café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

O fracasso genial de Tim Burton

Marte Ataca! é um filme de 1996 dirigido por Tim Burton, considerado um fracasso de bilheteria, com uma péssima repercussão nos Estados Unidos e pasmem: genial. Sim, extremamente genial e eu te conto o porquê.


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Comecemos pelo esqueleto da obra: Tim Burton na direção – já aclamado como um diretor renovador depois de Edward Mãos de Tesoura (1990) –, um elenco pesado contando com Jack Nicholson, Glenn Close, Pierce Brosnan, Danny DeVito e os novatos da época Natalie Portman e Jack Black. Isso só pra citar alguns. Todos conscientes de que fariam um filme com baixa renda, tosco e contraditório. Todos conscientes de que fariam um filme que criticaria os Estados Unidos com direito a todas as blasfêmias possíveis. “Um tapa na cara da sociedade americana”, como se diz por aqui.

E deu certo.

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A gente nem precisa se aprofundar muito pra notar que o diretor faz questão de ridicularizar todos os clichés hollywoodianos. Isso é só a crítica superficial do filme. Quando você acha que vai ver mais uma cena piegas, ele corta pra algo nada a ver. Ele estoura o balão, digamos assim.

Exemplos:

Os marcianos (animações bizarras) dizem que vieram numa missão de paz e um hippie decide jogar uma pomba branca pro céu, ou seja, a ridicularizarão do ridículo. Conclusão: quando você acha que está tudo bem, o marciano mata a tal pomba e BUM! Começa a ação do filme! Aliás, tudo isso só começa porque os tais marcianos implicam com o emblema dos E.U.A. que tem um pássaro.

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No meio da batalha entre os seres humanos e os marcianos no deserto da Nevada, a apresentadora patricinha, dona de uma cadelinha insuportável, Nathalie Lake (Sarah Jessica Parker) rasteja pelo chão para tentar alcançar a mão do seu namorado, o jornalista egocêntrico Jason Stone (Michael J. Fox). Durante o close das mãos lutando para se tocar, a câmera corta para o corpo carbonizado do rapaz – a moça estava, de fato, apenas com a mão dele.

Nessa mesma parte do filme, há uma crítica mais radical. Billy, o personagem de Jack Black, alienado pela família para se alistar no exército, resolve correr pra atacar os marcianos, inflado de coragem, e na hora de montar sua arma – ação que ele treinava com o pai loucamente – dá errado. Ele então pega a bandeira dos Estados Unidos e a balança como se fosse o sinal maior de redenção. É óbvio que o marciano ri daquilo e mata o soldado, com a bandeira e tudo! A cena da bandeira dos E.U.A queimando embrulhou o estômago de muita gente patriota, tenha certeza.

O presidente é a maior piada do filme! Representado por Jack Nicholson, o estereótipo de poder é totalmente destruído. Temos ali um presidente que se preocupa mais com o terno que usará no dia da invasão marciana! Um presidente com cara de preguiçoso, relaxado, e ao mesmo tempo paranoico. Jack Nicholson inverte de maneira personificada todos os estereótipos norte-americanos, às vezes com apenas uma expressão facial. Coisa de gênio!

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A primeira-dama é interpretada por Glenn Cose, uma mulher fútil e competitiva que se preocupa mais com o lustre da Casa Branca se despedaçando no chão do que com a própria morte. A filha do casal é às avessas de todo o espetáculo, Taffy Dale, interpretada por Natalie Portman.

O presidente é cercado por um assessor que procura à surdina prostitutas em guetos para “aliviar o stress do trabalho” e numa dessas, acaba sendo carbonizado depois de ter sido seduzido por um marciano fantasiado de mulher. Esse mesmo marciano consegue entrar no quarto do presidente depois. Cadê a segurança norte-americana mesmo? Sem contar a cena dos irmãos viciados em videogame que defendem o presidente encarando aquilo como uma ficção e não como a realidade.

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Além do assessor tarado, temos também um general fissurado em armas nucleares que não manda em nada e é substituído por outro general negro (tapa na cara do racista) para comandar a recepção inicial dos marcianos e um cientista interpretado por Pierce Brosnan que depois é levado à nave marciana que parece um olho em prol de experimentos alienígenas – ele acaba virando apenas uma cabeça sem corpo que no final se dá bem com o resultado da experiência que fizeram com Nathalie Lake e sua cadelinha chata. Viagens típicas da cabeça semi-surreal anárquica de Tim Burton.

Da tiração de sarro mais simbólica que tem no filme, há a cena da morte do presidente. Ele morre praticamente empalado (É, EMPALADO) depois de “emocionar” o marciano com um discurso arrogante, chamando-o de “pessoinha”. Veja bem, sabemos que os norte-americanos são do tipo que olham para o próprio umbigo e só. Os marcianos chegam pra mostrar que eles não são ninguém! Aliás, pra mostrar que o ser humano não é o centro do universo! Tem uma cena que eles posam pra uma foto e no fundo está o Taj Mahal sendo destruído por mais uma nave. Eles debocham da nossa cara numa boa, não estão nem ai.

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Na real, o Tim Burton tira um sarro do egocentrismo humano e da ganância o tempo inteiro. Essa é a essência do filme.

Outra crítica que é possível pegar num detalhe é quando Richie Norris (Lukas Haas), um vendedor de rosquinhas, chega ao trailer onde mora sua família e diz que irá salvar a avó que está num asilo. O pai diz que a avó já “desintegrou” e a mãe afirma que salvará apenas sua televisão (!). Detalhe: essa mesma família é aquela que encorajou o Billy Glenn (Jack Black) a entrar no exército porque aquilo sim era motivo de orgulho. Richie é o irmão mais novo excluído, o “patinho feio”.

O ápice é justamente a partir dessa cena! Richie ignora os pais e pega a caminhonete em direção ao asilo para salvar sua avó. A esta altura do campeonato, tudo está um caos e os marcianos estão acabando com tudo, enquanto dizem “Viemos em paz, amigos”. Não lembra os E.U.A. quando eles afirmam que está tudo bem e de repente desemboca uma guerra atrás da outra?

A torre Eiffel e o presidente da França já estão destruídos, e a avó – lunática e sem ter noção nenhuma do que estava acontecendo –, encontra-se em seu quarto com fones nos ouvidos, feliz e tranquila. Quando Richie chega ao quarto dela depois de muitos obstáculos, encontra dois marcianos fazendo graça e prestes a matar a velhinha! Num susto, ela puxa os fones e deixa a música vazar. Uma música country insuportável que começa a estourar os cérebros dos marcianos!

BUM de novo!

mars-attacks4-9650.jpg Grand finale:

Richie e sua avó salvam o mundo espalhando a música country por todos os cantos e estourando todos os miolos alienígenas possíveis! A tática da certo e a crítica mor de Tim Burton também. Os heróis são eles: um jovem excluído da sociedade com visual grunge e uma velhinha que anda de cadeira de rodas. No final, rola mais uma sátira hollywoodiana gigantesca! Não vou contar porque já falei demais e você já deve estar cansado (a).

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O que aprendemos analisando um filme de Tim Burton, com uma noção básica de suas outras obras? Que o cara se baseia na defesa dos excluídos na hora de fazer um filme. Esse papo de herói pré-determinado não rola com ele! Vide Edward Mãos-de-tesoura, Ed Wood, Noiva cadáver, até mesmo o remake de “A fantástica fábrica de chocolate” e afins. O mais legal da obra dele é que não há em momento algum a pretensão de fazer um filme engajado. Marte ataca! fracassou por apenas uma razão: é uma piada de mau gosto sobre os norte-americanos contada PARA OS norte-americanos. Fracassou porque naquela mesma época estava em cartaz o Independence Day, apresentando o oposto de tudo que eu te disse até aqui.

Experimenta assistir um seguido do outro e me conta.


Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural.
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