café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

O que há de comum entre Peter Paul Rubens e Drummond

Uma coisa inesperada une Drummond e Peter Paul Rubens! Os artistas discutiram sobre a estética feminina mesmo tendo três séculos de intervalo entre um e outro.


De manhã eu estava no metrô lendo Carlos Drummond (1902 - 1987), pra variar, e me deparei com o conto "As Três Graças" que leva o mesmo nome do quadro de Peter Paul Rubens (1577 - 1640), famoso por registrar as celulites das moças. Deixando os anacronismos de lado, Drummond conseguiu fazer uma linha tênue com mais de 300 anos de distância, extremamente genial.

405064_10151226179349586_1429703711_n.jpg As Três Graças (1639) de Peter Paul Rubens

"Um doutor em estética do corpo, ao visitar o Museu do Prado, em Madri, achou que as Três Graças, na tela de Rubens, sofriam de celulite, mais acentuada na Graça do centro. Procurou o diretor do museu e sugeriu-lhe que o quadro fosse submetido a tratamento especial, de modo a ajustar os nus femininos aos cânones de beleza e higidez que hoje cultuamos. O diretor ouviu-o polidamente e respondeu que nada havia a fazer, pois as obras-primas do passado são intocáveis, salvo quando acidente ou atentado tornam imperativa a restauração. Além do mais, pode ser que no século XVII o que hoje chamamos de celulite fosse uma graça suplementar. À noite, o esteta inconformado tentou penetrar no museu, foi impedido e preso. Interrogado, explicou que queria raptar o quadro e confiá-lo a famoso especialista em cirurgia plástica, pois o caso não era de restauração nem de regime alimentar. Seria a primeira vez em que uma obra de arte receberia tratamento médico especializado, feito o qual tornaria ao museu. O homem foi mandado embora, com a advertência de que sua presença não seria mais tolerada em museus espanhóis. E aconselhado a frequentar assiduamente as praias, para se habituar às imperfeições do corpo humano, que formam a perfeição relativa." Carlos Drummond de Andrade (Contos Plausíveis, página 49, reedição de 2012, da Companhia das Letras)

A estética - principalmente a feminina -, sempre foi um incentivo para discussões, ainda mais hoje em dia. É interessante observar que Rubens não pintou o quadro com a intenção de deixar para a eternidade os famosos furinhos porque isso era algo que não causava tanto furor entre as mulheres. Ainda bem que homens como o Drummond souberam resumir em uma frase o descaso benéfico com essa questão natural: "E aconselhado a frequentar assiduamente as praias, para se habituar às imperfeições do corpo humano, que formam a perfeição relativa." Ora, não há nada mais normal do que isso. É só saber apreciar!


Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural.
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