café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

As simbologias das Revoluções Burguesas

As duas principais revoluções burguesas, a Revolução Inglesa (1640-1660) e a Revolução Francesa (1789-1799), foram acontecimentos irresistíveis que inovaram o cenário mundial em todos os aspectos: econômico, social, político e cultural.


delacroix-liberty1.jpg La Liberté guidant le peuple, DELACROIX (1830)

As revoluções já citadas inauguraram a História Moderna e também ofereceram ao restante do mundo ideologias e simbologias que foram incorporadas dentro e fora de seus respectivos países de origem – Inglaterra e França. O próprio conceito de revolução ganhou um novo sentido a partir dessas revoluções que não foram feitas intencionalmente, assim como a noção de história no tempo presente da época.

“Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram.” (MARX, 2011[1851]:25)

A Revolução Inglesa trouxe a base da Modernidade através da mudança do capitalismo mercantil (monarquia) para o capitalismo social (burguês) que mais tarde originaria o que vivemos atualmente: o capitalismo financeiro. A ideia de obter uma propriedade contaminou a classe média e a classe média alta graças às mudanças econômicas e a inflação causada principalmente pela alteração da produção artesanal para a produção em série, ou seja, um determinado número de pessoas passou a deter o poder econômico sob as produções mercantis, alavancando as diferenças sociais:

“(...) todas as mudanças sociais que estavam transformando a sociedade inglesa da época tinham por base a terra, sua posse e seu uso. A propriedade da terra, ainda a principal forma e fonte de riqueza, dava a quem a possuía prestigio social (status) e poder (político).” (FLORENZANO, 2010:70,71)

ilustracao-de-sapataria-na-epoca-da-revolucao-industrial-jornada-de-trabalho-de-mais-de-12-horas.jpg Ilustração de sapataria com jornada de mais de 12 horas - autor desconhecido

A sociedade inglesa passou nivelar seus habitantes da seguinte forma: os pares, que ocupavam o topo da hierarquia porque eram aristocratas da alta nobreza; o gentry, além de ser portador de status, carregava sangue nobre em sua origem e o gentlemen que era o proprietário de terra que havia iniciado sua vida comercial em outro ramo. Diferente dos plebeus, esses membros da hierarquia podiam comprar o direito de usar um brasão para se diferenciarem.

Essas ramificações burguesas, completamente interessadas em obter mais lucros e liberdade de produção de comércio, influenciaram totalmente na Revolução Inglesa. Isso somado aos movimentos religiosos como os anabatistas, puritanos e familistas, agravou ainda mais os conflitos de classes, porque o rei da Inglaterra – já executado – fora substituído por Oliver Cromwell (1599-1658) que os perseguia constantemente, considerando-os opositores. Com isso surgiu a ideia de que para obter as desejadas propriedades, as pessoas deveriam fazer por merecer. Os privilégios pautavam-se no discurso da ética fazendo com que o trabalho, e consequentemente a obtenção de lucros, só fosse alcançado se tivesse em sua base a ética protestante.

Oliver_Cromwell_Samuel_Cooper.jpg Oliver Cromwell

No caso da Revolução Francesa, o que chama a atenção são as atribuições de sentido. É comum dizer que a queda da Bastilha é o símbolo representante desse fato, e realmente foi já que ali estavam os intelectuais que se opunham à monarquia. Vale ressaltar que os presos considerados "comuns" ficavam em porões e não na Bastilha, justamente para representar que a monarquia estava acima deles. O próprio Palácio de Versalhes – construído em 1682 – era a representação máxima do poder francês em relação ao restante da Europa. Após a morte do rei Luís XIV (1638-1715), que era chamado de Rei-Sol por causa de seu elevado poder e brilho, a monarquia passou a apresentar os primeiros sinais de uma futura queda. Foi durante o reinado de Luís XVI (1754-1793) que a Revolução Francesa aconteceu, fato.

bas1.jpg Representação da Queda da Bastilha - Data é comemorada até hoje pelos franceses!

A crise econômica causada pelos gastos excessivos da Corte, que incluíam o suporte excessivo à boa aparência de Maria Antonieta, somados à despesa com os Estados Unidos em 1772 geraram uma inflação imensa, que obviamente não surtia efeitos negativos sob o clero e a nobreza.

maria antonieta catarse dionísica.jpg Maria Antonieta

Uma das classes que mais sofreu com a cobrança de impostos e que mais tarde viria a se tornar uma das vertentes da Revolução Francesa foi a que existia no interior do Terceiro Estado, composto pelo proletariado urbano: os sans-culottes. O próprio nome dessa classe foi originado a partir de uma simbologia:

“Na França, cada grupo, dado o caráter estamental rígido da estrutura social, se distinguia até mesmo por detalhes como a vestimenta, o lugar que ocupava na Igreja, etc.; daí o nome de ‘sem culotes’ dado aos pobres urbanos.” (FLORENZANO, 2011:28)

439px-Sans-culotte.jpg Sans-Culottes represenado por Louis Léopold Boilly - Um dos principais pintores da Revolução

A França, após a Revolução, forneceu ao restante do mundo um novo vocabulário através de pesos e medidas para influenciar as compras de terras, por exemplo. As lideranças burguesas, jacobinos e girondinos, determinaram o rumo político mundial que atua até hoje. Como diria Hobsbawm: “A França forneceu o vocabulário e os temas da política liberal e radical-democrática para a maior parte do mundo.”Através desses novos temas políticos, a simbologia também foi alterada.

A tomada da Bastilha em 1789 e a execução do Rei Luís XVI em 1793 representaram a queda de um regime político e a ascensão do liberalismo, mas um atentado terrorista como o ataque ao World Trade Center ocorrido em 2001 não ameaçou o capitalismo, pelo contrário. Isso só é um exemplo de como as atribuições de sentido, as interpretações e a leitura social, de um modo geral, modificam-se de acordo com a classe dominante. Vale ressaltar também a alteração das punições: se antes se davam através do corpo, como foi o caso do Rei, agora ela é aplicada através do campo psíquico, privando a liberdade (in) diretamente.

Hinrichtung_Ludwig_des_XVI.png A execução de Luís XVI - Gravura alemã

Vale a pena dar uma lida nos livros aqui citados.

FOUCAULT, Michel. VIGIAR E PUNIR, 2010. Editora Vozes, Rio de Janeiro. FLORENZANO, Modesto. AS REVOLUÇÕES BURGUESAS, 2011. Editora Brasiliense, São Paulo. MARX, Karl. O 18 DE BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE, 2011. Boitempo Editorial, São Paulo.


Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural.
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