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Do Carvern Club ao La Cueva...

Maria Laura Marques

Do Cavern Club ao La Cueva

Se formos listar hoje os fatores que nos exigem plenamente, iríamos nos assustar com a capacidade que temos de coordenar diversos momentos e atenções quase que em piloto automático. Piloto automático este cada vez mais cedo acionado e cada vez a mais fatores impostos. Podemos desligá-lo quando bem entendermos, como por exemplo, ao ouvir o hit do momento?


Cavern Club (Liverpool) e La Cueva (Buenos Aires)

Retomando ao princípio: O rock se alastrou pelo mundo como uma epidemia e seu início não foi excepcional em nenhum canto dele. Uns lançaram moda e outros subiram na caranga de imediato cortando seus cabelos como ditava os quatro adolescentes que desvirtuavam a América em apenas um aceno ao sair do avião. No entanto, o que a visão pessimista do mundo reluta em aceitar ao dizer que a globalização facilitou tal disseminação, é o fato de não ter ocorrido uma massiva padronização de gostos e estilos direta, e sim uma rede de distintas interpretações e execuções de um mesmo tema.

No Brasil, com Mutantes, ainda em 1969, no auge das novidades artísticas e sociais, foi adicionado ao rock lisérgico guitarreado à lá Hendrix pandeiros e outros instrumentos típicos brasileiros. O tal do tropicalismo começara a se transformar em um dos principais movimentos artísticos dos últimos tempos e de forte engajamento político no até então país do futebol. E ao mesmo tempo, na Argentina, uma legião de bandas quebrava paradigmas nacionalistas transformando suas músicas em hinos da música contemporânea do país. Aderindo a tonalidade suave e o aveludado acústico dos tangos aos temas e compassos do rock, Almendra e Los Gatos se destacaram nessa busca intuitiva por identidade dentro do rock. E aqui, mais do que nunca, a música foi ferramente fundamental na busca pelos direitos político-sociais.

Por essas mudanças que advém principalmente da cultura local, algumas vezes mais salientes do que outras, é que fazem tão difícil a também inútil tarefa de estabelecer relações entre a música. Tornando assim importante, e agora conectados mais do que nunca, ter a tolerância de enxergar as diferentes manifestações que ocorrem aqui e acolá, julgando o seu contexto e tudo o que reflete no seu processo criativo - podendo inclusive parecer improvável a primeiro momento.

Vivemos em uma constante distopia onde tudo é desacreditado ou idolatrado na mesma velocidade em que fechamos e abrimos uma página no navegador. Cultivamos o hábito de não mais medir e balancear as proporções em que sucesso e qualidade estão impostas. A importância de entendermos o ciclo em que tudo ocorre - e nisso a música não é diferente - ficou de lado, dando lugar ao imediatismo que nos faz atropelar e criar lacunas nos mais belos passos da apreciação de uma arte.

E nessa perspectiva, Extraño Jr. se desenrolará. Top10 tomarão outro cunho e conceitos como sucesso, qualidade e preconceitos culturais muitas vezes tão sutis que nem ao menos notamos, serão trabalhados. Não apenas trabalhados, mas também entrelaçados com outros rumos da história que poderão complementar a ideia a ser passada. Quiçá ultrapassar todas as fronteiras e chegar a lugares que entendem o que lutamos uma vida para sacar. E tudo isso...

... do Cavern Club ao La Cueva.


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