Rafael Cal

Vivo no Rio de Janeiro, sou professor e escrevo. Todo o resto deriva disso.

Madame Satã: observações sobre a cidade e a gente do Rio de Janeiro

O cenário é o Rio de Janeiro dos anos 1930. João Francisco dos Santos, seu personagem real: Madame Satã, figura mítica da boemia carioca, retratada no filme homônimo de Karim Aïnouz. Aqui, uma análise da representação do Rio de Janeiro e de seus personagens marginais na primeira metade do século passado, lançando o olhar sobre o passado e ampliando o debate acerca das transformações no ambiente e seus efeitos sobre os setores populares.


foto1.jpg Madame Satã. Divulgação.

Angela resolveu dar uma lição em seu marido Bob. Para isso, resolveu se fantasiar de diabo para seduzi-lo em uma festa feita em um dirigível. Essa é a história do filme de Cecil B DeMille, Madam Satan, filmado em 1930. É assim que começa a surgir no Brasil Madame Satã, figura emblemática da noite carioca, retratada no filme homônimo de Karim Aïnouz.

Nos anos 1930, João Francisco dos Santos, pernambucano, ainda jovem mudou-se para o Rio de Janeiro, indo morar na Lapa. Sem profissão, vivia de bicos como entregador de marmita, cozinheiro e segurança nos bares e bordéis da região. Era homossexual, pobre e negro. De vez em quando, cometia roubos. Para se proteger e agir, toda a ginga de capoeirista: era dos melhores. João, fã do filme de Cecil B DeMille, torna-se Madame Satã, transformista, figura mítica da boemia carioca.

foto2.jpg João Francisco dos Santos, o Madame Satã.

Esse homem-personagem é o tema do filme de Karim Aïnouz. O diretor expõe, sem delicadeza, a Lapa na primeira metade do século XX. Não se trata aqui de fazer uma reconstituição histórica do período ou representar o passado de maneira factual. Ao apresentar a história de João, Aïnouz constrói a sua versão sobre os fatos. Em tais representações sempre se viola de certa forma o passado, mesmo que em uma tentativa de preservação da memória. Que fique claro que não se trata de uma construção idealizada e romântica da pobreza, da miséria, do preconceito, da exclusão e da violência. Todavia, também não quer dizer que não haja lirismo. Existe. Mas é um lirismo bruto.

O espaço em se desenvolve a narrativa é o Rio de Janeiro do início do século passado. Capital da República, era uma cidade em transformação constante. Acima de tudo, uma cidade que precisava se modernizar. Iniciado na década de 1900, o processo de reforma urbana permanecia: a destruição dos cortiços e o desmanche de morros se somavam a abertura de avenidas largas. A modernidade que chegava afastava do centro da cidade as populações mais pobres. Fazia-se necessária a exclusão daquela parcela da população. Se fosse possível fazê-la sumir, isso seria feito. Na falta dessa possibilidade, a solução era empurrá-la para outras regiões. Qualquer coisa que mantivesse viva a chance de construir uma capital em moldes europeus.

Nesse processo, a Lapa tornou-se um foco de resistência. Os expulsos do centro que não eram empurrados para os subúrbios, estabeleciam-se ali. A manutenção de costumes e tradições é parte do processo de enfrentamento, uma estratégia de luta. A região virou reduto de prostitutas, cafetões, jogadores de capoeira, desempregados: todos aqueles classificados pelo Estado como desocupados. Ou, ainda mais severamente, como classes perigosas. Em tempos de tantas obras e reformas, tudo isso parece muito atual.

Em seu discurso visual, o diretor constrói a representação de uma área marginalizada, ocupada pelas classes perigosas. Deve-se, portanto, considerar as imagens não somente como ilustração, mas compreendidas dentro de sua “natureza específica”. Tal discurso pode ser percebido na composição dos ambientes em que vivem e trabalham os personagens. A fotografia contribui para a percepção de uma Lapa marginalizada. Há uma estética suja que conduz o espectador a compreensão de um ambiente decadente e excluído da modernização pela qual passava a cidade.

Ao analisar esses aspectos, pode-se estabelecer uma ponte com o romance O Cortiço (1890), de autoria do escritor maranhense Aluísio Azevedo, uma das obras mais populares da literatura brasileira, sendo considerado o grande marco da estética naturalista no país. Os principais trabalhos sobre o livro apontam os aspectos deterministas da obra, ressaltando a degeneração da população brasileira oriunda da mestiçagem.

Aprofundando o olhar, é possível apontar algumas questões relativas às experiências populares na cidade em fins do século XIX, conferindo novos sentidos às experiências vivenciadas na cidade. O autor do livro aponta para a autonomia e liberdade experimentadas no cortiço, fortalecendo mais uma vez a sua ideia de coletividade. Assim como faz Aïnouz ao demonstrar o estabelecimento das relações de Madame Satã/João com Laurita, Tabu e Amador.

Da mesma maneira, as relações, alianças e conflitos expostos em Madame Satã representam tentativas de inserção/construção de novos espaços sociais. Em um show no Danúbio Azul, antes de apresentar a canção Noite Cheia de Estrelas, Madame Satã pergunta a plateia: “responda minha Lapa querida: a vida é melhor quando a gente canta? É ou não é?”. Trata-se de um grito dos excluídos, uma tentativa de existência plena dentro de todas as limitações impostas.

foto3.jpg Cena do filme. Divulgação.

Dentro dessa perspectiva, é importante ressaltar o ambiente de violência estabelecido. Não se trata apenas da violência relacionada à miséria latente. Mas, sobretudo, as relações que se constituem. As relações com a polícia, perseguidora constante de João, representação do Estado, são sempre marcadas pelo conflito. Entretanto, mesmo as alianças têm como essência a brutalidade, como se percebe na cena próxima ao tanque em que João questiona Tabu sobre os afazeres do dia. Acrescente a isso a condição de João: homossexual, transformista e negro. A violência passa a incidir de maneira ainda maior. Não se trata aqui de vitimização ou de determinismos quaisquer. É importante perceber a violência como trato diário, mas principalmente, como estratégia de sobrevivência. Em sua vida, foram 29 processos e três homicídios, resultando em quase 30 anos de cadeia. Na diegese a violência é uma marca constante, potencializada por movimentos de câmera que reforçam a força dos atos, sobretudo com closes e o uso da câmera na mão em algumas cenas.

Assim, pode-se perceber a importância de Madame Satã como figura mítica da boemia carioca, mas também como parte do processo de construção da identidade dos setores excluídos, especial por sua capacidade de transformação e a rejeição a papéis únicos. Negro, usava sempre cabelos compridos e alisados. Homossexual, vestia-se de terno branco de linho e chapéu panamá, deixando claro sua face viril: “Eu sou bicha porque eu quero. E não deixo de ser homem por causa disso não”.

Dessa forma, Aïnouz mostra a explosão dessas tensões sociais e a relação, extremamente violenta, de dois mundos distintos. Em sua obra, revela-se a distância que separava cidade imaginada, concebida segundo um projeto das elites de controle e disciplina da população mais pobre, da cidade real, vivenciada cotidianamente pelas classes populares.


Rafael Cal

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