burro de ouro

Derrisão, apoteose e antiguidades.

Alex Sugamosto

Alex Sugamosto é compositor e fã de Grateful Dead. Estudioso dos arcanos, é o último descendente de Hermes Trismegisto.

A música brasileira em 1977

A Copa do Mundo, grande atração do país em 2014, também descortinou um lado triste do país: esquecemos nossas qualidades musicais. Nos estádios, nas vinhetas e na festa da abertura, a pasteurização e a falta de criatividade dão o tom.
Mas nem tudo está perdido: aqui estão três discos de música brasileira, todos lançados em 1977, que podem renovar nossas esperanças musicais...


Décadas, eras e safras. Nas constantes renovações e ciclos da música, algumas épocas ganham destaque pela qualidade excepcional dos lançamentos e pela genialidade dos artistas. 1973 foi o ano dos melhores discos de rock do mundo e 1977 parece ter sido frutífero na seara nacional. Trago aqui três discos que exemplificam a minha idéia:

1) Orós - Fagner

Esqueça aquele cantor fanhoso e um pouco esquisito das 'Borbulhas de Amor': em 1977, Raimundo Fagner lançou um dos melhores discos de que se tem notícia na música nacional. Para termos uma idéia do calibre desse trabalho, basta dizer que Orós foi arranjado por ninguém menos que Hermeto Pascoal e contou com participações especiais de Robertinho do Recife e Dominguinhos! Outro destaque do disco é a qualidade das composições. Em tempos de urros, onomatopéias e canções monossilábicas, recebemos o alento poético de um Fagner que, inspirado e lembrando a lírica lusa, canta:

"Jogue os meus olhos no azul do céu Jogue os meus dedos no clarão do mar Jogue os meus cabelos na flor deste mar E eu serei só música, espalharei nas cinzas

E ficarei mais leve pra cantar Serei feliz com a morte Que venha feito mansa Como vem mansa a última onda do mar"

2) Belchior - Coração Selvagem

Belchior talvez seja um dos maiores, e mais injustiçados, compositores brasileiros. Injustiçado porque seu nome, e o de muitos outros compositores talentosos, foi ofuscado pela geração tropicalista. Se Caetano Veloso, Gil e Tom Zé tem lá os seus insights, Belchior é dono de obra consistente e de letras marcados pelo realismo sem moderação. Muito antes de David Lynch, o compositor cearense já sabia que:

'O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza E arriscar tudo de novo com paixão Andar caminho errado pela simples alegria de ser Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo , vem morrer comigo'

Um disco para ser ouvido, sempre e novamente, sem restrições.

3) Alceu Valença - Espelho Cristalino

Outro autor consagrado nos 'videokês' e rodinhas de violão com os clássicos 'Morena Tropicana' e 'Anunciação', Alceu Valença era- em 1977- um sujeito musicalmente refinado. O álbum 'Espelho Cristalino' é marcado pela fusão dos ritmos e tônicas da poesia popular com arranjos de sonoridade moderna. 'Agalopado', por exemplo, é uma canção escrita com a métrica do 'martelo', modelo consagrado na poesia popular e na literatura de cordel. A faixa título, por sua vez, é um psicodélico 'crescendo' instrumental arrematado pelo refrão:

'mas eu tenho meu espelho cristalino que uma baiana me mandou de maceió ele tem uma luz que alumia ao meio-dia clareia a luz do sol'

Alceu Valença - Espelho Cristalino


Alex Sugamosto

Alex Sugamosto é compositor e fã de Grateful Dead. Estudioso dos arcanos, é o último descendente de Hermes Trismegisto. .
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