cadê o futuro

Não tenha pressa, logo, logo chega.

Valter Geronimo Camilo Junior

Co-fundador e idealizador do Puta Letra. Graduando em Direito. Redator freelancer. Sempre incisivo.

Novos escritores e um velho desafio: (sobre)viver da literatura.

Livros de qualidade estão por aí, mas bons leitores são cada vez mais raros. Se não for polêmica, não vende. Pondé que não me deixa mentir.


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Um novo escritor encontra grandes desafios e poucos incentivos: desde a elaboração do livro até a sua publicação, nada é fácil. Começando pelas escolas, que não desenvolvem as potencialidades individuais, homogeneizando e condicionando os alunos a uma lógica de mercado. Docilidade política e utilidade econômica, já nos dizia Foucault. Novos escritores não conseguem vender. E, se não vendem, não conseguem atingir um número maior de pessoas.

Existe uma exceção, é claro. Polémicas vendem muito bem. Luiz Felipe Pondé é um grande exemplo disso. Mas não é o nosso caso, estamos falando de autores com boas ideias, mas limitados pela própria conjectura social. Livros de qualidade estão por aí – e aqui não estou fazendo nenhum juízo de valor em relação às obras do Pondé, longe disso – mas bons leitores são cada vez mais raros.

Tá, você tem a ideia, escreve o livro. E agora? Fácil, procurar uma editora séria que acolha o seu manuscrito e publique a obra. Errado. O caminho é esse, mas não tem lugar para otimismo no mundo real. Não comercial, pouco atrativo, fora da nossa linha editorial ou simplesmente um “não”. Então os escritores começam a perceber que, no mercado, você é só mais um vendedor. Só que o conteúdo dos livros está acima de qualquer preço. Ele nos apresenta a mundos diferentes, distorções, variações, ou simplesmente nos informa sobre os fatos, sobre o passado. O conteúdo. O livro, aquele conjunto de folhas numeradas, manchadas de tinta, tem um custo. E é com isso que o mercado se importa.

Pensando nesse novo nicho comercial, não sei até quando os bons escritores conseguirão ter voz, quer dizer, palavras. Por enquanto, fico esperançoso quando ouço novas ideias, vejo novos escritores conseguindo, com esforço, algum espaço. E aqui temos um bom exemplo disso. Uma Canção para a Libélula, livro que será publicado em breve pela Editora Deuses, escrito por Juliana Daglio, é uma dessas cartas em que a gente deposita confiança. E torcemos para que ela vença. E sim, devemos torcer pelos escritores com o mesmo entusiasmo com que torcemos pela seleção brasileira – não somos o país do futebol?. Queria que fôssemos o país dos livros. Seria mais divertido. Sem delongas, apresento uma entrevista que fiz com a Juliana. Uma delícia, por sinal (a entrevista).

Valter (Cadê o Futuro): Você sempre gostou de escrever ou essa vontade foi adquirida?

Juliana: Minha vontade de escrever começou muito cedo. Primeiramente eu sempre fui uma leitora, começando por contos de fadas, e logo comecei a pensar em histórias diferentes, inventar personagens e até conversava com eles. Minha mãe achava estranho eu ter tantos amigos imaginários, ainda mais com nomes tão mirabolantes (eu os inventava também). Até que aos oito anos eu resolvi que escreveria um livro. Foi uma saga e tanto (risos)! Encapei um caderno, fiz o titulo com recortes de revistas e comecei a escrever. Chamava-se “A princesa Caroline”. Minha primeira criação literária se perdeu numa mudança, mas meu desejo não. Aos treze anos ganhei um concurso de poesia, comecei a escrever minhas histórias em agendas, às vezes contava para meu irmão e meu primo antes de dormir e eles diziam que adoravam. Mas foi só aos dezenove anos que eu decidi que ia fazer de uma vez. Assim nasceu o primeiro manuscrito de “Uma Canção para a Libélula”.

Valter (Cadê o Futuro): Conte-nos sobre o seu processo criativo e um pouco sobre o seu livro Uma canção para a libélula.

Juliana: Acredito que meu processo criativo com esse livro tenha começado muito cedo. Minha fixação pela libélula nasceu na infância, quando eu colecionava figurinhas e sempre vinha uma repetida da libélula. Eu guardava todas elas, pois já tinha notado o inseto antes e o considerava amedrontador e lindo ao mesmo tempo. Na adolescência a libélula passou a simbolizar minha fuga, onde eu me projetava em tudo que queria ser. Dizia que queria ser Libélula. Quando o livro começou, minha idéia partiu de um sonho que tive a respeito de uma garota presa numa casa, da qual só poderia sair se seguisse as instruções de um homem estranho que veio para ajudá-la. Esse sonho foi ganhando mais formas quando eu acordei, foi adquirindo personagens, cenários, enredo. A libélula foi o toque final.

Uma Canção para a Libélula é a história de uma garota atormentada por traumas do passado que busca uma saída para um dor que não sabe nomear. A libélula é um símbolo, uma guia interior, pois quando era só uma criança essa garota encontrou numa inocente libélula uma fonte de inspiração para criar uma canção. Mas não, a garota do livro não sou eu, apesar de ela ter isso em comum comigo.

Valter (Cadê o Futuro): O que os leitores podem esperar da sua obra?

Juliana: Acho que eles podem esperar principalmente reflexão. O livro não uma obra fantástica, e sim de cunho realístico. O tema principal é a depressão, uma doença que tem afetado tantas pessoas, interferido em suas relações, na sua dinâmica familiar e principalmente – tem destruído vidas. Sinto que muitas vezes a depressão não é compreendida pelos que estão ao redor, e com essa obra busco, além de outras reflexões, mostrar como a alma de alguém pode ser destruída por esse transtorno.

Posso garantir uma viagem pela mente da personagem na qual os leitores vão encontrar muita identificação, emoção e motivação para superar os próprios fantasmas do passado. É o que eu espero.

Valter (Cadê o Futuro): E quanto à leitura, quais os seus livros e estilos favoritos?

Juliana: Eu leio tudo! Desde clássicos até livros mais contemporâneos. Sagas, romances, suspenses... Tem mesmo de tudo um pouco na minha estante, mas sempre tem os favoritos.

Meu livro favorito é “A Menina que Roubava Livros”. Nunca encontrei uma obra que tocasse minha alma como Markus Zusak tocou. Embora, haja outro autor em especial que para mim é um dos mestres da atualidade: Carlos Ruíz Zafón. Ele é minha inspiração. Não consigo encontrar um gênero para encaixar suas obras, pois ele consegue ser como um gênero em si. Sou apaixonada pela forma como Zafón consegue misturar fantasia e realidade numa só obra.

Para mim Zafón deveria ser um elogio. Do tipo: nossa, mas sua obra está tão Zafón nessa parte!

Além de Zafón e Zusak, preciso destacar o autor que foi minha base, meu alicerce: Machado de Assis. Desde a escola as obras desse autor têm sido um norte tanto para meus estudos, como para minha construção pessoal. Acredito que nenhum outro autor se compare a ele, às obrar que escreveu e que temos como orgulho em nosso patrimônio literário. Quem nunca dormiu imaginando os olhos da Capitu, ou se pegou formulando teorias à respeito do desfecho de Dom Casmurro? É isso que o faz eterno. É isso que faz de um autor um imortal.

Eu torço por ela. Que essa libélula voe para os quatro cantos.


Valter Geronimo Camilo Junior

Co-fundador e idealizador do Puta Letra. Graduando em Direito. Redator freelancer. Sempre incisivo..
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