a memória nenhuma recordação omite e há quem se recuse morrer e há quem se esqueça de viver e assim entre todos se consegue o que era um impossível, que todo o mundo saiba que o sul também existe." (O sul também existe - Mario Benedetti)


Depois de abordadas algumas questões históricas e políticas sobre o cinema latino-americano, pretendo dar continuidade ao assunto buscando influências históricas sobre o feminismo, gênero e sexualidade, relacionando-as com a sétima arte.

Y-Tu-Mamá-También1.jpg Y tu mamá también, (2001)

Breve percurso histórico da luta feminista, de gênero e sexualidade:

Quando abordamos discussões e diálogos sobre gênero e sexualidade, podemos observar que as mulheres foram pioneiras nessa luta. Movimentos socialistas, anarquistas, sufragistas e feministas, desde o século XX, construíram vozes constantes no âmbito político e intelectual. As mulheres foram protagonistas em diversas lutas durante as ditaduras e continuando sendo no período democrático atual, no qual no desenrolaram movimentos feministas tanto de classe média como de classe popular.

Refletir sobre aspectos feministas interligados com o campo audiovisual, contempla o entendimento da tela como constitutivo de um espaço sensível que se relaciona com as experiências específicas das mulheres. Imersas no âmbito cinematográfico tradicional, as mulheres buscaram destacar e denunciar as concepções construídas sobre o feminino, demarcando as lacunas de suas participações nos registros históricos sobre o cinema, suscitando diálogos inovadores sobre a autoria feminina dentro do cinema e, consequentemente denunciando e interferindo na cultura do patriarcado.

As reflexões sobre cinema atreladas aos estudos feministas são discutidas há, aproximadamente, quatro décadas, sendo desenvolvidas inicialmente, sob o olhar dos países industrializados. Nos anos 70, por exemplo, as feministas que estavam inseridas no campo acadêmico na Europa e Estados Unidos já tinham dado início ao debate sobre a invisibilidade das mulheres na história e no âmbito das artes. Nesse contexto, as mulheres se depararam com a necessidade de observar as problemáticas sobre gênero que influenciavam as produções artísticas, transgredindo assim, aspectos culturais que se direcionavam frequentemente aos homens, sob a perspectiva das sociedades ocidentais e industrializadas.

Decorrida uma década, os anos 80 foi característico pelas políticas de identidade, como os estudos lésbicos, gays e de culturas minoritárias e, seguidos mais alguns anos, tais estudos se direcionaram para o campo pós-estruturalista e de políticas de identidade, que possibilitaram de fato, a abertura para as vertentes teóricas dos estudos de cinema relacionados com o feminismo.

De qualquer modo, é importante demarcar que para além de uma luta feminista de classe média e de mulheres que estavam inseridas no âmbito cinematográfico, as mulheres negras, lésbicas, de periferia, sem terra e/ou operárias deram ao feminismo a imensa gama complexa de seu movimento, denunciando exclusões sociais e violências vindas de grupos/relações hierárquicas.

Especificamente na América Latina, a produção cinematográfica teve maior expressão nas décadas de 1970 e 1980. Seu início e disseminação teria relação intrínseca com o surgimento de grupos organizados de mulheres, além dos movimentos sociais que almejavam uma maior expressão latino-americana. Na década de 1980, emergiram então, os primeiros estudos sobre gênero e feminismo, ainda que de modo tímido e, a partir de 1980 e 1990 surgiram espaços específicos de exibição e discussão de filmes realizados por mulheres.

Superando os meios alternativos para a divulgação de suas ideias no período de 1970 - que contemplavam os jornais, panfletos e revistas -, nos anos seguintes, as mulheres começaram também a utilizar o vídeo como meio de expressão feminista. As produções em vídeos eram de alguma forma, mais independentes e desenvolvidas através de um trabalho coletivo.

A partir desse contexto histórico, podemos pontuar uma importante questão: o ingresso das mulheres na produção audiovisual abriu possibilidades de impulsionar transformações na compreensão patriarcal de realidade, por meio da elucidação de temas voltados para as lutas específicas das mulheres. Apesar desse ponto positivo, uma ressalva deve ser feita: mesmo que, muitas vezes, ter uma mulher na direção de um filme seja interpretado como um diferencial em relação à concepção patriarcal, o olhar artístico não deve ser determinado somente pela diferença naturalmente demarcada por dados biológicos, mas sim, pela construção de subjetividade que possui um enorme peso nas discussões sobre gênero.

As violentas ditaduras deram lugar, a partir dos anos 80, às transições democráticas. As lutas contra os governos ditatoriais trouxeram consigo a reflexão sobre a linguagem dos direitos humanos. Tal processo condisse com a construção de estudos sobre igualdade de gênero e denúncias contra violências aplicadas às mulheres.

A igualdade de gênero e o repensar das heterossexualidades não esgotam o movimento político sobre a sexualidade e suas transições. Se as mulheres foram pioneiras em novas reflexões políticas e de gênero em 1980, os anos 1990 e 2000 se abriram para a entrada de novos atores. Os antigos movimentos homossexuais reaparecem renovados e diversificados, como movimentos gays, lésbicos e posteriormente LGBT. Paralelo a esses fatos, é aberto também, o processo político do reconhecimento da saúde e dos direitos reprodutivos, além da consolidação de uma posição política sobre o aborto.

Feminismo, gênero e sexualidade (en)cena:

Os festivais do cinema feminino desenvolvidos na América Latina demarcam um importante aspecto do olhar crítico e transgressor, o qual contempla questões sobre gênero e denuncia a invisibilidade das mulheres no campo audiovisual. Nesse contexto, algumas questões podem ser suscitadas para delimitar uma análise dos festivais latino-americanos:

1) Os movimentos feministas locais exercem de fato, grande influência no diálogo entre cinema e gênero em toda a América Latina? 2) Assim sendo, ocorre uma efetiva desestrutura do viés patriarcal e das verdades fundamentais baseadas na dicotomia sexual? 3) Existe interação política e discursiva entre esses destoantes eventos que se faz essencial para o feminismo atual?

Diante dessas indagações, a construção de alguns festivais de vídeo e cinema feitos por mulheres foram esboçados e desenvolvidos em dois momentos: em 1980 (México, Brasil e Argentina) quando a redemocratização dos países latino-americanos intensificou a presença feminina nos trabalhos audiovisuais, e no momento atual (Brasil, México, Chile e Argentina), no qual o discurso de gênero perpassa partes do repertório de pesquisas acadêmicas e políticas públicas.

Os festivais desenvolvidos em 1980 contemplam: "I Vídeo Mulher – Mostra competitiva de vídeos sobre mulheres" (Brasil), "Cocina de Imagenes – Primera muestra de cine y vídeo realizados por mujeres latinas e caribenhas" (México) e o "Festival La mujer y el cine: Festival Internacional Realizado por Mujeres" (Argentina). Alguns discursos comuns entre os três festivais, diziam respeito ao debate da construção de um vínculo entre mulheres dos movimentos feministas de várias localidades, nacionais e internacionais. Ressaltaram também, o olhar feminino como particular no que se refere a desestrutura do imaginário masculino, possibilitando às mulheres, instrumentalizar uma potência transformadora das relações sociais sucateadas pelas dinâmicas políticas tradicionais. O cuidado, a memória feminina, a autonomia sobre o corpo e sexualidade emergiram de forma autêntica.

Os festivais hoje desenvolvidos são: "Além do Mujeres em foco: Festíval Internacíonal por la Equídad de Género" (Argentina), "Festival Internacional de Cinema Feminino – Femina" (Brasil), "Festival Cine de Mujeres" (Chile), "Muestra Internacional de Mujeres en el Cine y la Televisión" (México).

Tais experiências cinematográficas (de décadas passadas e da atualidade) embasam teorias e práticas tendo como o centro de discussão, a importância da presença do feminino na produção de imagens, por meio do vídeo ou do cinema. Hoje, podemos observar que os estudos feministas emergiram principalmente a partir de revoltas focadas no corpo, na sexualidade e no pessoal, além de serem influenciados (ou não, necessariamente) por partidos políticos e lutas de classe.

Concluindo, o feminismo deve ser compreendido não como um local de disputa ou exclusão, mas como um movimento de práticas libertárias. Nesse sentido, os festivais que se desenvolveram a partir de 1980 foram consequência de um importante caminho que as mulheres percorreram em direção a uma vertente mais popular. Já os festivais de 1990 e 2000, tiveram como preocupação central, incluir trabalhos masculinos em sua programação, como modo de ver nessa prática uma perspectiva democrática e igualitária.

Tentei, aqui, contextualizar somente um dos possíveis recortes dos momentos históricos referentes ao feminismo, gênero, sexualidade e cinematografia latino-americana. O que foi exposto, diz respeito a um dos inúmeros modos de compreensão de alguns aspectos da luta feminina atrelada ao cinema. Não pretendo dessa forma, compreender tais fatos como estanques e imutáveis, uma vez que a história geralmente contada a nós, não abrange todo o campo de luta, experiências e conquistas de quem a vivenciou. Deixo em seguida, alguns filmes sobre o tema:

Que tan lejos, (2006)

Dirigida por Tania Hermida, a obra ilustra a passagem de Esperanza, turista espanhola, pelo Equador. Em certo ponto de sua viagem, Esperanza conhece Tristeza. Ambas começam a caminhar juntas em direção à Cuenca, visto que o ônibus em que estavam ficou parado na estrada devido à greve indígena que acontecia no país. Em suas andanças, conhecem pessoas interessantes e peculiares, além de vivenciarem momentos de reflexões, conversas e aventuras.

Después de Lucía, (2013)

A película dirigida por Michel Franco retrata a vida de um pai e sua filha que acabam mudando de cidade devido à morte da companheira e mãe. Já na Cidade do México, destino dos dois, a menina ingressa em um novo colégio, o qual lhe desperta medo e terror devido aos abusos físicos e emocionais que acaba sofrendo.

XXY, (2007)

A diretora Lucia Puenzo retrata nessa obra, a vida de uma adolescente (Alex) que nasceu com ambas as características sexuais. A menina leva uma vida tranquila com seus pais em um vilarejo isolado no Uruguai, até que em certo momento do filme, um casal, amigos da família e seu filho, chegam para fazer uma visita. A partir de então, Alex e o menino começam a construir um vínculo e atração um pelo outro.

Y tu mamá también, (2001)

O filme dirigido por Alfonso Cuarón retrata a vida de dois adolescentes que anseiam pela vida adulta. No decorrer do filme conhecem uma menina anos mais velha, a qual é convidada pelos dois a fazer uma viagem. Nessa viagem os três começam a se descobrir, explorando assim, sexualidade, curiosidade e amizade.

Os diretores Raphael Alvarez e Tatiana Issa narram nesse documentário brasileiro, a estreia do primeiro show dos Dzi Croquettes, grupo de homens travestidos que obtiveram grande sucesso nos anos 70. Considerados parte da contracultura da época, os Dzi Croquettes usavam seu bom humor e irreverência para realizar críticas ao governo ditatorial.

La teta asustada, (2009)

A película dirigida por Claudia Llosa expõe alguns aspectos da Teta Assustada, folclore existente no Peru que permeia mulheres estupradas no período da guerra do terrorismo. Os filhos e filhas das mulheres violentadas recebem a doença por meio do leite materno, ficando sem alma. Fausta, filha de uma das mulheres estupradas e vítima desse folclore vive e tenta encarar seus momentos de medo, além de esconder, durante parte da obra, seu grande segredo: a existência de uma batata em sua vagina como modo de proteção perante um possível estupro.

Contracorriente, (2009)

A obra dirigida por Javier Fuentes-León narra o cotidiano de um pescador respeitado no vilarejo em que vive e de sua companheira grávida. Com a chegada de um rapaz estrangeiro, o pescador se vê confuso perante seus sentimentos e sexualidade.

Violeta foi para o céu, (2011)

O filme dirigido por Andrés Wood conta a vida e trajetória de uma das artistas mais admiradas do Chile: Violeta Parra. Além de expor diversos aspectos da vida da cantora, como sua infância e viagens, conta também com uma entrevista que Parra deu à televisão em 1962.


Maria Gabriela de Queiroz

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