cadê o futuro

Não tenha pressa, logo, logo chega.

Valter Geronimo Camilo Junior

Co-fundador e idealizador do Puta Letra. Graduando em Direito. Redator freelancer. Sempre incisivo.

A violência como lugar comum

A violência observada nos movimentos sociais, essa luta entre os manifestantes e as autoridades públicas, é reflexo da necessidade de mudança. É a própria dialética em sua forma mais crua.


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Você provavelmente já ouviu alguém comentando sobre as manifestações de junho ou os atos recentes contra a Copa e a violência inerente a esses eventos. Alguém diz: “tudo bem as minorias se manifestarem, afinal de contas isto é uma democracia, mas é absurdo se valerem da violência como forma de atingirem seus ideais”. E explica que a democracia — esse sistema de governo milagroso e infalível — contém mecanismos capazes de atender as demandas sociais, seja através das eleições periódicas, da participação popular nas tomadas de decisão etc.

Em primeiro lugar quero atentar para a expressão minoria, que é utilizada essencialmente, e propositadamente, em seu sentido qualitativo. Em alguns casos usa-se a expressão “minorias”, como um conjunto desses pequenos e desarticulados grupos sociais, representado pelos negros, mulheres, índios, idosos, deficientes e outros tantos. Esses indivíduos, reunidos em um único agrupamento, representa, na verdade, a maioria quantitativa da população.

Uma maioria convertida em minoria através do desagrupamento. Mas os processos de revolução social estão derrubando essas barreiras impostas pela ordem vigente — e a internet é um grande motor dessa interligação entre os pequenos grupos. Na rua, lugar onde o contato se estabelece de forma mais evidente, todos conservam a sua individualidade, mas preservam também um sentimento de coletividade, de pertencimento a uma causa.

E o que é a violência de que falam esses críticos dos movimentos urbanos, se não a transgressão caótica dessas barreiras sociais? A violência observada nos movimentos sociais, essa luta entre os manifestantes e as autoridades públicas, é reflexo da necessidade de mudança. É a própria dialética em sua forma mais crua.

Esses defensores da paz pública, da estabilidade das relações comerciais, estão alinhados a uma ordem. Uma ordem que classifica como violência toda e qualquer manifestação capaz de tornar as relações humanas caóticas. E isso é bem simples de se entender. Quando estamos acostumados a uma ideia apenas outra ideia, diametralmente oposta, é capaz de nos retirar da nossa zona de conforto. O caos é capaz de fazer isso.

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O Estado se coloca como defensor da estabilidade e responde imediatamente a qualquer alteração no “clima” social — tomemos como exemplo a recente greve dos metroviários. Então, quando algum espertinho criticar a violência dos movimentos urbanos, das greves e das manifestações anti-copa e anti-fifa, pergunte-o sobre o que é a violência e, principalmente, de onde parte essa violência.

Pergunte-o se a violência simbólica exercida pelo Estado e pela polícia, e também a violência física, são aceitáveis. E de que modo, visto a precariedade da nossa democracia, é possível operar mudanças substanciais, se não pela transgressão dos valores impostos. Se ele se mantiver irredutível (ele provavelmente levantará argumentos falaciosos, como a competência e a igualdade formal), desista.

Algumas pessoas simplesmente se recusam a compreender a gravidade do problema em que se meteram. E você não tem responsabilidade nenhuma para com essas pessoas. As mudanças devem ocorrer, independente de um consenso global sobre a matéria.

Tome cuidado com proposições universais.


Valter Geronimo Camilo Junior

Co-fundador e idealizador do Puta Letra. Graduando em Direito. Redator freelancer. Sempre incisivo..
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