cadê o futuro

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Valter Geronimo Camilo Junior

Co-fundador e idealizador do Puta Letra. Graduando em Direito. Redator freelancer. Sempre incisivo.

Suicídio Filosófico

Que os homens carecem de alguma explicação sobre o mundo parece uma máxima indiscutível. Significados, propósitos e consequências. E é dessa necessidade quase que incompreensível, na medida em que frustra seus próprios objetivos permanentemente, que surge o absurdo do homem, ou o homem absurdo, como assevera Albert Camus.


falling_man_luke_jerram.jpg Jerram prestando homenagem ao "homem em queda"

Se aceitarmos que ao homem foi negado o conhecimento completo sobre si, estamos apontando indutivamente para uma realidade na qual, inicialmente, o homem não exista. Ele surge, trazendo consigo o problema mais geral – matéria tão frágil que não pode ser simplificada neste ensaio. E do problema geral, os particulares, tanto mais complexos do que o original.

Fica desde o nascimento confuso, perdido entre o mundo sensível que o cerca e a sua razão, que também não se conhece bem a ponto de ter dela uma imagem clara, livre de questionamentos. A princípio pondera a hipótese da existência de alguma outra criatura, infinitamente superior, e determina o que é esperado de um ser que detém o máximo poder sobre todas as coisas.

Depois de algum tempo em sua empreitada percebe que não há sentido evidente, nem mesmo qualquer coerência entre a crença em um ser superior e o mundo que se lhe apresenta. Nesse momento muitos cometem o suicídio religioso, aqui definido como a aceitação racional da irracionalidade. A crença não aparece como um mecanismo capaz de fazer a ligação entre o homem e mundo, muito menos de resolver os problemas que o inquietam. Porém – e isso é realmente importante para compreendermos o que leva o homem ao suicídio consciente – a crença em si liberta.

Inicialmente disposto a enveredar no campo do desconhecido, irredutível às respostas infundadas, o homem encontra na religião e na crença uma barreira intransponível. Ele sabe que além dela existe ainda um longo percurso, talvez infinito, mas se contenta com a esperança de estar finalmente certo. Ele se desobriga para com a verdade e reconhece que não é capaz de continuar, ou pelo menos admite que seguir em frente é tão inútil quanto parar.

O suicídio religioso é a desistência prematura. É o homem absurdo que, pouco depois de se descobrir, se entrega a um dos lados da questão: ao mundo ou aos deuses. Pois não é apenas a religião que provoca tal efeito. Os materialistas se doam amplamente ao mundo terreno, pois levantam a hipótese de que além da barreira encontrada pelo caminho nada existe, ou se existe não é importante a ponto de que insistam na jornada.

Ou seja, existe uma separação entre o homem, o mundo e os deuses (considerando esses últimos como a extrema realização de todas as coisas). A religião, bem como os posicionamentos materialistas, garante ao homem uma ligação entre os três pilares de sua existência.

Não me interessa esse tipo de suicídio. Meus esforços se concentram unicamente no suicídio filosófico, intentado por seres um pouco mais sérios em suas atividades intelectuais. Não se trata de juízos de valor, mas, sobretudo, de uma análise formal dos objetivos propostos por cada ser humano, dos métodos utilizados para se alcançar esses objetivos e a conclusão que cada um toma para si no momento em que a jornada se torna impossível.

Tem-se por suicídio filosófico*a negação racional à razão, quase na mesma medida em que o faz os religiosos e materialistas. Talvez a única distinção seja que o filósofo cometa o suicídio amplamente realizado com as suas experiências, lamentando apenas não ter tempo suficiente para continuar em seu quebra-cabeça. Ele enche o coração de esperança, não por que acredita que seus esforços são infrutíferos, mas por que está cansado de sua jornada e precisa se aliviar um pouco antes de partir. Essa poderia ser uma boa desculpa para o suicídio, se não fosse tão simplista e cômoda. Não seria honesto.

O pensador, depois de abandonar as concepções infundadas, conserva as mesmas certezas que tinha ao início da jornada: sabe que está em um conflito permanente entre o seu Eu, o mundo que conhece e os deuses que imagina. Por que motivo decide por abandonar esses pilares e toma para si alguma esperança?**

*Todos esses conceitos, embora encontrem respaldo em grandes obras científicas e filosóficas, são unicamente experimentais e refletem as concepções do autor. **Esse ensaio carece de uma continuação. Desafio qualquer um a tentar costurar depois dessa pergunta uma resposta. Aquele que obtiver êxito estará acima de qualquer contradição, de qualquer incoerência. Terá sido capaz de superar o meu suicídio.


Valter Geronimo Camilo Junior

Co-fundador e idealizador do Puta Letra. Graduando em Direito. Redator freelancer. Sempre incisivo..
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