caetanese

coração pra cima escrito embaixo: frágil.

Nara Gonçalves

Já toquei blog com nome de música dos Los Hermanos, pergunto o signo para puxar assunto e feminismo pra mim não é palavrão. Gosto do bom e velho Charlie Brown, literatura latina e assisto filmes de terror numa boa. Com a luz acesa, claro.

conto: amarillo

ensaio sobre uma garota e seu casaco da cor dos girassóis de Van Gogh.


girassc3b3is-van_gogh.jpg "Girassóis" de Vincent Van Gogh Meu coração parou duas vezes durante minha vida. Em 1992, durante uma má transição do fluxo na corrente sanguínea. Corpo hedonista e cardiologista disputaram palmo a palmo meu miocárdio: enfartei. A primeira pausa ocorreu quase trinta anos antes em Santiago do Chile, quando vi Maga. Lembro-me de seus olhos tremeram e baixaram antes de se postarem frente aos meus. Recompuseram-se rapidamente, um costume magnífico que tardei a dominar.

Magali vestia um casaqueto amarillo, a palavra que os espanhóis usam para nomear a cor que vibrava como o sol. Firme, solene, e encurralada por duas tias velhas, na missa dominical. Devíamos ter nossos dezesseis, dezessete anos, e, apesar de minhas tendências religiosas terem sido consumidas durante a estadia no acampamento dos padres, freqüentava a paróquia.

Debrucei-me no banco de cimento. O peito me escapara um pouco: nunca tinha avistado garota tão singular na brevidade dos meus dias. As cores dos cabelos de Maga beijavam o mundo quando soltos. As bochechas coradas, sem pó de maquilagem, e seu nariz reto em nada surpreendiam, em nada completavam-se. A estética vinha de dentro. Desabrochava na superfície amarela do casaco, feito a lenda da flor amazônica sobre os lagos indígenas.

Despi-me de minha rotina. Segui-a por todos os cantos nas férias de 1963. Saberia enumerar com precisão suas frutas preferidas nas feiras de rua. Abacaxi, tangerina e uvas. Quantas vezes visitara Paulina, a vizinha da avenida paralela à minha casa. 12. Decorei cada nota de rock que saía de seu quarto. Love, Love me do.You know I Love you. Tomei-a para mim.

Aquele domingo e os conseqüentes trataram de adequar-se a minha educação sentimental. O nome terminado em “o” certamente fora a primeira sacada irônica do destino sobre mim. Nada tenho do Romeu shakespeariano, minha abuelita acertou em cheio com a customização. Romeo, um nome que Maga nunca pronunciou.

O “meu” romance findou logo o pai Capuleto notara-me rondando a vizinhança. Cerrou as janelas da casa, obrigou as irmãs carolas a substituírem a igreja do bairro por uma do outro lado da cidade. Já eu precisava voltar ao Rio para prestar Direito. Nunca deixei-me perder a paróquia nem o casaco amarillo. Não esqueci a chica.

Maga foi meu primeiro caso de observação amorosa.


Nara Gonçalves

Já toquei blog com nome de música dos Los Hermanos, pergunto o signo para puxar assunto e feminismo pra mim não é palavrão. Gosto do bom e velho Charlie Brown, literatura latina e assisto filmes de terror numa boa. Com a luz acesa, claro..
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