café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

A relação do malandro com a arte

Hoje em dia quem está disposto a ser um flâneur tal como o cronista João do Rio, que já definia esse estilo de vida lá no começo do século XX? O malandro passou a ser visto com outros olhos, da mesma forma que os artistas de rua da nossa atualidade.


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"Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem [...] Flanar é a distinção de perambular com inteligência.” (João do Rio em A Alma Encantadora das Ruas)

As alterações ideológicas que o Brasil passou com a chegada da Primeira República forraram com cimento a cultura do malandro que passou a ser vista com outros olhos, principalmente depois da década de trinta. Antes tínhamos os sambas de Wilson das Neves que enfatizava o quão bom era levar a vida tal como um flâneur (o uso dessa palavra relacionada com o sambista é de minha total responsabilidade porque varia muito o ponto de vista) e depois, com o início do governo Vargas, Noel Rosa já respondia com um samba que advertia justamente o contrário, mostrando que o sambista não era malandro e sim um homem trabalhador. Por que isso aconteceu?

“Meu chapéu do lado Tamanco arrastando Lenço no pescoço Navalha no bolso Eu passo gingando Provoco e desafio Eu tenho orgulho Em ser tão vadio” (trecho de Lenço no Pescoço de Wilson Batista, 1933)

“Deixa de arrastar o teu tamanco Pois tamanco nunca foi sandália E tira do pescoço o lenço branco Compra sapato e gravata Joga fora esta navalha que te atrapalha” (trecho de Rapaz Folgado de Noel Rosa, 1933)

Vargas se apropriou de elementos populares para alcançar o povo e obviamente o samba foi um dos principais objetos utilizado ao seu favor. Com a criação das leis trabalhistas, o desenvolvimento da ideologia liberal e o avanço do industrialismo no país um novo critério de “sobrevivência” entrou em vigor: a meritocracia. A ideia de que o pobre era pobre porque não trabalhava, não estudava e não merecia “chegar lá“ passou a refletir na cultura produzida pelo país, e a ideia de que o rico ficara rico porque se esforçara idem. Mostrar a carteira de trabalho passou a ser sinal de honestidade e confiança (até hoje). Foi a partir daí que esquecemos, por exemplo, que com a abolição da escravidão em 13 de maio de 1888 não foi criada NENHUMA lei de amparo e NENHUM apoio social para os negros que consequentemente tiveram que enfrentar o preconceito extremamente vigente em nossa sociedade até hoje. A música era a principal forma de distração para suportar os maus-tratos e péssimas condições de vida dos escravos e depois dos libertos. Abaixo um exemplo de canto dos negros no Brasil (típico da religião Umbanda) e em seguida o canto dos negros que trabalhavam em campos de trabalho forçado nos E.U.A.

Mas, voltando ao assunto do flâneur, observamos que existem muitas ramificações dessa cultura em nossa sociedade, principalmente em grandes centros urbanos como São Paulo. Particularmente, eu aprecio muito quando estou andando pela cidade e me deparo com algum artista de rua. É um contraste entre a cidade poluída - com pessoas apressadas, carros, barulhos insuportáveis e todo o clichê urbano - e a delícia de parar pra respirar enquanto alguém se dispõe a proporcionar alguns instantes de entretenimento. Admiro demasiadamente quem tem a ousadia e a coragem de viver em uma sociedade neoliberal que se alimenta do lifestyle modern times para viver da arte, simplesmente. É óbvio que essas pessoas não estão imunes! Elas ralam e também sofrem com o “capetalismo”, mas ora, elas fazem parte do seleto grupo de pessoas que faz o que ama e que é feliz com isso. Fique 5 minutos sentado em qualquer esquina da Paulista no horário do almoço e observe quantas pessoas demonstram felicidade enquanto correm com seus celulares.

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Com a finalidade de não deixar esse artigo tão pesado, aproveito para apresentar a você uma banda que certamente se encaixa nesse grupo que acabei de falar. Chama-se “Mustache e os Apaches” e recentemente os integrantes, que são uns músicos de extrema qualidade, lançaram o disco homônimo com dois singles: Twang e Come to sing with us!

532387_389090967816095_1924183942_n.jpg Jack Rubens, Axel Flag, Lu the Miner, Pete Shapperd e Oliver Tomas

A banda que surgiu em São Paulo toca estilos como dixieland, jazz, folk, rock & roll e é composta por (nomes artísticos) Pete Shapperd (violão, kazu e voz), Oliver Tomas (contrabaixo e voz), Axel Flag (vocal), Lu the Miner (bateria e voz) e Jack Rubens(bandolim) me lembra muito o estilo “flâneur” que comentei logo no início. Não, eles não são músicos vagabundos, pelo contrário, mas perambulam pelas ruas de certo modo “vadio intelectual” como dizia João do Rio, fazendo música e atraindo pessoas que durante uma hora de tédio e caos urbano, se deparam com eles alegrando e entretendo da melhor forma possível o público.

É extremamente atraente a maneira como os shows se desenvolvem, porque você passa a fazer parte do espetáculo e rola uma viagem nostálgica positiva durante as músicas. Parece que de fato você se transportou para algum período da belle époque brasileira, ou dos barzinhos folks onde Bob Dylan iniciou sua carreira, passando inclusive por algum cabaré do final do século XIX. Dá saudade de uma época não vivida, entende?

A melhor conclusão que eu posso tirar de tudo isso é muito simples. Tão simples que eu não preciso escrever: basta você abrir sua janela e dar uma olhada na rua... Talvez você saia andando por ai e se depare com alguma criatura de espírito livre respirando arte como os meninos da banda acima! É só prestar atenção no que está ao seu redor e valorizar aquilo que desperta a parte "humana" do seu ser.


Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural.
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