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Psicanálise e Cultura em cena.

Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum.

Em defesa do que não tem perdão

Uma recidiva alcança o Brasil: a grande querela do inconsciente. Iniciada em 1996 quando historiadores americanos autodenominados revisionistas freudianos, escreveram uma petição para impedir uma exposição da obra de Freud em Washington retorna em setembro de 2005 quando foi lançada na França uma coletânea intitulada “O livro negro da psicanálise: Viver, pensar e melhorar sem Freud”. A obra é um libelo de acusação à psicanálise e, principalmente, ao seu fundador.



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Uma recidiva alcança o Brasil: a grande querela do inconsciente. Iniciada em 1996 quando historiadores americanos autodenominados revisionistas freudianos, escreveram uma petição para impedir uma exposição da obra de Freud em Washington retorna em setembro de 2005 quando foi lançada na França uma coletânea intitulada “O livro negro da psicanálise: Viver, pensar e melhorar sem Freud”. A obra é um libelo de acusação à psicanálise e, principalmente, ao seu fundador.

Infelizmente, o livro decepciona a quem deseja uma reflexão profunda sobre o pensamento freudiano e um bom confronto de ideias. O estilo da obra lembra mais uma cruzada para destituição da psicanálise em prol das aclamadas terapias cognitivo-comportamentais (TCCs). Mais recentemente, foi lançado no Brasil “Os pacientes de Freud” de Mikkel Borch-Jacobsen, um dos autores do “livro negro”. Longe de demonstrar um esforço intelectual sério, o autor tem um discurso sectário mais próximo do jornalismo panfletário do que da pesquisa historiográfica. Aqui não se nega a premência de uma atualização da história da psicanálise, especialmente dos costumes e formas de vida dos primeiros analistas que, segundo Roudinesco eram excessivamente conservadores e propensos à adulação de seus mestres. Segundo ela, os verdadeiros anos negros da psicanálise passam batido por tais denúncias cujo único objetivo é promover operações editoriais de propaganda e venda.

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Esses “novos cruzados revisionistas” acusam os psicanalistas de serem nada mais que pequeno-burgueses interessados somente em sexo, dinheiro e em catequizar a cultura com sua teoria. Mas eles não estão de todo errados: a psicanálise de fato opera sobre estes três grandes poderes que governam nossas sociedades: o dinheiro, a sexualidade e o pensamento. Talvez por isso a resistência a ela seja tão virulenta. Nenhum de nós está facilmente disposto a fustigar assuntos tão tabus e, principalmente, admitir que não somos donos de nossos pensamentos e nem que a sexualidade e nossa relação com o dinheiro estão mais intrincados do que nossa moral popular suporta admitir. Como abrir mão da facilidade de procurar um terapeuta que lhe promete curar o medo de aranhas em 10 sessões ao invés de enfrentar complicados meandros do seu insidioso desejo? A psicanálise revela a cruel ferocidade de poderosos sentimentos humanos que por sua tenebrosa natureza não podem mesmo ser perdoados. Como então ela, que os desmascara sem denegá-los, poderia sê-lo?

Rafael Lobato

Psicólogo e entusiasta da psicanálise, interessado em trazê-la para o cotidiano da vida comum. .
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