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Psicanálise e Cultura em cena.

Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum.

Os Famosos e os Duendes da morte

O filme retrata a vida do Brasil profundo e a difícil passagem da adolescência para a vida adulta: o enfrentamento da morte e sua sedução que sempre nos espreita nesta travessia.


Qualquer um que assiste o trailler é tomado por uma curiosidade persistente. Um empuxo, um tipo de saudade incontrolável de algo que nunca foi. Talvez o campo, o Rio Grande do Sul profundo, a internet e a vida de um adolescente no atravessamento desta fase tão difícil e incontornável. Como incontornável é a travessia daquilo que você deve ser e o que você pode e escolhe ser. O cinema brasileiro fica de parabéns com uma obra de arte de sensibilidade rara embalada pela sutil trilha sonora de Bob Dylan. Se o filme tem o mundo virtual como pano de fundo ele não carrega a superficialidade das redes sociais.

O diretor consegue plasmar muito bem a lentidão do interior gaúcho- o frio, a paisagem lúgrube, a imigração, o branco fosco que dá tristeza.

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Vi o filme junto com duas amigas; cada um teve uma reação diferente, uma saudade diferente, uma dor diferente, mas compartilhada. A verdadeira obra de arte é a que consegue arrancar de cada um sua memória e acendê-la habilmente. Uma viu sua adolescência nem tão hipermoderna, mas em sua essência doce e desafiadora; a outra viu seu tempo vivido em uma cultura fria e dura enquanto ela destoava como um bicho híbrido. Eu vi minha figura lânguida e vulnerável a buscar meu esconderijo na íngreme escada que levava à biblioteca do colégio em meus idos 15 anos... Eu vi os contornos tortos e finos de minha adolescência e a presença sempre forte e confiante da mãe.

naquele cidade cada um sonhava em segredo: menino sem nome conheceu a garota sem pernas, mas mesmo assim, não precisava de ninguém pra ir embora”. Assim começa e termina o filme numa metáfora brilhante de um garoto que precisa deixar sua vida e enfrentar o canto sedutor de morte que nos espreitar de soslaio.

O enlace familiar é tratado com a delicadeza que o tema merece, tanto que, para os desavisados, o âmago do filme pode passar completamente despercebido. O diretor, entretanto, deixa claro nas postagens virtuais do menino protagonista. Uma em especial traduz o que atravessa o filme : “...nossas bocas sonhando até o fim, como o que ficou pra trás, como o que nunca será descoberto, como o que nunca mais voltará a ser três”. Incrível metáfora da relação sempre precária " mãe", " filho" e um terceiro que intervém na relação causando a necessária separação dessa relação simbiótica. Atravessar a ponte fica marcado como a metáfora mais forte daquele que precisa cruzar seu destino e abandonar o apego nostálgico ao “três” e, finalmente, fundir-se ao seu desejo. Palmas para o diretor.


Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum. .
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