café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

A trágica relação de Van Gogh e Gauguin

Van Gogh foi um pintor de "coração fanático" como afirmava seu irmão Theo e isso todo mundo sabe. Suas obras de arte só são compreensíveis a partir do momento que fazemos uma relação com sua vida pessoal. Os quadros "A Cadeira de Vincent com seu cachimbo" e "A Cadeira de Gauguin" parecem bem simples e realmente são, mas a mensagem por trás deles glorifica ainda mais o pintor que afirmava "O que minha arte é, eu sou também".


van-gogh-painting-sunflowers-1888.jpg Vincent van Gogh pintando girassóis - nov/1888 de Gauguin

"Sou obrigado a voltar para Paris. Vincent e eu não podemos de modo algum continuar vivendo lado a lado sem atritos, devido à incompatibilidade de nossos temperamentos e porque nós dois precisamos de tranquilidade para nosso trabalho. Ele é um homem de inteligência admirável que tenho em grande estima e deixo com pesar, mas, repito, é necessário que eu parta."

O trecho acima é de uma das cartas de Paul Gauguin em 1888 para Theo, irmão de Van Gogh que estava "patrocinando" a carreira do pintor, desde que ele fizesse companhia a Vincent na Casa Amarela (nomeada assim depois de um quadro feito por ele) localizada no sul da França, em Arles. Como você pode ver, a parceria não deu certo e motivos pra isso acontecer não faltaram.

A única coisa que Gauguin e Van Gogh tinham em comum era o dom pra pintar. Fora isso, não tinham mais nada! No ano de 1888, quando começaram a trabalhar juntos, as discórdias surgiram cedo. Enquanto Van Gogh preferia pintar em lugares abertos, Gauguin preferia os lugares fechados. Van Gogh dava acabamento a suas pinturas com verniz, Gauguin desprezava isso e detestava as tintas do companheiro. Um pintava pela razão e o outro pela emoção. Gauguin atacava as preferências de Van Gogh, ele por sua vez respondia com ataques de fúria e além dessas diferenças "profissionais", outras envolvendo a facilidade de Gauguin para arranjar namoradas e a saúde de ferro do pintor também incomodavam, sem contar que os quadros dele eram comprados enquanto os de Vincent não.

gauguin.jpg Autorretrato de Paul Gauguin (1889-1890)

Tudo isso passou a frustar Van Gogh que acreditava que com a chegada de um pintor para lhe fazer companhia e trabalhar, sua vida iria mudar pra melhor, ficaria mais feliz. Nada saiu como o planejado e a solidão - que sempre foi algo frequente em sua vida - voltou a ser o "centro seguro do olho do furacão".

Foi nesse contexto que ele pintou primeiro sua própria cadeira, com elementos simples que diziam muito sobre sua personalidade: uma cadeira humilde, um cachimbo e uma bolsa de tabaco em cima, representando a ideia de que ele não precisava de muita coisa pra pintar. A técnica fica visível a partir das camadas grossas das pinceladas, com os objetos contornados e a luz "natural".

179231post_foto.jpg A cadeira de Vincent com seu cachimbo, dez/1888 - Van Gogh

A cadeira de Gauguin já é o oposto da sua, e de fato foi comprada por ele anteriormente quando soube que iria dividir a Casa Amarela com o pintor. Em cima dela há um livro e uma vela que representam a racionalidade de Gauguin e a imaginação que ele tanto dizia para Vincent utilizar em vez da observação. A luz é artificial e o ambiente mais escuro. O chão dessa vez tem um tapete e a pintura de um modo geral é mais sofisticada do que a cadeira anterior.

va02.jpg A cadeira de Gauguin, dez/1888 - Van Gogh

Mais tarde, Van Gogh resumiu o tema que o quadro "A Cadeira de Gauguin" representava: "Tentei pintar seu lugar vazio, a pessoa ausente."

Os conflitos entre os dois culminaram no fato mais famoso sobre a vida de Van Gogh. No dia 23 de dezembro de 1888, Gauguin saiu da Casa Amarela sem a certeza de que iria ou não embora de lá, mas quando foi abordado por Vincent na rua (depois do mesmo sair correndo atrás dele), afirmou que iria sim partir para Paris, sem volta - isso aconteceu depois de mais uma discussão entre os dois sobre uma notícia no jornal. Gauguin seguiu seu caminho e Van Gogh retornou à Casa Amarela, delirando. A passagem abaixo da biografia atualmente definitiva do pintor relata como se deu tal fato:

"Vincent tinha passado a vida infligindo dor e incômodo à imagem no espelho: recusando alimento, dormindo no chão e choças geladas, espancando a si mesmo. Mas esse crime exigia mais. A mente febril fervilhava com imagens de punições ao pecado, dos golpes de espada que os apóstolos infligiram aos agressores de Cristo no Getsêmani aos brutais exorcismos do Rêve de Zola e às mutilações em La terre e Germinal. O irmão traiçoeiro que arrancara o herói de Zola ao jardim do Paradou tivera a orelha decepada.

1241790096324_f.jpg Autorretrato com orelha enfaixada e cachimbo, jan/1889 - Van Gogh Vincent pegou a navalha em cima da mesinha e abriu a lâmina. Agarrou a orelha do criminoso e esticou o lóbulo com toda a força. O braço cruzou o rosto e ele golpeou a carne culpada. A lâmina escapou da parte de cima da orelha, desceu até mais ou menos a metade e cortou até a mandíbula. A carne se desprendeu com facilidade, mas a cartilagem borrachenta exigiu brutalidade ou perseverança até a carne se soltar e ficar entre seus dedos. A essa altura, o braço estava todo ensanguentado." (p. 819)

Para ler: Van Gogh - A Vida Steven Naifeh e Gregory White Smith Editora Companhia das Letras


Fernanda Pacheco

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