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Do Carvern Club ao La Cueva...

Maria Laura Marques

Artaud-disco, livro-Artaud e Van Gogh

A filosofia, literatura, música, artes plásticas quando se apresentam no centro de um diagrama de Venn é passível de reflexões infindáveis. Estão ao longo da história da arte e em 1972, Luis Alberto Spinetta apresentou a mais bela intersecção entre surrealismo, impressionismo e literatura vanguarda francesa para expressar sua reflexão sobre a realidade social argentina no período. Artaud-disco demonstra a essência do sofrimento, da agonia, do lamento, da impotência.Declarar ser adepto do devir pré-socrátivo é acima de tudo um grande ato de humildade de Spinetta. Torna-o apto a entender que o passado é doloroso, vil e impassível, mesmo que o devir pise no calcanhar de seus erros com o olhar baixo de culpa e arrependimento. E quanto mais as coisas mudam, mais elas permanecem do jeito que estão¹.


Da esquerda para a direita: Antonin Artaud, Van Gogh e Spinetta

A arte possui uma dimensão única e por vezes inóspita e intransitável para a maioria dos viventes. Se agonizante, servilmente eterniza seus versos, notas ou pinceladas como comburente junto a outros dissabores do viver. E perdura enquanto seus autores ecoarem etílicos, ribombantes, aos passionais de anos adiante. O detalhe a ser pensado é acerca a volatilidade com a qual tratamos os artistas passados, os de nosso tempo e suas relações com os movimentos circundantes, o mundo.

Van Gogh viveu em uma sociedade em que, a princípio, a alienação era o maná de suas breves existências. Alienação, que no sentido atribuído por Artaud, supõe a tendência à loucura antes da traição de uma ideia superior da honra humana. Sentimento o qual desfigurava internamente o holandês, assim como este desfigurava a natureza, no intento de tornar plena a consciência de si. Exitoso, a natureza jamais seria a mesma depois de seus traços grotescos. Ela já não era mais ideal, como costume acadêmico. E este foi seu crime perante a sociedade. A verdade é que a natureza estava mais bela, vívida, falante. Em seus quadros, o mundo se vestia de outras paletas e os elementos de suas mais pitorescas cenas nasciam, surgiam, morriam em formas ocultas e por isso incompreendidas aos olhos dos demais.

Devíamos deduzir o mito das coisas mais terrestres da vida, dizia o ruivo. Essa dedução, que apenas Van Gogh irá mostrar a destreza para interferir na tênue distância entre o real e o ideal imagético, ficaria marcada para a população. Foi proposto a ela uma nova perspectiva sobre tudo ao seu redor. O temor de que os demais artistas da época, incapazes de tamanha faceta, se tornariam rapidamente obsoletos, guiou a ascensão e queda de várias escolas artísticas. Uma dinâmica de uma sociedade que anseia cruelmente por novidades em contraponto a sua paradoxal inabilidade de lidar com mudanças. Ansiamos, mas não as queremos tanto assim. Caímos sem amortecimento na reflexão de Henry David Lawrence. Plus ça change, plus c'est la même chose. O frio na barriga é insuportável. Tudo cansativo em demasia. Portanto, louco. Insanos e condenado a externa e covarde repugnância.

Da esquerda para a direita: Artaud-disco, Livro-Artaud, Café de Arles por Van Gogh

Mas Antonin Artaud reconhece a angústia e silencioso desespero de Van Gogh, que como o holandês, foi julgado perturbado e perambulou por manicômios e diferentes métodos de correção comportamental no território francês. Escreveu um radical esclarecimento à sociedade de seu tempo sobre o que ocorreu sociologicamente com Van Gogh, em seu livro Van Gogh: Le suicidé de la société (1947). Fazendo com que o amanhã carregue consigo uma espécie de perdão. Com a licença da indispensável anáfora, o amanhã é sempre um pedido de perdão. Um sopro. Suave, suspenso no ar. Quando toca o chão, mais motivos de perdão surgem para um breve futuro irrisório. O ciclo recomeça. Plus ça change, plus c'est la même chose. Apesar de a preferência de alguns é ser enfermeiro da velha lucidez, o futuro é sempre um pedido de perdão. O futuro só é futuro quando o então motivo de perdão é compreendido. Em 1972 temos então a consolidação de um futuro.

Spinetta influenciado pelos escritos de Antonin, julgada então insana por seus contemporâneos, reflete pelo sofrimento que, personificado em ambas figuras – Van Gogh e Antonin - representa todos aqueles que surgem e indiferentemente morrem frente às suas obras como para defendê-las da sociedade e sua presunçosa – sem exceções - existência. Spinetta mesmo em um contexto de desesperança política e aflição social, imposta pela tendência autoritária na América Latina como um todo, estimula uma nova consciência a ser seguida na arte.

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O rock, seguido de seu boom, chegou aos países periféricos com a mesma força e o mesmo intento representativo para os jovens. Todos desejavam assumir a rebeldia que era apresentada pela tevê. Ou ao menos, o mesmo corte de cabelo. Isso fez com que, a priori, o inglês e diversos estereótipos tenham sido acolhidos como características naturais e indeturpáveis ao novo som que surgiu. Em seu primeiros anos na terra prateada, o rock provocou a cisão entre acadêmicos e intelectuais e entusiastas do novo mundo. Desconfiança, desprezo, e condição quase que explícita: O espanhol é de uso exclusivo do tango.

Bandas covers e letras em inglês foi um padrão até meados da década de 60. Não é possível, tão bravamente, assumir uma linguagem única e própria, seja ela em qualquer arte, mas a cultura popular é ela por definição, o subproduto de uma reação entre diversas influências. Por consequência, neste contexto, Spinetta propôs uma sutil reaproximação com a cultura argentina e uma breve desconexão com as influências americo-britânicas. Fez-o muitas vezes após shows, em camarins, como conselho paternal às novas bandas. “Vi potencial, mas por que não usar a língua espanhola?”. Surgia então na região portuária de Buenos Aires, com o hino La Balsa (1967), do grupo Los Gatos, o rock argentino. Eis o subproduto.

O anseio pela novo e seu paradoxo, a nossa aversão à mudanças, esteve presente, portanto, durante a vida do músico. Acompanhou, durante os anos 60, florescer um movimento que condizia com seus ideais revolucionários, mas viu esses jovens crescerem e perderem a empatia social no desenrolar de um novo panorama mercadológico imposto à arte. A sociedade novamente se viu reconhecida nas mudanças sociais e políticas que emergiam junto ao rock, mas o frio na barriga a venceu com débil facilidade. Bem como os parceiros de banda de Spinetta, em questão Pescado Rabioso, o abandonariam após um concerto no teatro Planeta. Por não reconhecerem mais suas próprias ambições nas do vocalista solitário, Spinetta quedou-se poeticamente sentado no meio do palco, sem reação. No turbilhão de ideias surrealistas em que se encontrava, não sabia ao certo se a solidão das costas de seus parceiros ao sair pelas largas portas do teatro, teria sido ou não uma benção para o seu processo criativo. A sua única certeza é que tinha ideias e elas o atormentavam.

Surge, mais clara do que nunca, a intersecção entre os três artistas. Spinetta reconheceu o mal de seu tempo em três outros períodos diferentes. O disco intitulado Artaud será uma reavaliação, portanto, das relações sociedade-arte. A mesma sociedade que uma vez “matou” Van Gogh, e a mesma que em outros tempos condenará a arte à indiferença toda vez que tentar interferir em sua realidade, como Artaud foi acausado ter ambicionado. Logo, a grande sacada de Artaud-disco será apontar para a sociedade em plenos tempos politicamente instáveis. Alguns ainda hoje remetem as críticas contidas nas letras aos governos autoritários que emergiam, sem notar que a flecha estava apontada justamente para a irreflexão de seus contemporâneos.

Spinetta quis redimir um mundo que negligencia a arte por presunção. Apresentou um disco cru, sem muito refinamento de timbres, profundidade sonora e tecnologia. Por vezes, confuso. Indireto. Dignos de verdadeiros mal entendidos. A “nena”, perseguida na canção Cantata de Puentes Amarillos, a qual foi convidada a subir no taxi e assim ser salva era a realidade da Argentina – naquele momento alvo de atentados à democracia - ou a narração hipotética de algum dos quadros de Van Gogh? A única certeza é que Spinetta quis redimir o mundo que, ao se libertar de um passado conservador e improdutivo, desistiu de seus ideais em prol de uma industria fonográfica cega e surda. Em relação a isso foi incisivo.

Spinetta foi o messias da música argentina. Tirou-a da inércia e da dominação da falta de autenticidade. A música argentina devia falar sobre a sua própria umidade, sobre os seus rios, sobre os seus mandos e desmandos. Sobre as suas ruas reluzentes, sobre a sua própria vontade de fugir, mas nunca da terra prateada. Não devia ser correspondente de outras realidades, de dilemas alheios. Não deviam trair a sua Realidade. A sua fatal Buenos Aires. Sua arte portuária.

“Aunque me fuercem yo nunca voy a decir, que todo el tiempo por passado fué mejor. Mañana es mejor!”.

Mañana es mejor.

¹ Tradução de "Plus ça change, plus c'est la même chose", LAWRENCE, D. H. Estudos sobre a literatura clássica americana. Ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2012, p. 131.


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