Rafael Cal

Vivo no Rio de Janeiro, sou professor e escrevo. Todo o resto deriva disso.

O dia em que eu não nasci

Em "O dia em que eu não nasci" (Das lied in mir, no original), do germano-israelense Florian Micoud Cossen, Maria é argentina e seus pais biológicos foram levados pela ditadura argentina. Ela, sequestrada pelo Estado, foi entregue a uma família alemã. Maria não fala uma palavra em espanhol, mas reconhece uma canção no aeroporto de Buenos Aires e mergulha num espiral de descobertas. O filme é uma jornada em busca da identidade.



Você acordou. Era um dia normal. Tudo perfeitamente igual ao que sempre foi. Tomou banho e foi escovar os dentes. Olhou fundo no espelho e, pela primeira vez, pensou que não se parecia em nada com seus pais. Pensou nas fotos de infância e pensou que nunca viu uma do seu parto ou dos dias seguintes a ele. Não adiantou seus pais explicarem que o mundo era diferente e não havia máquinas digitais, celulares com câmeras ou algo do tipo. Dúvida?

De uma maneira ou outra, todo mundo já passou por isso. Pode até ser que tenha sido apenas por 15 segundos. Essa problematização pode ser explica por algum psicanalista amador ou similar de plantão por aí.

Agora, imagine que você nunca contestou nada disso, essa nunca foi uma questão relevante na sua vida. Até uma espera por uma conexão, em um aeroporto argentino. Cadenciadamente, os versos de uma canção de ninar vão tomando seus ouvidos. Algo comum, não fosse um detalhe: você é uma alemã e a música é cantada por uma argentina. Ela não sabe uma palavra do seu idioma e nem você do dela. Como podem aquelas palavras estarem tão impregnadas em sua mente e te tocarem tão profundamente? A partir daí, é uma explosão de sentimentos, sem nenhuma possibilidade de controle.

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É dessa forma que toma a tela o excelente "O dia em que eu não nasci" (Das lied in mir, no original), do germano-israelense Florian Micoud Cossen. Você é Maria Falkenmeyer (Jessica Schwarz): trinta e poucos anos e uma vida perfeita, até aquele momento. Depois de uma inexplicável crise de choro ao ouvir a argentina cantando para seu filho, Maria perde o voo, os documentos e tem que ficar em Buenos Aires. Liga, então, para seu pai e deixa um recado na secretária eletrônica. A reação que nós, público, assistimos de Anton Falkenmeyer (Michael Gwisdek) é reveladora. Ela ainda não sabe, mas nós sabemos que há alguma coisa muito ameaçadora na lembrança de Maria em Buenos Aires. Ainda, pois Anton rapidamente chega à Argentina para resolver toda a situação e despachar Maria de lá.

Diante da insistência da filha, acaba por revelar sua adoção: Maria é argentina e seus pais biológicos foram levados pela ditadura argentina. Cossen nos conduz, então, como parceiros de Maria em sua jornada para recuperar seus documentos e sua identidade. Isso é sem dúvida o que há de melhor no filme: quem de fato ela é? O que foi até aquele momento ou o que não foi e poderia ter sido?

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Dúvidas, dúvidas, dúvidas. Nada se encerra, exceto a busca por sua família argentina, tio e tia, que havia procurado por ela sem sucesso. Pai e mãe nunca apareceram. Foram vítimas da ditadura argentina, que comandou o país entre 1976 e 1983. Nesse período foram cerca de 30.000 mortos ou desaparecidos. Esse número se refere apenas a questões políticas. Nada de acidentes, crimes comuns ou doenças terminais. É como imaginar que alguém morre ou desaparece a cada duas horas. É triste e cruel. É uma ferida aberta, em uma sociedade que permanece em processo de expurgação de seus demônios. Em tempos de Comissão da Verdade aqui no Brasil, nossos vizinhos parecem muito mais adiante nesse debate. Isso, pois há ainda bastante resistência a qualquer analise ou investigação sobre a ditadura civil-militar brasileira, temendo revanchismos. É, porém, Maria quem melhor responde a essa questão quando, dirigindo-se ao pai que quer evitar qualquer contato dela com seus parentes argentinos, diz: “Eles tem o direito de saber”.

O sequestro de crianças, filhos e filhas de opositores do regime, tornou-se prática comum. As Avós da Praça de Maio seguem, ainda hoje, sua busca. A Maria de Cossen encontra sua família mais rapidamente, o que não faz, de maneira alguma, diminuir o valor da obra. A nova-velha família de Maria a todo tempo pergunta: lembra?. Ela não fala uma palavra uma palavra em espanhol, está no escuro. Como o passado. Seu e da Argentina. Outras questões, novas dúvidas, surgem no decorrer da jornada: a burocracia do Estado, um romance com um policial (que acaba sendo a ponte entre Maria e o mundo que se apresenta, por ser o único na história a falar espanhol e alemão), o sentimento de vingança da família argentina em relação a Anton. Entretanto, a necessidade latente de Maria (re)construir sua identidade está o tempo todo gritando na tela.

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Dessa forma, O dia em que eu não nasci se apresenta. É corajoso e é tem qualidade de sobra. Tira os olhos da Recoleta e joga sobre as paredes velhas e sujas de um quarto de hotel barato. Ao interferir no espaço da memória, o filme aproxima-se das manifestações coletivas, dos manifestos políticos, das performances poéticas. Assim, o cinema ultrapassa os limites da sala de exibição e se converte em um meio de reflexão das relações entre sujeito e a realidade, sem deixar de ser um programa de entretenimento.

Rafael Cal

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