café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

Os sussurros de “Je t’aime moi non plus”

Serge Gainsbourg dizia que “Je t’aime moi non plus”, gravada inicialmente com Brigitte Bardot, era sublime e ao mesmo tempo parecia uma horripilante cópula. Com Jane Birkin foi pura técnica e segundo ele, muito melhor.


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Uma das músicas mais polêmicas da história é a provocativa “Je t’aime moi non plus”, composta por Serge Gainsbourg no inverno de 1967 em Paris, numa cabine apertada do estúdio Barclay com a companhia da musa Brigitte Bardot. A música por sinal foi uma exigência de Bardot depois do início da intensa relação de amor entre os dois. Bardot disse apenas para ele escrever “a mais linda canção de amor que você puder conceber”. Dois anos depois a mesma canção serviu de gatilho para deixar Bardot no passado e fazer de Jane Birkin a nova musa gainsbourgóloga.

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Bardot e Serge Gainsbourg já se conheciam muito antes dessa gravação. Ela era contratada pela mesma gravadora dele, a Philips, e já tinha dado voz para duas composições do cantor: “L’Appareil à sous” e “Bubble Gum”. Os dois só se conheceram mesmo durante um programa de TV em 1967, e assim como inúmeros homens, Serge apaixonou-se perdidamente por B.B., mas o que ele não esperava era a reciprocidade! Com o segundo casamento quase chegando ao fim, Bardot se viu atraída e disposta a fazer daquela relação profissional, um caso discreto de amor. E muito amor, cá entre nós!

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A relação intensa dos dois logo começou a gerar boatos. Era comum encontrar o casal saindo de boates, em carros, e obviamente, trabalhando juntos. Dessa parceria nós ganhamos de presente músicas como “Harley Davidson”, “Comic Strip” e a segunda canção de amor implícita, “Bonnie & Clyde”.

Depois da gravação de “Je t’aime moi non plus”, as coisas mudaram radicalmente! Bardot começou a fazer longas viagens enquanto Serge permanecia na França compondo mais e mais canções de amor. Estava alucinadamente apaixonado por ela e em pouco tempo todo mundo já sabia. Inclusive o marido dela. Durante o caso, Bardot não chegou a terminar oficialmente o casamento. Quando se viu distante de Serge e mais próxima do marido, ela decidiu “salvar” o matrimônio e comunicar essa decisão para o seu já ex-amante que a esta altura do campeonato encontrava-se crente na ideia de que havia encontrado o amor ideal de sua vida. Quando soube que seu relacionamento com ela tinha chegado ao fim, entrou numa fase extremamente melancólica, com direito a paredes do quarto cobertas com fotos dela e um agravamento no vício pela marca de cigarro “Gitanes”. Para piorar ainda mais, o marido de Bardot proibiu a divulgação da música “Je t’aime moi non plus” com o apoio dela.

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Dá uma olhada nesse vídeo aqui:

Serge ficou perdido, desolado e demasiadamente incentivado a compor mais coisas e a investir na atuação. Dos filmes que estavam em sua lista, um deles serviu de inauguração da sua nova fase enquanto artista. O filme na ocasião era “Slogan” e Serge teria que contracenar com uma atriz inglesa, desconhecida por ele até aquele momento. A moça era linda e chamava-se Jane Birkin. Pois é, a dona da voz que eternizou a versão de “Je t’aime moi non plus” oficialmente, e a pessoa mais importante da vida de Serge nos anos que se seguiram.

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Jane já conhecia a versão de Serge com Brigitte Bardot e por várias vezes ela assumiu que sentia ciúmes ao imaginar os dois apertados numa cabine, gravando aquela canção aos sussurros. Serge pediu para que ela gravasse com ele e ela topou, apesar do conhecimento anterior. E como já era de se esperar, a gravação ficou perfeita! É possível até acreditar que, em vez de compor para B.B., ele tinha composto para ela.

Uma curiosidade sobre o título da música: Serge comentou que se inspirou em Salvador Dalí, porque certa vez (reza a lenda) o pintor disse que “Picasso é espanhol – eu também. Picasso é um gênio – eu também. Picasso é um comunista – eu também não (moi non plus)”. A aproximação dos dois aconteceu por um motivo quase certeiro. Foi no chão da sala de estar de Salvador Dali que Serge teve “uma de suas experiências sexuais mais importantes”, muito antes de conhecer Brigitte Bardot e Jane Birkin.

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“Je t’aime moi non plus” foi lançada oficialmente em 1969 e foi censurada em vários países, como Itália, Espanha e Suécia. Na Inglaterra, a BBC baniu a música por considera-la inapropriada. Todas essas restrições só incentivaram ainda mais sua divulgação que despertava uma curiosidade excitante nas pessoas graças aos boatos que diziam que a música tinha sido na verdade uma gravação de sexo ao vivo com um gravador debaixo da cama. Serge, com a elegância de um dândi, respondia aos boatos afirmando:

“Ainda bem que não, pois do contrário acho que teria sido um LP”.

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Acredito que o exemplo maior do amor entre Serge Gainsbourg e Jane Birkin tenha sido – além das parcerias artísticas como "Histoire de Melody Nelson" e da vasta obra solo produzida por ele – um dos frutos da relação do casal. Um fruto chamado Charlotte Gainsbourg. Procure saber!

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Para ler: UM PUNHADO DE GITANES – Sylvie Simmons Editora Barracuda, São Paulo, 2004


Fernanda Pacheco

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