Anna Gomes

Doses diárias de leros e boleros.

Manifestos da Modernidade: sobre as Exposições Universais



Tudo que é sólido desmancha no ar. A expressão cunhada por Marx no sec. XIX reúne em si a síntese de toda a filosofia da modernidade: o desenvolvimento do mundo capitalista produziu - pautado na teoria de “autodestruição inovadora” - uma sociedade líquida onde tudo é mutável, que na mesma velocidade que se (re)cria, de dissipa. A burguesia – uma espécie de agente da modernidade – através da sedutora máscara do progresso tornou enfim, o mundo em mercadoria. Marshall Berman, em sua obra de título homônimo, analisa justamente esse processo onde o crescimento e a expansão do capitalismo passa a determinar a vida dos indivíduos por meio de suas dinâmicas e processos. Tomando o pensamento de Marx por referência, o autor procura desvendar a modernidade em todas as suas instâncias “celebrando os dotes revolucionários da burguesia, a classe que aniquilou velhas tradições e instituições sociais, criou uma capacidade produtiva sem igual e abriu possibilidades infinitas para o desenvolvimento humano”, sem abdicar da crítica a essa mesma classe burguesa. Para Berman, o capitalismo acaba se tornando um sistema ambíguo em que ao passo que ampliou a capacidade produtiva e as possibilidades de desenvolvimento humano, entretanto a chamada “Revolução Burguesa” alargou a miséria e a conseqüente opressão, já que as possibilidades de desenvolvimento individual – aliás, uma das tônicas do capitalismo – tornam-se diminutas. Entretanto, essas relações que passaram a ser construídas com o advento do capitalismo industrial, extrapolam o limite das estruturas convencionais de poder, influenciando definitivamente nas experiências compartilhadas entre esses indivíduos. Conforme nos mostra Berman, o mercado exerce tamanha influência na vida cotidiana que a mercadoria adquire um valor metafísico, levantando “questões sobre o que é mais valioso, o que é mais honrável e até o que é real.” Ademais, pontua que com a absorção e consequente remodelação dos valores das antigas estruturas de poder estas “são incorporadas ao mercado, ganham etiquetas de preço, ganham nova vida enfim, como mercadorias”. Assim, o comportamento humano passa a se pautar nos valores de mercado, sendo concretizado caso haja uma espécie de viabilidade econômica. O Mundo Industrial e as Exposições Universais

A partir da análise de Berman, fica evidente a “fetichização do mundo” advindo das transformações da nova ordem burguesa; ademais, a modernidade como um fenômeno do domínio da cultura, da expressão do pensamento, das sensações, das mentalidades e da ideologia também produz as suas representações como expressão da mesma. Ademais, a Revolução Industrial aliada à um amplo crescimento demográfico proporcionou não só a fabricação de um maior gama de mercadorias como também o uso de algumas possibilidades técnicas de alguns materiais, como o ferro, o aço e o vidro. Entretanto, com o desenvolvimento do mercado do capitalista, oriundo desta industrialização criou-se a necessidade de ampliação dos mercados, rumo a mundialização destes. E será neste contexto, de expansão de mercados, e de conseqüentemente de novas formas de organização social e cultural que poderemos situar o surgimento das Exposições Universais. Símbolo do espetáculo da modernidade, as exposições eram eventos que, num clima entusiasta de progresso visavam à promoção industrial, cultural, econômica e política à escala (quase) global; eram verdadeiras vitrines do mundo moderno e do ascendente ideal burguês, e dessa nova etapa industrial do século XIX.

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A primeira dessa série de exposições ocorreu em Londres – no Palácio de Cristal, que foi construído especialmente para o evento, em 1851. Essa exposição, de estrutura astronômica, teve mais de 6 milhões de visitantes, 13 mil expositores e 28 países participantes. Já Paris, realiza seu primeiro evento 4 anos depois, com a participação de 34 países; mas ficou marcado na memória o evento 1878, realizado sob a recém inaugurada Torre Eiffel, contando com quase 30 milhões de visitantes. Outras cidades, como Chicago, Bruxelas, Milão, Dublin, Turin, Barcelona, etc também sediaram o evento, com a mesma estrutura grandiosa; embora não tenham o mesmo bilho de outrora, persistem até hoje. Foi, aliás, este espírito, muito mais do que a simples troca comercial, que sustentou a realização de tantas exposições universais até fins do século XIX. As exposições iniciais focaram-se no fascinante novo mundo industrial que, antagonicamente à ciência que lhe baseava - mais racional, tinha o condão de deslumbrar o imaginário coletivo, apresentando-se como o veículo incondicional de progresso: as exposições do século XIX introduziram no imaginário do público coletivo promessas de melhora nas condições de vida por meio das invenções e das novas tecnologias apresentadas além de ampla mensagem de pacificação entre os países – o que ruiria abaixo com a Primeira Guerra Mundial anos depois.

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Entretanto, a despeito do clima de exaltação da técnica e de todo o desenvolvimento propiciado pela mesma, as exposições deixaram evidentes o flagrante fosso que separava as potências mundiais do capitalismo das sociedades não-industrializadas; aliás, como o próprio sistema capitalista, as exposições manifestavam essa constante contradição do mundo burguês, em que as diferenças sociais se alargavam progressivamente. Ademais, essas exposições carregavam um forte discurso burguês, não apontando em muitos aspectos elementos fundamentais da realidade fabril: o cotidiano operariado, não só de exploração, mas também as suas lutas e organizações desses mesmos trabalhadores. A corrida imperialista, característica tão marcante do fim do séc. XIX e começo do séc. XX também não encontra lugar no universo ‘’grandioso’’ das exposições, embora o conflito entre as principais potências mundiais se desenrolasse de forma velada; somente a Primeira Guerra Mundial viria a desnudar essa realidade. O século das expressões artísticas e filosóficas como Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Chopin, das grandes construções e inventos, da técnica, da indústria e dos grandes bancos acabaram perdendo o seu brilho justamente pelo desenvolvimento deste sistema que possibilitou essas criações.

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