Maria Gabriela de Queiroz

Quase entendedora de gente, de planta, de arte, de mapas e de lugares

Sob as lentes de Tina Modotti

Modelo dos murais de Diego Rivera, companheira de Frida Kahlo e Pablo Neruda, Tina Modotti conseguiu transcender os limites da fotografia, dando a ela imensa sensibilidade e objetivando suas convicções de mundo, de relações humanas e de luta.


Assunta Adelaide Luigia Modotti Mondini, conhecida no mundo artístico e de luta como Tina Modotti, nasceu no fim do século XIX em uma pequena cidade italiana e viveu sua infância com os pais e cinco irmãos. Aos 12 anos, devido ao baixo recurso econômico de sua família, começou a trabalhar em uma das fábricas têxteis de sua cidade. Já aos 17 anos, se mudou para os Estados Unidos, onde deu início à carreira de atriz atuando em obras cinematográficas hollywoodianas. Seu contato com a sétima arte possibilitou sua relação com o poeta Roubaix, que algum tempo depois, seria seu companheiro. Conheceu também, na mesma época, o grande fotógrafo e professor particular Edward Weston.

Depois da morte de Roubaix, já no México, em 1922, Tina Modotti, envolvida pelas cores vibrantes e vida tipicamente mexicana, dá início ao seu trabalho como fotógrafa. Tem também, intenso contato com artistas engajados politicamente. Nesse contexto, posa para murais de Diego Rivera, conhece Frida Kahlo e importantes muralistas e pintores que fundaram o Partido Comunista do México.

Tina-Modotti-fotografías-4.jpg Tina Modotti e Frida Kahlo

Perpassada pelo ambiente de luta, Tina começa a trabalhar como tradutora para o jornal comunista El Machete e desenvolve na fotografia, o viés classista. Carregada pela perspectiva de denúncia e pela valorização do povo mexicano, a arte de Tina foi reconhecida e é lembrada até hoje como um marco de crítica social.

027_-tina-modotti-marcia-dei-campesinos-messico-1928.jpg

No mesmo período, Tina conhece Júlio Mella, fundador do Partido Comunista de Cuba, com o qual começa a se relacionar. Mella morre assassinado e Tina é acusada como a própria assassina de seu companheiro. Logo em seguida, é expulsa do México e, devido ao fascismo italiano consegue migrar para Berlim. Já na Alemanha, Tina vê a possibilidade de aprofundar sua luta militante, atuando como defensora de presos políticos e vítimas de guerras.

julio-antonio-mella_1928_tina-modotti.jpg Júlio Mella, por Tina Modotti

Teve na Espanha grande atuação durante a Guerra Civil Espanhola, cuidou de inúmeros feridos, vivenciou o sofrimento de vítimas do fascismo, o assassinato de inúmeras crianças e ajudou a retirar milhares de refugiados na fronteira entre França e Espanha.

No fim de sua vida, Tina Modotti retorna ao México e, no ano de 1942, com 60 anos, falece devido a um ataque cardíaco fulminante dentro do táxi a caminho de sua casa. No seu enterro, sobre seu caixão estava a bandeira vermelha, a foice, o martelo, seus camaradas e o hino "A Internacional".

tina_modotti_oscarenfotos_69.jpg Tina e sua exposição

014_tina-modotti-falce-e-martello-1927.jpg

35303_luzhimenezehija_1926.jpg

35310_nic3b1oamamantandose_ca1927.jpg

35346_madre_e_hijo_juchitan_1929.jpg

35350.jpg

35354.jpg

m197400610168.jpg

tina_modotti_oscarenfotos_65.jpg

35345.jpg

012_tina-modotti_theredlist.jpg

35286_lirios_ca1925.jpg

m197400610185.jpg

35277.jpg

35273.jpg

Manifesto "Sobre a fotografia" de Tina Modotti:

“Cada vez que se usan las palabras arte o artista con relación a mis trabajos fotográficos, noto una sensación desagradable, debido sin duda al mal empleo que se hace de tales términos. Me considero una fotógrafa, nada más. Si mis fotografías se diferencian de las que generalmente se hacen, se debe a que no trato de producir arte, sino fotografías honestas, sin recurrir a trucos ni artificios; mientras la mayoría de los fotógrafos continúan buscando efectos artísticos o la imitación de otras expresiones plásticas. Lo cual produce un efecto híbrido, que no permite distinguir en la obra su característica más significativa: su calidad fotográfica. Se ha discutido mucho en los últimos años si la fotografía debe o no ser considera obra artística digna de compararse con las otras artes plásticas. Existen divergencias entre aquellos que la consideran un medio de expresión como los demás y los miopes que miran este siglo XX con los ojos del siglo XVII; siendo incapaces de distinguir los aspectos más importantes de nuestra civilización tecnológica. Pero a los que usamos la cámara como instrumento del oficio, como un pintor utiliza sus pinceles, no nos interesan las opiniones contrarias, porque gozamos de la aprobación de cuantos reconocen las múltiples funciones de la fotografía y su directa elocuencia para fijar y registrar la época actual. Por eso no es indispensable saber si la fotografía es un arte o no. Lo que cuenta es distinguir entre buena y mala fotografía. Buena es aquella que acepta los límites de la técnica fotográfica y aprovecha las posibilidades y características que el medio ofrece. Mala es aquella fotografía realizada con complejo de inferioridad, no reconociendo el valor específico del medio y recurriendo a todo tipo de imitaciones. Estas obras dan la impresión de que el autor casi tiene vergüenza de fotografiar la realidad, e intenta ocultar la esencia fotográfica de la obra sobreponiendo trucos y falsificaciones. La fotografía, porque sólo puede ser realizada sobre el presente, y sobre lo que existe objetivamente delante de la cámara, se afirma como el medio más incisivo para registrar la vida real en cada una de sus manifestaciones. De ahí su valor documental. Si a esto añadimos sensibilidad y conocimiento de los temas, junto a una idea clara del lugar que se ocupa en el desarrollo histórico, el resultado será digno, creo, de ocupar un sitio en la producción social, a la que todos debemos contribuir.”

Em homenagem a ela, um poema de Pablo Neruda:

Tina Modotti, irmã, você não dorme, não, não dorme talvez o seu coração ouça crescer a rosa de ontem, a última rosa de ontem, a nova rosa. Descanse docemente, irmã.

A nova rosa é sua, a nova terra é sua: você vestiu um vestido novo, de semente profunda e seu silencio suave se enche de raízes. Você não dormirá em vão.

Seu doce nome é puro, pura é sua vida frágil: de abelha, sombra, fogo, neve, silencio, espuma, de aço, linha, pólen, construiu-se sua férrea, sua delicada estrutura.

O chacal, diante dessa joia que é seu corpo adormecido, ainda levanta a pena, sangrenta ao par de sua alma, como se você, irmã, pudesse levantar-se, sorrindo, acima do lamaçal.

Vou levar você à minha pátria para que não a toquem, à minha pátria de neve, para que sua pureza não seja alcançada pelo assassino, pelo chacal, pelo vendido: lá você estará tranquila.

Você ouve um passo, um passo cheio de passos, algo de grande, desde as estepes, desde o Don, desde o frio? Você ouve um passo lime, de soldado na neve? Irmã, são seus passos.

Algum dia eles passarão por seu túmulo pequeno, antes de as rosas de ontem murcharem; passarão para ver os de um tempo, amanhã, lá onde arde seu silêncio.

Um mundo marchou ao lugar onde você ia, irmã. As canções de sua boca avançam a cada dia, na boca do povo glorioso que você amava. Seu coração era valente.

Nas velhas cozinhas de sua pátria, nas estradas poeirentas, algo se diz, algo passa, algo volta à chama de seu povo dourado, algo desperta-se e canta.

É sua gente, irmã: nós que hoje pronunciamos seu nome nós que de toda a parte, da água e da terra, com seu nome, outros nomes silenciamos e pronunciamos. Porque o fogo não morre.


Maria Gabriela de Queiroz

Quase entendedora de gente, de planta, de arte, de mapas e de lugares.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/fotografia// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor, eros //Maria Gabriela de Queiroz