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Do Carvern Club ao La Cueva...

Maria Laura Marques

O tom da prata

Alguns dirão que conceitos no rock é limitador em demasia. Já outros que é indispensável para uma obra se tornar atemporal. A verdade é que a beleza está na imprevisibilidade de surgimento e na sutileza de sua presença.


Científicos del Palo

Certo dia, lembrando de bandas responsáveis por verdadeiras obras de arte conceituais como Vox Dei (La Bíblia), The Who (Tommy e Quadrophenia), Kinks (Village Green Preservation Society) e o inigualável David Bowie (The rise and fall of Ziggy Stardust and the spiders from mars), me questionei acerca o paradeiro dessa estética musical. A resposta veio em um lirismo raro, guitarras lisérgicas, timbres carregados, arranjos complexos e rimas ainda mais: Cientificos del Palo apresentam seu mais novo disco, o glorioso “La Histeria Argentina” (2013).

Banda de rock natural de Mar del Plata (Argentina), trilha seus novos caminhos já com quatro discos no bagageiro, não hesitando em revisitar diversos conceitos musicais e artísticos para a formação da homogeneidade minuciosa a qual os caracteriza. “La histeria Argentina” obteve visibilidade pelo conteúdo que varre atenciosa e detalhadamente a história de seu país de origem de 1806 até a situação atual. Entretanto, o disco não se trata apenas de um catálogo cronológico de todos os acontecimentos, mandos e desmandos, de quem um dia tascou um pedaço da terra prateada ou de quem a traiu, também faz sua parte espirituosamente como um cidadão criticamente ativo, longe de um espectador inerte e submissivo. E é justamente esse tom que o torna tão merecedor do botão repeat.

Dominam celebremente as técnicas de tensividade entoativa, não deixando a bola quicar dentre tantas informações históricas. Criam então uma ponte que, se me permitem a profecia, por anos será revisitado com a mesma veemência sendo digno de ser proclamado patrimônio cultural.

Para quem possa ter pensado acerca a dificuldade de entender e acompanhar o que está sendo cantado e/ou contado, aí vai mais um mérito desta precavida e completa banda: Além do conteúdo autoral, acompanha o disco um pequeno livreto de nada mais nada menos do que 80 páginas onde não apenas contém as letras e informações técnicas, como também a história de cada um dos protagonistas presentes. Sem esquecer que aos diversos lugares do mundo os quais não têm acesso ao álbum físico, Científicos del Palo disponibilizou o álbum na íntegra no Youtube junto de um vídeo que dispõe de todas as letras em formato legenda.

Com muito prazer, lhes apresento os indies, lisérgicos, setentistas, eletrônicos, folclóricos, didáticos, reggaeros, poéticos e, sobretudo, detentores de uma rara e absolutamente completa sensibilidade, Científicos del Palo:

Conceitos irmãos...

O uso da história como tema e conceito geral na música, apesar de raro, não é novo. Já na década de 70, especificamente 1974, Al Stewart, músico folclórico inglês havia gravado seu quinto álbum: o Past, Present and Future havia o colocado definitiva e positivamente na ponta da língua dos críticos ao redor do mundo e inclusive dos tão almejados billbordianos, atingindo a marca de 133#. Recorde este que foi facilmente batido por seu posterior single Year of the cat (1976), cujo atingiu as primeiras colocações em diversos países europeus e americanos.

Past, Present and Future é uma síntese do século XX, sendo cada música a representação lírica de uma década pela visão de uma pacata e mundana testemunha das urgentes mudanças de âmbito global, que se encerra com as profecias do apocalíptico Nostradamus.

Em uma tonalidade que pode gerar muita familiaridade à de Nei Lisboa, talvez pelas ascendências e descendências vocálicas, o violão sempre bem presente e pelas letras de caráter narrativo e detalhista, Al Stewart vos lega uma visão sobre o tempo:


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