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Do Carvern Club ao La Cueva...

Maria Laura Marques

Gustavo Cerati e o século XXI

Gustavo Cerati foi o vocalista de uma das bandas ibero-americanas mais exitosas. Se não a mais exitosa. Guitarrista virtuoso e um baixista altamente criativo. Dono de uma voz potente e de rara eloquência, podes distingui-la dentre tantas outras. Letrista preciso e sensível. Carismático e sedutor. É sinônimo de vários atributos, mas minha mania de notar coisas que poucos compreendem ou querem verdadeiramente saber, formulou argumentos quase metafísicos para entender um pouco mais sobre diferentes processos criativos ao longo dos anos.


Gustavo Cerati

Como uma grande entusiasta da música da década de 70, a frustração é inevitável a cada nova banda que ouço. Repulsa a priori, logo se transforma em compreensão e admiração. Talvez não nessa ordem e por vezes jamais venham a se tornar concomitantes. A verdade é que sinto a necessidade de ouvir o que a música tem a dizer, e não uma demonstração de habilidades e variedades de instrumentos que algum artista é capaz de introduzir em menos de quatro minutos. E por tal estética, egocêntrica ao meu ver, não encontro culpados. Alguns diriam a tecnologia, outros a falta de informação, influências... São tantas faltas e bodes expiatórios que possuindo a calma setentista fui além. E indo além, fui allá. E encontrei Cerati.

É imprenscindível para um artista possuir a visão aguçada o suficiente para perceber o necessário. Já diria Antoine de Saint-Exupéry, "A perfeição não é alcançada quando não há nada mais a ser incluído, e sim quando não há nada mais a ser retirado". E isso tanto faz sentido a meus ouvidos, como também reconheço tal máxima plenamente nos anos 70. Justo o que me torna assídua de tal década.

Não entrarei no mérito de conteúdo de letras ou simploriedade melódica que a música atual possa apresentar. De coração, não creio este ser o prblema. Não creio ainda que seja o bicho-papão que rockeiros ortodoxos afirmam ser. Por mais ingênuo que possa parecer tal pensamento, não acredito em alguém que se julga apto a dizer sem delongas o que é ou não música. Não creio em tais exageros, por resumo, é justamente de exageros que redijo este desabafo reflexivo. São para mim absolutamente indigestos.

Gustavo Cerati

Dito isto, apresento-lhes Cerati. Entre reflexões sobre exageros e perfeição. De um lado a perfeição de não ser ganancioso, e do outro, o exagero de não o ser mesmo sendo absolutamente apto a tanto. Não creio supervalorizá-lo sem razão quando digo que Cerati representa o que um artista no século XXI deva ser. Voou sempre adelante de todo critério e contexto. A tecnologia não fez sua música perder a naturalidade. O desdém pós-moderno não o tornou imprudente. E assim caracterizo sua carreira, sempre na dose exata de todos os elementos.

Por exemplo, peguemos Cosas Imposibles. Um sampler em loop. Um chimbal solitário e ritmado. A caixa surge para dar o balanço que o chimbal parecia exigir. Irrefutável como ordem de mãe. O bumbo se une ao ritmo para acrescentar o gingado somático ao ouvinte. O baixo e a guitarra encenam harmoniosamente o minimalismo de duas notas. O surreal - a atmosfera ceratiana - irá surgir apenas no refrão, quando a sensação é justamente estarmos sendo sugados para outro vasto espaço. Desconhecido. O frio na barriga é apenas o presságio. Por vezes, pequenos efeitos sintetizados surgem para incluir dinamicidade à canção. E como uma garantia, permanece ao longo dela, dando a capacidade de resgatar nossa atenção. Assim como uma vistosa e aromática taça de vinho que protelamos ver o fundo de cristal o quanto podemos.

E assim é dada a abertura do clássico disco Siempre es Hoy (2002).

Vejo no Cerati - além de uma essência minimalista que reconheço em baladas soft rock, eis o link com os anos 70 - alguém que soube reconhecer a tecnologia como algo a dialogar, visitar quando se é necessário. Mais forte do que a questão "com o quê e como foram feitas as canções" é a sensação de que cada música teve a liberdade de fluir. Surgir e se desenvolver como bem quis. Com coerência, eloquência rara e respeito. Eloquência, aliás, grande característica de Gustavo. Inclusive ao seu espanhol.

Se em um pequeno teste quisermos provar minha teoria é bastante simples. Basta ter em mãos a playlist de qualquer disco de sua discografia. Podemos dividí-la e ainda assim soarão com personalidade única. É como se ele as deixasse caminhar livres e independentes, sem necessitar de uma justificativa geral na capa do disco para que tenham sentido. Cada disco parece ser como uma família. Seus membros têm diferentes características, assuntos, destinos, mas todos pertencem ao mesmo sobrenome.

Cerati é um cais quando retorno para a música do século XXI. Com tanta urgência em produzir um álbum, para que este tenha tantas músicas for capaz de criar, o desfoque de certos aspectos musicais em prol de outros não tão genuínos, a necessidade de impor uma linguagem, uma estética... Diferente de tudo isso, Cerati caminha com a calma de um pai, atrás de suas criações, observando-as interagir con su alrededor.

Entre a delicadeza de pertencer a canção e a pretensão dela pertencer ao mundo.


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