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Cinema e outras coisas

Carol Gavioli

Acredita que o mundo mais legal existe na cabeça de cada um.

O “real” manipulável nos documentários

O documentário é um gênero popularmente conhecido por mostrar o real. Como o subgênero reflexivo pode manipular espectadores a exemplo do que pode ser visto em Ilha das Flores de Jorge Furtado?


2A250509001.jpgCada documentário e produção cinematográfica, em geral, possui uma forma de expressão particular. No caso do filme documentário, como aponta Bill Nichols em seu livro “Introdução ao documentário”, identificam-se seis modos de representação, apresentadas como subgêneros do gênero documentário. Esses tipos são chamados poético, expositivo, participativo, observativo, reflexivo e performático. Obviamente, isso não limita a obra para que o filme pertença um ou a outro gênero, eles se misturam e transfiguram para mostrar ao espectador aquilo que era real para uma pessoa: o diretor. 160410ZM (10).JPG O modo mais manipulador do espectador para que ele enxergue a concepção daquilo que o diretor quer mostrar é o reflexivo. Nele a relação do cineasta é claramente com o espectador. Ele dialoga com o público, lidando mais com crenças e suposições , do que acrescentado conhecimento e ensinando sobre o tema. Para isso, ele consegue transformar o familiar em algo que causa um estranhamento em quem assiste. Neste tipo, o documentário pede para ser visto mais como representação do que como forma de enxergar o mundo. Isto é, ele trata de situações conhecidas, mas tenta provocar alguma reflexão sobre o tema por meio da forma que é realizado. Exemplo disso é o documentário de Jorge Furtado, “Ilha das Flores” (1988). images (1).jpg De maneira irônica, ele traça o trajeto de um tomate da plantação até chegar a um grupo de pessoas que buscam comida em um depósito de lixo. Ele explora a forma expositiva, com voz over, narrador com voz treinada, texto explicativo e altamente didático, mas extremamente irônico. Em seu artigo “Ilha das Flores: o documentarista em primeiro plano” (2005), Roseane Meire Vieira de Jesus afirma que Furtado faz associações inesperadas nos comentários como “Jesus ser judeu e ter dinheiro” e usa imagens do holocausto para subverter o comentário. Na “Ilha das Flores”, crianças e mulheres são colocadas no patamar dos porcos. Ele subverte o modo expositivo, quando o narrador diz, de modo a parecer não se importar que “mulheres e crianças são seres humanos com telencéfalo altamente desenvolvido, polegar opositor e nenhum dinheiro. images.jpg Elas não têm dono e, o pior: são muitas. Por serem muitas, elas são organizadas pelos empregados do dono do porco em grupos de dez e tem permissão de passar para o lado de dentro da cerca. No lado de dentro da cerca, elas podem pegar para si todos os alimentos que os empregados do dono do porco julgaram inadequados para o porco” (trecho da locução do filme). Neste momento, Furtado provoca os sentimentos do espectador por mostrar cenas esteticamente bem construídas e de carga emocional mais forte de um jeito que, pelo sarcasmo do narrador, parece uma ação extremamente comum na vida das mulheres e crianças.

Carol Gavioli

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