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Psicanálise e Cultura em cena.

Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum.

O pai da melancolia

"Violeta foi para o céu" (Violeta se fue a los cielos), filme de direção de Andrés Wood em coprodução de Chile/Brasil/Argentina. O filme é uma biografia extremamente psicológica de Violeta Parra, artista chilena que compôs fortes canções como a celebrada “Gracias a la vida”.


Recentemente tive o prazer de assisti "Violeta foi para o céu" (Violeta se fue a los cielos), filme de direção de Andrés Wood em coprodução de Chile/Brasil/Argentina. O filme é uma biografia extremamente psicológica de Violeta Parra, artista chilena que compôs fortes canções como a celebrada “Gracias a la vida”.

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O filme imediatamente me remeteu a dois filmes: “Piaf” e “Melancolia”. Duas obras de referência que tratam de um tema tão pesado como a melancolia e o peso de ser e existir. Violeta, como tantas outras mulheres, não suportou o peso de ser e sucumbiu ao suicídio aos 50 anos. Uma terrível decisão que há tempos já perdeu seu glamour para mim. A tristeza hoje é algo que me causa mais indignação do que a compaixão apressada. Ainda não sei exatamente por que, mas pressinto que há algo no sofrimento melancólico de extremamente narcísico que, se antes me atraia, hoje me repele. Violeta, tal como Justine em “Melancolia” é uma personagem que ao mesmo tempo em que produz simpatia e compaixão provoca também uma justa revolta; uma ira contra esse tipo de resolução para a vida. Não que o suicídio não possa ser, em certas circunstância uma saída, mas sua aura de glamour e coragem existencial não convence. Saí do filme me questionando se para algumas mulheres as únicas saídas devem ser sempre por amor ou a morte.

Violeta amou desde cedo; amou seu pai, um homem débil e violento a quem jamais superou. Piaf também teve um pai pífio que cedo a abandonou. Sua voz, porém, cantou sua falta até o último dia. Justine até o último momento de sua fracassada festa de casamento pediu auxílio ao pai. Inutilmente. Ele foge covardemente do castelo deixando-a sozinha e sem esperanças.

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É difícil entender o que ocorre com os melancólicos. Assim como Violeta Parra, eles tem um peso de vida de quem desconhece tanto a natureza de sua nostalgia como a origem dela. Um " Ser" pesado que eles carregam como se fosse eles mesmos ou a própria vida, sempre dura e insuporável. Mesmo quando conseguem saber de quem sentem falta, eles não sabem o que foi perdido. A psicanálise nos ensina que uma posição da pulsão nos primórdios da vida psíquica do melancólico foi perdida; não por acaso tanto na vida de Piaf quanto de Violeta perdas profundas marcam suas infâncias.

Mesmo sabendo disso tudo, algo me impediu de sentir somente compaixão por Violeta. Talvez o impacto do filme tenha sido tão forte que embaçou minha visão, mas há também a possibilidade de que algo em seu sofrimento não me seduza e, portanto, não teve o poder de me emocionar. Violeta e Piaf foram mulheres que cantaram seu sofrimento, sua vida dura e suas perdas constantes; ambas com vozes fortes e cortantes foram até o último dia de suas vidas apegadas a tudo que perderam. Um apego tão forte que as conduziu, sem esperança, à morte certa e prematura. Tentando descobri o que há de tão peculiar no sofrimento de Violeta encontrei este trecho de um texto da psicanalista Maria Rita Kelh sobre o sofrimento melancólico:

“ Freud estranha também que falta ao melancólico o sentimento de vergonha comum aos arrependidos, aos que de fato se consideram indignos e sem valor. Se estes se escondem e tentam fazer calar sua culpa e seu crime, os melancólicos parecem sentir necessidade de alardear suas baixezas e sua indignidade. Debatem-se em autoacusações delirantes sem saber que os insultos furiosos voltados contra si próprios em verdade correspondem às características de alguma outra pessoa”.

Exatamente por isso que Freud, em Luto e Melancolia, diz que queixar-se para o melancólico é dar queixa. Dar queixa de alguém. É carregar o peso de um cadáver putrefato em suas costas. É morrer pelos crimes de outra pessoa. Talvez seja isso que eu não aceite no sofrimento melancólico – certa farsa; uma mentira verdadeira que não me convence.O sofrimento é autêntico, mas seu objeto é indigno de tamanho sacrifício.

Ver Violeta e Piaf morrerem pelos crimes e vilezas de seus pais, para mim é inquietante e causa mais indignação do que compaixão. A vergonha de Ser do melancólico me incomoda porque esconde e protege uma culpa verdadeira, uma expiação sagrada que não lhes pertence.

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Se como nos diz Freud, a sombra do objeto cai sobre o eu, isso indica a base narcísica do investimento pulsional e a identificação precoce do eu com o objeto perdido. O filme confirma minha hipótese quando faz Violeta dizer: “Eu preferia que ele ( o pai) estivesse vivo, mesmo que ele dormisse pra sempre, mas vivo”. Não há dúvidas de que o pai permaneceu vivo nessa superposição de identificações que é a ambiguidade amorosa experimentada tão intensamente pelo melancólico. O deleite em atormentar-se da melancolia tem a natureza de uma satisfação sádica em insultar e humilhar o objeto de sua perda; o problema é que esse tipo de masoquismo moral se manifesta em crueldade contra a própria pessoa e não contra quem de direito. Em poucas palavras: a crueldade do pai está sempre presente no sofrimento melancólico, tenha sido este pai cruelmente passivo ou ativamente cruel. O sujeito melancólico então, ao tentar destruir o objeto odiado de sua identificação inconsciente, pode chegar ao cúmulo de destruir a própria vida.


Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum. .
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