café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

A música francesa durante a ocupação nazista

Ah, os franceses! É fácil ver por ai as pessoas dizendo que a França é o país da arte, do charme e da boemia - com razão. Tal fama não se perdeu nem quando os nazistas ocuparam entre 1940 e 1944 a Paris da antiga Belle Époque, originando grandes clássicos musicais e cantores posteriores que eternizaram o drama francês.


011_edith_piaf_theredlist.jpg Édith Piaf

A França já foi o país mais efervescente do mundo e isso todo mundo sabe. Muito da atual fama que rodeia a nação francesa se deve ao seu passado cheio de cabarés, de produções artísticas que mudaram o cenário mundial, da belle époque que perdeu um pouco a graça depois da Primeira Guerra Mundial (3,5% da população, na maioria homens em idade produtiva, morreram nas trincheiras), mas que voltou com tudo na década de 20 como em "Paris é uma Festa" de Hemingway e de vários outros motivos -- isso contando apenas a virada do século XIX até o começo do XX. Aqui eu vou tratar de um período específico: de 1940 até 1944, ou mais precisamente, durante a ocupação nazista. E tentarei me focar apenas (difícil) no que surgiu na música francesa.

Hitler-in-Paris-001.jpg Hitler em sua única visita à cidade

Ok, dominar Paris não foi difícil para Hitler (conquistar a capital dos países era a maneira de dizer "perdeu playboy! teu país é meu"), mas fazer a Alemanha tomar o lugar da França no quesito "pólo cultural do mundo" foi uma tarefa complicada. Enquanto o alemães queriam que a festa continuasse para distrair a população e os soldados, os franceses faziam de tudo pra enfatizar cada vez mais que a cultura deles nunca seria substituída pelos invasores. Aliás, os 49 cabarés de Montmartre provavam bem isso.

699px-Hitler_in_Paris,_23_June_1940.jpg Ao lado direito de Hitler está Arno Breker, seu escultor favorito

Acontece que nem tudo era assim aparentemente tranquilo. Foi nesse período que perdemos filósofos e historiadores como Walter Benjamin (suicídio) e Marc Bloch (fuzilado pela Gestapo), literatos como Irène Némirovsky (morreu em Auschwitz de tifo), censuras nos escritos de Cocteau, além de uma série de quadros que foram perdidos por causa da obsessão de Hitler em confiscar coleções pertencentes aos judeus -- o que interessava a ele (arte clássica) ia para a Alemanha e o que não interessava (impressionismo, expressionismo, cubismo) era destruído ou perdido. Picasso, que já era consagrado, não valia nada para os nazistas. Felizmente, Sartre, Simone de Beauvoir e Camus produziram obras já eternizadas (só pra citar alguns).

Mas enfim, eu vim aqui falar de música.

jb20s4.jpg Josephine Baker

Os cabarés abrigavam grandes artistas. Para a tristeza de alguns, Josephine Baker -- uma das maiores estrelas do cabaré francês nessa época -- parou sua carreira na França para se apresentar em outros países. Ruim por um lado, bom para o outro porque outra artista famosa, Mistinguett, apareceu para divertir os alemães.

Saindo dos cabarés e indo pra outro palco, apareceu Charles Trenet, o le fou chantant. O cantor era do tipo "gente boa", autor de clássicos como "La Mer" e costumava agradar bastante o público.

600full-charles-trenet.jpg Charles Trenet

Cantava com nostalgia sobre o passado feliz em "Que reste-t-il de nos amours?", mas isso não o livrou de ser perseguido. Os nazistas diziam que ele era judeu porque, segundo eles, Trenet era um anagrama de "Netter", sobrenome típico. Não, ele não era judeu, mas era homossexual e sentiu-se obrigado a viajar para a Alemanha com a finalidade de cantar aos prisioneiros de guerra franceses.

Da mesma forma que ele, Edith Piaf também teve que ir até a Alemanha com o mesmo propósito (um bom motivo, convenhamos). Antes disso, a cantora se apresentou em quase todas as casas de espetáculos de Paris! Os alemães a assistiam e a censuravam.

009_edith_piaf_theredlist.jpg Piaf

Uma canção censurada, por exemplo, foi "Mon légionnaire" e isso não a intimidava. Dedicava músicas aos prisioneiros e chegou até a esconder três amigos judeus!

O próximo era o mais "pop" da França até então: Chevalier. Sim, assim como Piaf e Trenet ele também foi até a Alemanha cantar para os prisioneiros e sua esposa, a atriz Nita Raya, era judia. Ele conseguiu protegê-la e conseguiu consagrar sua carreira no país durante a ocupação, longe de Paris.

Maurice-Chevalier-9246489-2-402.jpg Maurice Chevalier

Acontece que o rapaz era do tipo que puxava o saco de Pétain, o cara que comandava a política francesa apoiando os nazistas (com a queda do nazismo, Pétain foi condenado e pegou prisão perpétua). Por que? Ah, talvez pra não complicar a esposa... Talvez. Conclusão: ele passou a receber ameaças de morte dos franceses livres que moravam em Londres! Mas isso ele superou.

De origem cigana, que por sinal os nazistas repudiavam, Django Reinhardt era o guitarrista de jazz mais aclamado de Paris. Os alemães, que não eram muito fãs desse estilo musical, passaram até a gostar das noites que Django embalava no Hot Club de France.

Django-Reinhardt-Photo.jpg Django Reinhardt

O jazz era visto com muito preconceito racial pelos nazistas, porque era criação da cultura "estragada" dos negros, segundo eles. A gente discorda e dá aleluia pelo jazz existir, certo? Enfim, Django obviamente não sentiu-se seguro em Paris e partiu pra Suíça. Lá ele foi detido pelos guardas alemães, MAS, o oficial que foi submetido pra essa ocasião era fã do cara e felizmente o libertou! Olha só o poder da música!

Enquanto essa galera toda já sofria os malefícios da ocupação nazista em suas produções musicais, o pequeno Serge Gainsbourg era obrigado a ir pra escola usando a famosa estrela amarela no peito que evidenciava os judeus perante a sociedade. Sua imaginação fértil acreditava que aquilo era um distintivo de xerife, ou seja, que aquilo o tornava especial de um jeito legal.

Serge-Gainsbourg-006.jpg Serge Gainsbourg

Pra quem não sabe, Serge se tornou um dos maiores cantores franceses (quiça do mundo) de todos os tempos. Na década de 60 eu acho que ele foi o maior, inclusive. Não conhece? Dá o play na música abaixo (que ele gravou inicialmente com Brigitte Bardot e depois com Jane Birkin) que você vai se recordar dele e de outros momentos, quem sabe.

Outro que passou a adolescência vivenciando a ocupação nazista não na França, mas na Bélgica, foi Jacques Brel.

060705_114559_import.jpg Jacques Brel

Racionamentos, deportações, censuras e afins fizeram do jovem Brel um rebelde que anos depois se tornaria um exemplo de sentimentalismo exacerbado através de músicas, com interpretações emocionantes que se tornaram clássicos.

Para ler: Paris, a festa continuou - A vida cultural durante a ocupação nazista, 1940-4. Autor: Alan Riding. Editora: Companhia das Letras.


Fernanda Pacheco

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