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Valter Geronimo Camilo Junior

Co-fundador e idealizador do Puta Letra. Graduando em Direito. Redator freelancer. Sempre incisivo.

Sobre o Agnosticismo

Fernando Pessoa, em uma de suas incursões filosóficas, diz que o raciocínio não possui limites, de onde conclui que o agnosticismo, na sua forma pura, ao tentar estabelecer limites para o conhecimento, não é passível de existência.(1)


Carlos Ruas.jpg Carlos Ruas (Um Sábado Qualquer)

A expressão agnosticismo constitui-se, etimologicamente, de uma derivação da palavra grega agnostos, que por sua vez pode ser reduzida em a (prefixo de negação) e gnostos (conhecimento). O termo foi cunhado pelo biólogo e pensador Thomas Henry Huxley, no ano de 1869 e debatido em sua obra Agnosticismo, datada do mesmo ano.(2)

Huxley acreditava que a questão principal que envolvia a ciência e o conhecimento em geral não estava vinculada ao questionamento sobre a existência de um deus, mas na capacidade humana de determinar essa existência. Tanto que vai tratar como impertinentes e infundados os argumentos que excluem a possibilidade de forças superiores ao homem, em sua pequenez – crítica ao ateísmo, por conseguinte.

Mas, nas palavras de Huxley, “se a evidência de que algo pode existir fosse equivalente à prova de que ele existe, a analogia bem poderia justificar a construção de uma teologia e demonologia naturalistas não menos maravilhosas do que a corrente sobrenatural, bem como a povoar Marte e Júpiter com formas de vida sem paralelo [...]”. Logo a seguir pondera que “a confissão agnóstica [...] surge como a única opção possível para pessoas que se recusam a dizer que sabem aquilo que estão bem cientes de que não sabem”.(3)

Hoje entende-se que, apesar de o termo agnosticismo ter nascido com Huxley, suas bases teóricas remontam à Kant, ao elaborar a sua crítica à razão pura.(4) Atualmente não pode ser confundido com práticas religiosas, nem é exercido de forma centralizada, podendo se verificar em diversas esferas e de formas diferentes, existindo entre elas o agnosticismo prático e o metodológico.

Richard Dawkins, biólogo, pensador e escritor britânico, elabora, em uma de suas obras, uma escala que classifica os indivíduos segundo a maior ou menor crença em deus. O agnóstico se coloca exatamente ao centro dessa escala: não nega a existência de um transcendental, mas se recusa a cometer a imprudência de declarar o contrário, ou seja, a existência.(5)

Daí decorre os ataques frequentes por parte dos teístas, principalmente os cristãos, que operam uma aproximação dos agnósticos com os ateístas. Uma situação hipotética que eu elaborei mostra bem essa situação: sabe-se que atrás de uma parede pode existir alguma coisa, da qual nada se sabe, nem mesmo se essa coisa se verifica; pela escala de Darwkins o teísta irá defender, em maior ou menor grau, a existência da coisa; o ateu, ao contrário, argumentará pela inexistência; o agnóstico – e perceba que não existe aproximação com o ateu – vai dizer que “atrás da parede existe o que está atrás da parede”, ou seja, vai reconhecer a sua incapacidade de conhecer o que existe, não proferindo argumentos a respeito.

1 PESSOA, Fernando. Textos Filosóficos. Vol. I. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993): 128. 2 HUXLEY, Thomas Henry. Agnosticism (Agnosticismo). 1889. 3 HUXLEY, T. H. O Natural e o Sobrenatural. In: Escritos sobre ciência e religião. São Paulo: Editora UNESP, 2009. p. 107-109. 4 KANT, I. 1994: Crítica da Razão Pura. Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa. Terceira edição. 5 Dawkins, Richard; Deus, um delírio, Editora Companhia das Letras, págs. 62 e 63.


Valter Geronimo Camilo Junior

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