café amargo

Açúcar ou adoçante?

Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural

A música agridoce de Bárbara Eugênia

Bárbara Eugênia é uma exclamação entre as cantoras da geração mais recente.


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Fazer comparações entre ela e as outras moças é algo injusto e preguiçoso. Cada uma tem a sua personalidade, sua qualidade e sua relevância! Além de ter tudo isso, Bárbara esbanja aos montes todo e qualquer talento através de suas composições.

Ponto final.

A cantora é carioca, mas vive em São Paulo para a sorte da própria cidade! Ela é uma das artistas responsáveis por mudar (pra melhor) a qualidade cultural da Paulicéia. Em 2010 ela lançou seu primeiro disco, “Journal de BAD”, que ganhou a fama incerta de melancólico por causa das letras densas. O disco fala de amor e disso ninguém duvida, mas essa mania feia que muitos “críticos” têm de jogar tudo num saco e restringir uma obra com tantas nuances sentimentais a uma mera melancolia quase boba é algo absurdo.

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O disco tem suas particularidades e Bárbara deixa isso muito claro. Desde a voz rouca comestível, passando pelas baladinhas nada piegas, chegando ao estilo vintage de uma finésse extrema, a estreia da cantora foi marcada pela simplicidade de quem faz da arte algo natural – parte da alma e não mera profissão. A intensidade que a acompanha transcende e alcança os ouvintes sem vergonha de ser feliz ou triste! Saindo do empírico e partindo pro racional, o disco tem participações especiais de Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Tom Zé (sim, ele!), Guizado, Tatá Aeroplano, Edgar Scandurra entre outros seres desse escalão que é puro coração! Quando você terminar de escutar o CD, baterá uma carência (in)confortável: cuidado!

Agora, três anos depois, ela voltou a bailar conosco através do disco “É o que temos”, produzido por Edgar Scandurra e Clayton Martin. Os apertos no coração continuaram talvez mais dançantes, não sei, mas de uma forma menos sofrida. A personalidade da cantora ultrapassa todos os estereótipos do romantismo e encara de cabeça erguida os desencontros da vida. Aliás, discordo do rótulo “fossa nova” que andam atribuindo a ela! Além de ser um rótulo de péssimo gosto, é a típica restrição feita por aqueles que não sabem o significado da palavra amplidão.

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Bárbara é exatamente o que escutamos! É uma mulher forte que nos relata o que passa despercebido pela maioria das pessoas que optam viver no raso. Ela olha para si e ainda faz a gentileza de compartilhar com a gente! É coisa de artista de verdade, sabe? Voltando ao racionalismo, este disco também é bombardeado de participações especialíssimas que falam a mesma língua da cantora:

Pélico (o cão-vadio do Xico Sá) participa da canção-diálogo “Roupa Suja”, a banda Mustache e os Apaches participa do veraneio-faroeste de “I Wonder” (atenção à buzina de Lumineiro ao final da música), Tatá Aeroplano compartilha de novo a nostalgia em “Não tenho medo da chuva e não fico só” (parece continuação da música “Dos pés” gravada pelos dois no primeiro disco da moça), e além de tudo isso, Bárbara trouxe para o nosso idioma uma versão da música “Me siento solo” do canalha sentimentalista, Adanowsky.

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Outra versão deliciosa é “Porque Brigamos” para o hit setentista “I am... I’m said” de Neil Diamond. O pacote de sensações ainda vem com o francês charmoso e nada óbvio da cantora (ela participa do grupo Les Provocateurs junto com Edgar Scandurra, procure saber) em “Jusqu’à la mort”.

O exemplo mais claro de que não há uma "fossa nova", mas sim uma provocação inteligente, fica explícito em “Ugabuga feelings” com as guitarras contrastando com a delicadeza quase sarcástica de Bárbara que cita inclusive Clara Nunes na passagem “você passa, eu acho graça”.

Bárbara Eugênia agregou tantas referências excelentes ao longo desses anos que acabou criando um estilo novo e totalmente dela. E se não bastasse, ela é a femme fatale de melhor qualidade da nossa geração! Recomendo demasiadamente a audição dos discos da cantora. Aproveite para se abraçar e bailar no vazio desses dias tão automáticos! Permita-se.

Clique aqui para visitar o site oficial da cantora, ouvir o cd novo e ler o release digníssimo de Xico Sá!

422669_276572362443237_1481559064_n.jpg © Daryan Dornelles


Fernanda Pacheco

Tem 20 anos, é formada em história e aprecia certa miscelânea cultural.
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