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Psicanálise e Cultura em cena.

Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum.

Overdose

Mudando um pouco o tema do cinema, dessa vez trago uma breve análise do tema da solidão e os desafios do amor...Tema sempre tão comum no cinema.


-- Estou com uma crise insuportável de enxaqueca. ---overdose de mim? ---não, de mim...

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A pior coisa que pode acontecer é o excesso de presença própria. Não por acaso a solidão é tão tentadora; ela nos intoxica porque nos convence de nossa ilusão de autossuficiência e completude. O narcisismo deve ter sido fundamental para nossa evolução, mas como quase todas as nossas aquisições propriamente humanas, pagamos o preço de nosso paradoxal progresso. Algumas pessoas claramente não suportam a solidão e são essencialmente gregárias. Outras, sucumbem com facilidade ao empuxo gravitacional do onanismo existencial. Vale lembrar que a masturbação é o vício mais comum dos neuróticos que revivenciam, por meio dela, sua sexualidade infantil, seu autoerotismo e narcisismo. Em excesso ela parece fazer com que nos apeguemos muito a nossa forma de sentir prazer e, quando do encontro com o outro, somos poucos dadivosos. É fácil ter prazer sozinho.

Não sei dizer o que seria mais fácil, viver sozinho ou junto. Suspeito que viver junto coloca desafios pelos quais todos precisam passar. Viver sozinho depois de ter vivido junto pode ser mais desafiador ainda. Mas, penso que pra quem nunca viveu junto o efeito inebriante da própria presença é aniquilador. Depois de um tempo começa-se a desacreditar na possibilidade de viver fora da própria pele, depois de anos tentando caber dentro de si, estar confortavelmente bem no corpo começa a se tornar uma obsessão.

De todo modo, a solidão pode ser o último refúgio do encontro sempre traumático com a presença do outro, seus desejos e expectativas. Ninguém suporta a presença muito próxima de um outro desejo, porque um desejo sempre questiona o outro. Para isso, cada um cria sua própria estratégia de sobrevivência. Uns preferem viver em função do desejo do outro a vida toda; pulam de amor em amor mantendo o desejo sempre na insatisfação. Outros (talvez mais doentes) optam por não querer saber sobre o desejo do outro; se escondem. Levantam muros quase intransponíveis só para não serem amados pelo outro. Se deixar amar também é uma arte. Suspeito que, normalmente, quem não consegue amar, não suporta também ser amado. O amor para estas pessoas ou é muito aterrorizante ou muito fascinante. O certo é que pessoas muito solitárias não sabem dosar o amor: ou ele é demais ou é de menos.


Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum. .
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