café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

O país dos Bestializados

O livro "Os Bestializados - O Rio de Janeiro e a República que não foi" de José Murilo de Carvalho esclarece toda a atualidade do Brasil no campo social e político. O assunto parece chato, mas garanto que você chegará à mesma conclusão que o autor.


angelo-agostini-1887-charge-imperador-dom-pedro-ii.jpg Charge de Angelo Agostini retratando D. Pedro II em 1887

Primeiro preciso deixar claro uma coisa: não gosto de política, mas isso não significa que não tenho a obrigação de me interessar por ela. Parece conversa de gente engajada, mas é realmente necessário que a população tenha consciência do que acontece.

De um modo geral, e do ponto de vista de uma estudante de História, uma das principais obras que esclarece o porquê da política nacional ser tão suja é o livro "Os Bestializados - O Rio de Janeiro e a República que não foi" de José Murilo de Carvalho. É surpreendente (negativamente) como as coisas se deram com a Proclamação da República. Vale lembrar que o nosso amigo D. Pedro II estava consciente do que iria acontecer e inclusive, pediu para ser nosso primeiro presidente (pouco prepotente, não?).

Os-Bestializados_Jose-Murilo-de-Carvalho.jpg "Os Bestializados - O Rio de Janeiro e a República que não foi" de José Murilo de Carvalho

Tínhamos lá três políticas diferentes para reger o país: a militar, a oligarquia e a democracia intelectual. Os militares, como sabemos, ganharam e Deodoro da Fonseca junto com Floriano Peixoto comandaram o país de 1889 até 1894. Na presidência de Deodoro surgiu um "fenômeno" econômico chamado encilhamento que baseou-se na emissão de dinheiro em forma de papel na tentativa de dar conta dos assalariados que haviam aumentado por causa da abolição da escravatura.

proclamacao-da-republica.jpg Proclamação da República", 1893, óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853-1927) Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo

Conclusão: a inflação aumentou, os produtos internos perderam o valor e os externos aumentaram brutalmente (naquela época consumia-se mais produtos importados). Haviam pessoas que enriqueciam do dia pra noite por causa da especulação bancária e isso acabou gerando um forte distanciamento entre os pobres e os ricos. A questão aqui é que os pobres eram maioria e os ricos, minoria.

Floriano por sua vez assumiu um Brasil com a economia frágil e a moeda desvalorizada. Foi um governo com mais baixos do que altos passando por várias manifestações a favor de novas eleições e revoltas que buscavam monopolizar o território como a Federalista que começou no Rio Grande do Sul e passou por Santa Catarina, causando um grande massacre nesse estado. Não é à toa que sua capital chama-se, infelizmente, Florianópolis.

Floriano_Peixoto_na_revista_D._Quixote_1895.jpg Marechal Floriano Peixoto durante a Revolução Federalista no Desterro que passou a se chamar Florianópolis

Bom, relacionando essas duas pequenas introduções com a política nacional, basta ler abaixo alguns trechos que retirei do livro do Zé Murilo:

"A confiança na sorte, no enriquecimento sem esforço em contraposição ao ganho da vida pelo trabalho honesto parece ter sido incentivada pelo surgimento do novo regime". (p. 28)

"Mas chegados ao poder, do espírito de república guardavam no máximo alguma preocupação com o bem público, desde que o público, o povo, não participasse do processo de decisão." (p. 34)

"A ordem aliava-se à desordem, com a exclusão da massa dos cidadãos que ficava sem espaço político. O marginal virava cidadão e o cidadão era marginalizado". (p 38)

"No Rio de Janeiro reformado circulava o mundo belle-époque fascinado com a Europa, envergonhado do Brasil, em particular do Brasil pobre e do Brasil negro". (pag. 41)

"O direito político, nesta concepção, não é um direito natural: é concedido pela sociedade àqueles que ela julga merecedores dele (...) Ficava fora da sociedade política a grande maioria da população". (p. 44-45)

"Os acontecimentos políticos eram representações em que o povo comum aparecia como espectador ou, no máximo, como figurante". (p. 163)

charge-ique-maluf1.jpg

A partir desses trechos fica bem evidente que o povo, a população, os pobres não participavam da vida política da capital Rio de Janeiro, muito menos do país, decorrente da república que não fazia uso da democracia como um todo. Excluindo os iletrados, os pobres, os negros e as mulheres só restava a elite para decidir o rumo do estado e obviamente que dentro disso a elite escolhia o que lhe interessava. Sérgio Buarque de Holanda já dizia que o brasileiro é um homem cordial, mas não no sentido da bondade ou generosidade e sim no sentido de agir com o coração em relação àquilo que lhe diz respeito, é ser individualista.

sergio_buarque_de_holanda.jpg Sergio Buarque de Holanda

Fora essa exclusão, sabemos que as condições de vida eram precárias nessa época também. Saneamento básico, educação, saúde e moradia eram coisas de rico. Olavo Bilac dizia que a capital passava inclusive por uma crise de habitação depois do bota-abaixo do prefeito Pereira Passos na segunda década da República. Os alugueis aumentaram e a população "vadia" foi obrigada a sair do centro para isolar-se nos cantos e nos morros originando hoje o que conhecemos como favelas. No trecho abaixo de João do Rio (meu querido Jão) publicado em sua coluna "A Cidade" no jornal Gazeta de Notícias em 1903, ele explicita o que era esse contraste urbano diante da realidade cruel da população:

"Mas essa só pode ser ilusão de quem nunca saiu da rua do Ouvidor... Quem anda pelos morros que cercam a cidade, quem perlustra essa misteriosa lôbrega zona de casebres e de estalagens em que vive a gente miserável, é que pode saber o que é a crise terrível de higiene e de moral, que a cidade está atravessando. Ah! Se a miséria dos fracos, contrastando com a fortuna dos fortes é uma prova de civilização, podemos dizer com um orgulho para louvável, que estamos civilizados...E é interessante (para não dizer revoltante) que só nos mostremos impressionados pelos aspectos da nossa vida essencialmente urbana, e preocupados com o saneamento do centro da cidade, quando o grande mal, o mal terrível, o mal hediondo está nessas furnas, nessas bibócas, nessas bestesgas imundas da nossa white-chapel – onde ninguém sabe ler, e onde ninguém toma banho!"

1108639973_f.jpg Avenida Rio Branco no Rio de Janeiro, marco da Belle Époque brasileira no começo do século XX

Os casos atuais de corrupção e bandidagem são frutos da desordem da Primeira República, onde a população durante a proclamação achava que aquilo era apenas mais uma festa. Essa é a questão: o povo se acomodou e a política continua seguindo fielmente a sua origem. Aquela frase "um povo que não conhece sua história está fadada a repeti-la" é piegas, mas super contextual. Hoje em dia temos condições de conhecer nossa história e fazer o contrário da frase, mas não... É preferível deixar as coisas como estão. E o pior de tudo é que se resolvemos tomar uma atitude contra toda essa bagunça, a repressão vem por meio da força e isso aconteceu durante toda a história do Brasil. Recomendo que desliguem suas televisões, leiam de modo crítico os jornais, atentem-se aos autores dos escritos que chegam até vocês e mantenham contato com o que vivemos todo dia. Não chegamos nem perto da cidadania ainda. O "país de todos" que o governo tanto joga na nossa cara não existe e agora sabemos o porquê.

Termino esse post com um trecho de "O Povo Brasileiro", de Darcy Ribeiro:

"Ao contrário do que alega a historiografia oficial, nunca faltou aqui, até excedeu, o apelo à violência pela classe dominante como arma fundamental da construção da história. O que faltou, sempre, foi espaço para movimentos sociais capazes de promover sua reversão. Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida..." (p. 23)

Para ler: O Povo Brasileiro - Darcy Ribeiro


Fernanda Pacheco

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