caetanese

coração pra cima escrito embaixo: frágil.

Nara Gonçalves

Já toquei blog com nome de música dos Los Hermanos, pergunto o signo para puxar assunto e feminismo pra mim não é palavrão. Gosto do bom e velho Charlie Brown, literatura latina e assisto filmes de terror numa boa. Com a luz acesa, claro.

devagar e urgentemente: as mulheres na música de Chico Buarque

O olhar apurado do compositor Chico Buarque sobre o universo feminino e suas diversas ligações ao longo da vida o tornaram um tradutor dos mais variados tipos de meninas, moças e mulheres. Santas, impiedosas, amantes ou maternais, estas são algumas das características associadas aos perfis traçados nas canções e livros do artista, o maior (e mais perfeito) prestador de homenagens às mulheres da música popular brasileira.


chico.jpg

O início

Nascido em uma família de intelectuais cariocas, Chico Buarque teve sua infância rodeada pelos mais respeitados artistas brasileiros das décadas de 40 e 50. Demonstrava interesse pela música já aos cinco anos de idade, mas apenas nos anos 1960 iniciou-se no universo musical. Além da marca política em suas canções, reflexo das transformações sociais que presenciou no Brasil na década de 70, marcado pela ditadura militar. Chico Buarque demonstrava interesse particular por composições dominadas pelo eu lírico feminino, e compunha letras como se pudesse observar o interior da mente de uma mulher com um olho mágico e traduzi-la em versos marcantes, sucesso de público e crítica.

A mulher do operário

A consciência política aliada ao rigor com que compunha, marcaram letras como “Pedro Pedreiro”, “Construção” e “Cotidiano”, reconhecidas pela fineza com que retratou uma classe esquecida pelas grandes cidades das quais faziam parte, com delicada atenção à mulher do operário que se faz presente na rotina de milhões de brasileiros. A mesa posta no café da manhã, a educação dos filhos, o cuidado maternal da companheira são as marcas desta típica brasileira, encurralada pelas mazelas sociais que não escaparam aos olhos nem a genialidade do compositor carioca.

As amantes tristes

Carolina, que ‘não viu o tempo passar na janela’ é um clássico na discografia do compositor pela destreza na descrição de um coração partido, típico da adolescência, motivado pela memória do amor que não finda. A mesma amante triste é explorada na famosa “Olhos Nos Olhos”, canção que foi regravada na voz de Maria Bethânia, onde o desejo de se reconstruir após o fim do afeto é nítido e significaria uma revanche feminina, após uma perda amorosa. Ora esposas tradicionais, esperando seus maridos em casa com “seu doce predileto” como descreve na letra de “Com Açúcar, com Afeto”, que ganhou tons na voz de Nara Leão, com o cuidado e ciúme típico. Ora do outro lado da moeda sentimental, no papel de quem parte e não é partida, como a Maria que foi escrita pra não se lembrar.

A jovem

“Mas o tempo vai, mas o tempo vem” e parece não passar para as moça da canção “Ela tá diferente”, que pisava nos anseios do admirador-cantor. Independente e desdenhosa, construída com uma das identidades que o autor interpretava. A letra sobre o caso amoroso cai bem com as primeiras dores de paixonites juvenis não recíprocas. E quando menos se espera, “Bárbara” toma conta dos ouvidos atentos e expõe com delicadeza a fragilidade das paixões no universo feminino. As mulheres de Chico desatinam. Fazem cinema. Sambam. Vivem em Amsterdam ou em Atenas. Sempre levando um sorriso ou despertando um vestido com cheiro de guardado, seu grande feito é rejuvenescer no seu trato fino em cada toque da agulha no vinil e no sabor do moderno aparelho eletrônico. Mulheres para se amar devagar. Ou urgentemente.


Nara Gonçalves

Já toquei blog com nome de música dos Los Hermanos, pergunto o signo para puxar assunto e feminismo pra mim não é palavrão. Gosto do bom e velho Charlie Brown, literatura latina e assisto filmes de terror numa boa. Com a luz acesa, claro..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// //Nara Gonçalves