caetanese

coração pra cima escrito embaixo: frágil.

Nara Gonçalves

Já toquei blog com nome de música dos Los Hermanos, pergunto o signo para puxar assunto e feminismo pra mim não é palavrão. Gosto do bom e velho Charlie Brown, literatura latina e assisto filmes de terror numa boa. Com a luz acesa, claro.

“Aceite seu Corpo”: Negahamburguer, estética e diversidade

Em meio a um padrão estético opressor pregado pela mídia e publicidade, onde o que é dito ideal é inalcançável, o trabalho de Negahamburguer, personagem da artista Evelyn Queiróz, propõe através de suas ilustrações e intervenções que a beleza existe quando se é diversa e real.


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Padrão de quem?

A aceitação do próprio corpo e de sua singularidade é um processo doloroso para a maioria de nós mulheres e pode levar uma vida toda para se concretizar. Isso se deve em parte ao repúdio que criamos pela nossa aparência. Nos sentimos desconfortáveis em nossa própria pele. Como se algo estivesse sobrando ou faltando em nossa existência.

Esse processo longo é, na maioria das vezes, minado por uma sociedade que nos diz qual é o tipo de corpo que irá impressionar os homens, o penteado certo para nos trazer o emprego dos sonhos ou como chegar ao tamanho ideal de jeans 36 ou 38. A fusão destas imposições com nossas cobranças nos tornam rígidas com relação a nós mesmas, nos cercando de limitações e barreiras internas que acabam se tornando intransponíveis.

Lugares comuns como “Estou gorda”, “Só vou na praia se emagrecer”, “Sou magra demais”, “Queria ter o cabelo liso” entre outras doses de autodestruição e são uma constante no dia a dia de quem sofre com estes padrões de estética irrealizáveis até mesmo para quem os impõe, uma vez que a publicidade e a imprensa, principalmente a feminina, se vale do uso de programas de design para “melhorar” suas modelos e torná-las impecáveis.

Nos tornamos algozes e vítimas do nosso intenso diálogo interno que reproduz os estereótipos e regras de uma indústria da moda e mídia esquizofrênicas que permite poucas adaptações e variedades. Inconformada diante deste mito que é o conceito de beleza na atualidade, surgiu o projeto “Beleza Real”, idealizado por Evelyn Queiroz e que recentemente, ganhou a mídia e deu fôlego a diversas garotas país a fora que também não se contentavam com a ideia da existência de um tipo de padrão.

Negahamburguer, ilustrações e uma proposta da real beleza

Através da personagem Negahamburguer, Evelyn transforma as inquietações sobre o corpo feminino, sexualidade e comportamento em aquarelas sensíveis e intensas, afirmando toda a força da sua criação nesse processo de aceitação.

Seu trabalho é direcionado para todas aquelas que sofreram algum tipo de discriminação por serem altas, brancas, magras, baixas, gordas, loiras, morenas, com sardas, com estrias, celulites, por terem pernas longas, pernas curtas, ou por simplesmente serem do gênero feminino. As ilustrações e intervenções urbanas são feitas a partir de relatos reais de mulheres que acompanham seu trabalho pela página no Facebook ou pelo seu Blog.

Assim nasceu o projeto “Beleza Real”, que a artista vem alimentando há quatro anos, essencial para essa desconstrução do conceito de padrões que massacram a nossa cultura ocidental, intensificados com o nascimento da indústria dos cosméticos e tratamentos de beleza. Evelyn ganhou destaque por promover a democratização do conceito de beleza, uma luta diária, que ganhará um livro de ilustrações em 2014 através do site de financiamento coletivo Catarse.

Veja abaixo algumas das ilustrações e intervenções que compõem o universo artístico de Evelyn:

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Evelyn Queiróz posando entre um de seus grafites

Eu, estética

“Mas você é magrinha!”. Era o que ouvia quando reclamava dos tamanhos desajustados das roupas nas lojas, do exagerado Photoshop nas páginas das revistas femininas, ou quando falava pra um dos caras com quem saía que não me sentia bonita o suficiente. Suficiente pra quem? Pros fantasmas da insegurança que me rondavam, por ser baixinha, não usar maquiagem e ter o cabelo anelado.

Atualmente, acredito que estética vai além do peso que a balança aponta, do tipo de cabelo, ou do tamanho dos seios. Acredito veementemente que tem estética num sorriso aberto e nas linhas que se formam perto dos olhos. Tem estética nas curvas de todos os tamanhos. No P, no M, no GG, no XG, naquele sapato 38 que seu namorado desacredita que você usa.

Tem estética e tem beleza quando você se deixa levar pelo Maracatu no pátio da escola, numa roda de cerveja com os amigos no fim do dia, e até no princípio de barriguinha ou na barrigona onde você carrega uma nova história.

Tem estética nas pernas curtas e nas conversas longas. Tem estética porque tem gente, e se tem gente, tem cor, sotaque, tem diversidade, e o melhor: não tem padrão. Quando se fala em beleza, não existe um modelo ideal. Porque nós, seres humanos, somos plurais. E diversos. Em nossas culturas, línguas, preferências, jeitos, manias, corpos, cabelos. Em nossas estéticas.

O caminho para a transformação da autoimagem e aceitação é árduo, mas nunca deve se tornar cansativo. É um exercício cotidiano que nasce com o desejo intenso de que nós possamos nos cobrar menos e não nos punir por cada quilo ou celulite que ganhamos. Que possamos existir com coragem e por inteiro, sem preconceitos para cobrir nossa real beleza.


Nara Gonçalves

Já toquei blog com nome de música dos Los Hermanos, pergunto o signo para puxar assunto e feminismo pra mim não é palavrão. Gosto do bom e velho Charlie Brown, literatura latina e assisto filmes de terror numa boa. Com a luz acesa, claro..
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