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Do Carvern Club ao La Cueva...

Maria Laura Marques

A arte apática de Musso

Do mundo da arte, Woody Allen poderia emprestar seu sobrenome para um cantautor uruguaio. Roberto Musso, vocalista e compositor da banda El Cuarteto de Nos, apresenta os dilemas e absurdos da vida em seu amplo espectro. Assim como o baixinho ranzinza, longe de um conceito isolado e sim uma natural maneira de expressão criativa. Se acreditarmos que os problemas da vida estão voltados para nós, meros mortais longe da fama e êxito dos garotos de Montevidéu ou do cineasta, nos sentiríamos altamente compadecidos, como um afago no ombro, pelo disco Raro (2006).


El Cuarteto de Nos - Raro (2006)

Ao conversar com o dono de uma gentil loja de discos na cidade antiga de Montevidéu pedi, depois de escolher discos suficientes para encher uma mão e não deixá-los cair, para que me escolhesse um último e o levasse direto para o caixa. Torcendo, sem deixar transparecer, é claro, para que não escolhesse uma edição rara e importada, voltou em mãos com um tanto quanto barato disco de capa não muito atraente.

Antes de entregá-lo em minhas mãos, analisou. Abriu. Fechou. "Lançado em 2006, ainda hoje é um grande favorito dos Uruguaios", me explicou sua decisão. “Raro” me parecia um título no mínimo sugestivo... Franco, o nome do lojeiro, teria ainda me dito para ouvir na janela do ônibus. Diante de uma comunicação já longa e complicada, tal conselho despertou uma expectativa do que até então não havia me causado pinoias.

Amplificadores nas portas de lojas, fones de ouvido altos o suficiente para assustar o mais tranquilo otorrino ou já se perdendo ao vento pelas janelas de um alto prédio. E assim se deu também pelas ruas de Colonia Del Sacramento. Como um vírus. Uma epidemia onde todos se veem definidos e reconhecidos com os males e pecados corriqueiros de uma vida ansiosa e altamente desgastante de Raro. Isso explicaria o sucesso e assiduidade dos uruguaios ao disco. Roberto Musso relata a vida como vemos e não temos coragem de assumir enquanto zapeamos distantes - ou procurando estar - da realidade sentados no sofá da sala. Egocêntricos, entediados, ansiosos e vivendo frustradamente planos aquém dos que um dia sonhamos.

Roberto Musso

E com essa reflexão entendi o que Franco quis dizer. Não eram 7h da manhã, mas já havia me acomodado na janela - lado do motorista – para a última parada do tour. Os postes da cidade ainda estavam acesos e a noite escorria em seus últimos tons escuros de azul real. Acresciam, inclusive, aos prédios e muros pichados com dizeres políticos, filosóficos ou apenas com desabafos outra perspectiva. Inquietude. Insatisfação. Evidente também na conflituosa sonolência dos uruguaios para mais um dia de trabalho. Assim como nos jovens voltando de festas, talvez com não apenas álcool no sangue, esbarrando em prostitutas igualmente jovens provavelmente esperando a saideira para volver a la casa. E amanhece.

Raro acaba recebendo um cunho biográfico: Biografia de todos aqueles que eram expulsos pela luz do dia ou por ela convocados. O mundo dentro da individualidade lírica de Musso se mostra amplo e cada vez mais receptivo. A cada esquina, um corte do drama cujo Franco me aconselhou El Cuarteto de Nos como trilha sonora.

A angustiante liberdade de escolhas a qual nos coloca vez ou outra em crise e o consequente niilismo como método de defesa. A busca por explicações para agir e pensar através de determinado prisma. O absurdo existencial como uma roleta aleatória e em loop eterno. O tédio crônico que ironicamente o grande fluxo de informações acaba gerando. Raro poderia ser um dicionário contemporâneo, acessível e terapêutico para a filosofia existencialista. O diferencial é que Roberto Musso atribui a tudo isso certo tom urbano de desdém e conformismo. O que no contexto é ainda outro conselho válido.

Uma arte apática para apáticos. Uma arte que utiliza o não ser, o não ter e dar errado como matéria prima sensível. Ora, o que seria da arte que não transpor todo o sentimento aprisionado na epiderme?

Deveríamos então nos preocupar com o fato da indiferença nos tocar tanto?

El Cuarteto de Nos - Ya no sé que hacer conmigo

El Cuarteto de Nos - Así soy Yo


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